HELENA.
Quando saio do banheiro das mamães, vou pro meu quarto e sento na escrivaninha. Pego uma folha e umas canetinhas coloridas. Eu ainda não tinha escrito minha cartinha pro Papai Noel, então acho que agora é um bom momento. As mamães provavelmente vão brigar de novo.
Elas acham que eu não percebo, mas eu percebo sim. Elas conversam pelos olhares e ficam estranhas às vezes. Eu vejo tudo, mesmo quando elas acham que eu tô distraída.
Esse ano eu não queria pedir nada. Só queria que minhas mamães ficassem felizes de novo. Tá, isso não é totalmente verdade. Eu queria muito um patinete elétrico. Agora nas férias, eu e minhas amigas do condomínio ficamos bastante no parquinho perto da portaria, ele é mais longe de casa. A Beca e a Lorena ganharam um, e é muito legal. Dá até pra fugir da Gabi, que é a menina mais chata desse condomínio inteiro. Se eu ganhasse um, ia ser perfeito. Mas eu prefiro que a gente seja uma família feliz outra vez. Ano que vem eu tento o patinete.
Quando eu tô quase terminando minha cartinha, meu irmão entra no quarto correndo e me dá um susto. Ele tá respirando forte, como se estivesse até sem ar.
— Lelê, eu preciso muito da sua ajuda. — Ele põe a mão na barriga e senta na cama, todo cansado, como se tivesse corrido uma maratona.
— Com o quê? — pergunto, sem parar de pintar o desenho da minha cartinha.
— Eu vim correndo do parquinho da portaria até aqui, atrás do Doni. — Ele engole seco.
— Então foi quase uma maratona mesmo. — digo, pegando o lápis verde.
— A bobona da Gabi me empurrou e eu acabei soltando a coleira dele. Aí eu e o Lorenzo saímos correndo atrás.
— Hilário. Continua... — falo sem muita animação, ainda pintando.
— As mamães falam que homem nunca pode bater em mulher... então eu preciso da sua ajuda. Você é mulher, então você pode bater nela quando quiser, né?
— Sim, posso... mas por que eu faria isso? — largo o lápis e olho pra ele.
— Eu posso te pagar. — Ele fala rápido. — Tenho essa nota de cinquenta que a fada do dente deixou. E mais duas de cem que a vovó me deu pra comprar carta Pokémon. — Reviro os olhos.
— É um bom dinheiro, mas eu tenho problemas maiores agora, Leozinho cabeça de abacaxi. — Respiro fundo e passo o dedo pelo desenho que fiz das mamães.
— Que problemas? — o Leo pergunta, se aproximando da escrivaninha e espiando minha cartinha.
— Coisa importante, Leo. — cubro o papel com o braço.
— Você tá desenhando o quê? Deixa eu ver.
— As mamães. — respondo rápido. Ele inclina a cabeça, curioso.
— Elas tão brigando outra vez?
— Não sei. Talvez. — dou de ombros. — Elas sempre ficam estranhas.
— Eu não gosto quando elas ficam estranhas. — Ele caminha cabisbaixo pelo quarto. — Sera que elas vão morar em casas diferente igual a titia Duda e o Tio Igor?
— Eu espero que não, eu acredito que as mamães se amam muito, elas só estão louconas sem saber como serem felizes juntas. — pego outra canetinha. — Por isso tô pedindo pro Papai Noel consertar elas.
— Dá pra consertar pessoas? Achei que ele arrumasse brinquedos.
— Papai Noel consegue fazer tudo, irmão. — digo, bem séria. Ele para e pensa um pouco.
VOCÊ ESTÁ LENDO
SIMPLESMENTE ACONTECE - VALU
RomanceElas não estavam procurando por amor. Estavam tentando sobreviver. Luiza construiu um império na Europa e aprendeu a ser forte, fria e inabalável. Valentina aprendeu cedo que o mundo não perdoa mulheres sozinhas - e muito menos mães. Separadas por o...
