Dia 0

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Alguma coisa está errada.

De longe, podia ouvir o cantar abafado os pássaros, o dançar das folhas que se tocavam conforme o vento as soprava, e de perto – um zumbido alto e constante que vinha de dentro da própria cabeça.

O som dos dentes se chocando devido a mandíbula tremula, as batidas do próprio coração.

Quando finalmente abriu os olhos, feixes de luz que atravessavam as folhas, pareciam querer cortar sua retina, como se mesmo inconscientes, tentassem a censurar.

Mesmo quando seus olhos já tinham se acostumado com a luz, a garota continuou piscando, na esperança de que aquilo a fizesse entender oque estava acontecendo.

Procurou em sua mente por qualquer vestígio de que já estivesse estado ali antes, mas não conseguia se lembrar de como havia ido parar naquele lugar, e na realidade, não conseguia se lembrar de nada.

Árvores. Frio.

A suavidade da floresta contrastava com seus músculos rígidos. Debruçada no chão, seu rosto repousava em uma pedra gelada e pontuda. Lentamente, enquanto se erguia, folhas secas e sujas se desprendiam do corpo.

Agora de pé, era fácil observar a pequena poça de sangue ao redor da pedra da qual ela havia acabado de se levantar. O gosto metálico em sua boca e a dor pulsante denunciavam o motivo; um profundo corte lateral superior em sua testa.

Porque em uma floresta?

Mesmo não sendo uma pergunta irrelevante, não era sua maior questão no momento, oque mais a fazia se preocupar, era o fato de estar despida de qualquer vestimenta.

Seus pés descalços estavam mergulhados na terra úmida.

Era como se estivesse controlando um personagem em um jogo, e apenas o assistisse – no automático. Apesar de estar assustada, ainda não estava em desespero, como se aquilo não estivesse acontecendo com ela.

Ainda nua, a jovem tentava – sem sucesso – regular a respiração, parar de tremer. O frio lhe mordia os ossos.

O sol já estava prestes a se pôr.

Haviam pegadas no chão – provavelmente suas.

Não eram pegadas nítidas, mas sim, um rastro de galhos e folhas partidos, barro amassado – Alguém claramente havia passado por ali, e aquilo, era um fato. Algo no qual poderia se apegar, oque a trazia alívio.

Depois de algum tempo andando – uns trinta minutos, talvez – encontrou uma casa velha.

Havia musgos nas paredes, a tinta estava descascando, um cômodo era todo de madeira, e galhos sobrepunham as telhas.

Após alguns minutos batendo na porta, a noite chegou, trazendo uma fina chuva consigo, oque a incentivou a quebrar uma janela – mas não foi necessário, a casa estava destrancada.

Mesmo relutante com a ideia de invadir o casebre, não queria correr o risco de ser atacada durante a noite, então suas necessidades primitivas a fizeram girar a maçaneta.

Após tatear a parede e finalmente encontrar o interruptor, mesmo com as mãos ligeiramente molhadas, ela arriscou pressiona-lo, achou que não tinha funcionado, e suspirou, mas após alguns segundos, a fraca luz amarelada iluminou o lugar.

A casa não estava tão suja, pelo contrário, mesmo não estando em seu melhor estado, pra quem ia dormir na chuva, se hospedar em um hotel gratuito da floresta seria ótimo. As paredes tinham um tom amarelo desbotado que já estava descascando e sujando o chão, também haviam manchas verdes de lodo, e a madeira na parte inferior que ia do chão até pouco antes da metade da parede, estava estufada devido a água da chuva que entrava. Mas apesar de tudo, parecia habitável.

Conforme andava pelo lugar, ela sentia uma forte e inexplicável sensação de desconforto, como se algo dentro dela gritasse pra ir embora, talvez fosse sua sanidade a lembrando de que havia acordado misteriosamente sem roupas e no meio do nada, mas ela ignorou.

Ela subiu as escadas lentamente, sentindo a rala camada de poeira das laterais onde ela apoiava as mãos sujando seus dedos e palma, ouvindo seus passos, e se permitindo respirar lentamente.

Pequenas lascas do corrimão adentravam em seus dedos, e ela ignorava.

Ao chegar no segundo andar, a menina se surpreendeu ao ver que havia uma larga banheira, mas não o suficiente pra sorrir.

A menina já estava nua, e definitivamente com frio, então não faria diferença um banho gelado, o importante seria se livrar da lama que havia grudado em seus cabelos e corpo.

Nem mesmo se deu o trabalho de procurar por uma toalha antes, assim que notou o vapor que saia da água corrente que escorria da torneira, sorriu.

Enquanto a banheira enchia, encarou um espelho velho sobre a pia.

Se sentia encarando uma estranha, não se lembrava dos próprios traços, então tocou com curiosidade seus cabelos volumosos e desgrenhados que formavam pequenos cachos ao longo de sua extensão. Seu nariz era achatado, sua pele; escura. Seus olhos eram puxados e castanhos.

Por algum motivo, era engraçado pensar que havia acabado de descobrir que “era negra”, não é como se não tivesse visto o próprio corpo antes, mas estava se divertindo com seus próprios pensamentos.

A água inesperadamente quente a acolhia, a fazendo sentir como se flutuasse – rangidos? Passos? Não, uma mente cansada. Ao abrir os olhos e buscar a origem do som, avistou uma sombra frente a porta entre aberta – não, uma sombra não; sua imaginação.

Piscou? Sumiu.

Tá vendo como a mente é brincalhona? – Sem gritos, sem medo, só uma respiração tranquila e profunda. Espírito nenhum vai tirar a paz dessa garota.

Suspiros longos e calmos tomaram conta do banheiro, que agora parecia uma sauna.

A menina se levantou, e pegou o único tecido que encontrou – uma toalha de rosto, pequena demais, na qual se enrolou e saiu.

Haviam uns 5 quartos, mas o do final do corredor era o único limpo o suficiente, então ela entrou.

Satisfeita com a própria sorte, pegou uma camiseta suja jogada ao chão e vestiu com uma cueca larga.

Sem muito analisar o quarto, ela se jogou na cama e adormeceu por ali, estava exausta.

Talvez, se ela não estivesse tão cansada, teria ligado alguns pontos.

A casa não estava suja, haviam roupas de cama e toalha de rosto, uma blusa jogada no chão, água quente, energia elétrica, com apenas um pouco de raciocínio lógico, ficaria óbvia a realidade; alguém morava ali.


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