7 meses atrás.
Eliza, a mãe de Alisson, já estava viajando a dois meses, e Alisson só havia descoberto isso depois do evento que procederá a seguir.
Como Eliza sempre manteve o hábito de dizer que iria embora e a deixaria, Alisson nem mesmo cogitou chamar a polícia para evitar o transtorno, mas o medo e o sentimento de rejeição que sentia vindo da mãe antes de descobrir que ela voltaria, a fizeram atentar contra sua própria vida.
Era horrível ser um fardo, mesmo que muitos estivessem dispostos a lembrar o quão valiosa era a vida da garota, ela sempre manteria consigo os traumas de ter sido fruto de um amor que deu errado, e agora só se mantinha como uma lembrança trágica de que destruiu o futuro que deveria ter sido perfeito para sua mãe, era horrível ser deixada para trás, e era chato que sua genitora tivesse que ter bebido tanto para suportar sua existência.
Então, naquela terça de tarde de meses atrás, Alisson havia tomado uma decisão. Ela deveria apagar o erro cometido pela mãe, e quando/se ela voltasse de viagem, teria o pior presente de sua vida, encontraria o cadáver fetido da filha em estado avançado de decomposição.
Apesar de saber que a mãe se arrependia de te-la tido, também sabia que aquilo a faria chorar, a faria se despedaçar, se destruir, não porque amava a filha, e sim porque aquilo faria seu falecido marido se revirar no túmulo a odiando por ter deixado sua tão preciosa garotinha sentisse que deveria morrer.
Sorrindo de forma sarcástica e sútil enquanto segurava a lamina, Alisson imaginava como a mãe se odiaria ao encontrar seu corpo. Depois de anos vivendo na mesma casa, ela iria se arrepender por te-la ignorado por tanto tempo, se arrepender de cada palavra de ódio proferida, de cada bom dia ignorado, de cada olhar de desprezo, a mulher iria desmoronar, e aquilo fazia Alisson sorrir enquanto fazia o trabalho final.
Mas as coisas não poderiam ocorrer daquela forma, "não era o destino". Então, por pura "conhecidencia", Tyler apareceu para procurar ajuda de Eliza, a renomada advogada. A juíza tinha acabado de arquivar o caso, e nem mesmo apresentou os motivos para essa decisão. E foi assim que ele encontrou sua garota, quebrada, tentando segurar as lágrimas e sorrir enquanto se matava, convencendo a si própria que aquilo a traria conforto, que era uma excelente idéia se matar para dar uma lição na mãe.
Obviamente, Tyler não permitiu que aquilo acabasse. Após invadir a casa quebrando a janela e adentrando por entre os cacos de vidro, ele estancou o sangue na garganta quase completamente aberta da garota, que implorava para que ele acabasse com seu sofrimento, mas ele negou, diferente do que ela própria esperava, ele nem mesmo a levou a um hospital, apenas a costurou como um porco, alegando que o corte não era tão profundo, que não tinha comprometido as artérias e osos e não ajudariam sem envolver a polícia ou pedir documentos.
Naquele mesmo dia, Eliza decidiu responder, e com certeza isso não tinha absolutamente nada haver com a última mensagem deixada pela filha. "Eu tenho uma surpresa pra você, e não é nada que você possa queimar e esquecer como minhas cartas nos dias das mães."
Eliza explicou sobre sua viagem, e com medo do que a filha poderia fazer, agendou sua volta para casa no voou mais próximo que conseguiu já que a garota não respondia as mensagens. Quando chegou em casa, não encontrou a filha, apenas um lamaçal de sangue e a lâmina enferrujando.
Aquelas memórias não traziam nenhuma alegria ou angústia a Alisson, ela simplesmente não se identificava mais com aqueles sentimentos que a fariam fazer de tudo pela atenção e amor da mãe.
Porque eu me mataria pela Eliza?
Ela se questionava compartilhando a memória recuperada com Tyler, que se sentia aliviado por perceber que a necessidade de aprovação constante de Alisson pela mãe, estava desaparecendo.
Quando não existia mais motivos para falar sobre as merdas do passado, começaram a fazer piada sobre seus pais negligentes e narcisistas, era bem mais fácil do que falar sobre o quanto estavam machucados.
A dor os unia, o passado ferrado, as lágrimas nunca derramadas, os socos na parede, as explosões de raiva contidas que os faziam descontar em si mesmos com bebidas ou drogas, tudo parecia "o destino", a forma como se identificavam sem nem mesmo precisar contar oque os afligia já que eram os mesmos motivos e reações, eles pareciam a única pessoa no mundo capaz de entender um ao outro, sem julgamentos ou comentários minimizando aquela dor quando era externalizada através de palavras.
E de repente, a necessidade de palavras desapareceu, simplesmente não precisavam mais verbalizar oque pensavam ou sentiam, pois estavam conectados, era como mágica, seus olhos estavam presos um ao outro, e apenas desviavam o olhar, para intercala-lo com a boca.
Eles clamavam um pelo outro.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Doce Caos
Mystery / ThrillerEssa história contém muitos temas sensíveis como; Abuso psicológico. Violência doméstica. Agressão. Sequestro. Feminicídio. Homicídio. Tortura. Sexo. Pessoas sensíveis a isso, por favor, evitem ir a fundo nessa leitura.
