ESPECIAL DE NATAL - PT 02

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VALENTINA

Dormia tranquila, mas naquele dia não foi o sol, os passarinhos ou o despertador que me acordaram. Foi um chumbinho de três anos que fazia minha barriga de pula-pula com o bumbum de fralda cheia.

— Tá na hola do papa, papa, papa. — pulava sem dó do meu estômago embaixo dela.

— Ai, filha, assim não. — ainda sonolenta, puxo ela pra perto, abraçando-a.

— TÁ NA HOLA DO PAPAAAAAA! — ela grita, sufocada com meu abraço.

— Alana, cala a boca pelo amor do Papai do Céu! — Helena afunda o rosto no travesseiro, irritada.

— Bom dia, mamãe Tini. — Leo senta na cama com as perninhas cruzadas, o rosto vermelho e amassado, esfregando os olhinhos.

— Bom dia, meu carinha. — sorrio.

— TÁ NA HOL... — Helena logo tapa a boca da irmã. — NÃO PODE FAZER IXU. — Laninha empurra a mão da irmã. 

— Mamãe, faz ela parar. — a garotinha junta as mãozinhas em súplica.

— Ok, peixinha. Tá na hora do papa. — me levanto com Alana no colo, indo até o banheiro.

Tiro a fralda dela e passo um lencinho na região. Pela manhã deixamos ela sem fralda, já que colocávamos e ela mesma arrancava. Tenho minhas desconfianças de que dona Alana tem a mesma questão sensorial da irmã.

— Laninha vai tomer sete pães de quezo. — dizia enquanto passava água no rostinho.

— Tudo isso? Caraca, filha. Você é um saquinho sem fundo.

— Mamãe, me ajuda a colocar a pasta na escova? — Leozinho vem dengoso.

— Filho, você já passou dessa fase, vai.

— Tá bem... — ele sobe no banquinho e se vira.

— É impossível dormir depois desse show da Alana. — Helena entra com cara irritada no banheiro, indo direto fazer xixi.

— Pois é, filha, é complicado... — rio do mau humor matinal dela. — Agora escova os dentes e se troca. Você também, filho.

— Vamos pra onde? — a descarga é acionada depois da pergunta.

— Vamos ficar em casa, princesa. Mas já tem zona demais por aqui. Pelo menos vocês eu quero arrumados, pra eu fingir que dou conta de algo.

Assim que me viro após pegar uma pasta de dente nova, vejo Luiza parada no batente da porta, como se pedisse permissão para entrar no próprio banheiro. As crianças logo correm em sua direção, fazendo festa e gritando. Afinal, é tão raro ter a mãe deles em casa que é de se festejar mesmo. Mas, se eu fosse ela, não gostaria de estar nesse lugar.

Por muito tempo me questionei se eu não estava pilhada demais, ou talvez lutando sozinha pra manter o que é nosso. As lembranças vêm à tona, e com elas a saudade do que fomos um dia. Eu sei que também me deixei faltar nesse relacionamento. Não posso tirar o meu da reta. Mas eu jamais deixei de lado a nossa família. Mesmo que não seja proposital, ela não está aqui.

— Olha, mamãe, eu tô muito brava que você não veio jantar com a gente. Você prometeu. — a voz da Helena me tira do transe.

— Eu sei, princesa. Eu também fiquei muito brava comigo mesma. A mamãe errou feio, né?

— Sim, feio igual a cara de choro do Leo.

— EIIII.  —  O menino se vira indignado. — EU NÃO SOU FEIO NÃO!

SIMPLESMENTE ACONTECE - VALUHistórias para pegar e não largar. Descubra agora