Segundo estágio - Parte 01

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Quando os viu vindo em sua direção, Alisson teve certeza do que aquilo significava; algo muito ruim estava prestes a acontecer.

Sua arma improvisada - um caco de vidro - foi enfiado às pressas em suas roupas antes de reunir todos seu ar nos pulmões para chama-los.

- SOCORRO! PELO AMOR DE DEUS!

O grito ecoou pelo silêncio, e com toda aquela neblina, as vozes chegaram antes que seus rostos ficassem nítidos.

- Meu Deus oque é aquilo?! - Um deles murmurou incrédulo.

- É a Alisson! - Finalmente, sua visão a proporcionou a clareza necessária para identificar um dos dois.

Christopher.

E o outro; um amigo de Filiph, irrelevante demais para que o nome viesse à mente.

- Puta merda, Alisson Oque você tá fazendo aqui?!

Ela ignorou a pergunta.

- Polícia...Chama a polícia...- Ela sussurrou, usando dos efeitos do acidente para forjar fragilidade.

- Oque aconteceu? - Um deles, ou os dois, perguntou.

Era difícil se concentrar, sua visão estava embaçada, e as vozes, abafadas.

- Chama a polícia! - Ela disse se arrastando pela estrada na direção deles.

- Merda, vamos embora! Eu sabia que era algum perturbado! Ninguém normal atropela um cara rico assim. - Ele fez uma careta de medo. - Anda logo menina! Vamos embora.

- Cala a boca! Isso é muito sério. Precisamos achar esse cara. - Junto com o suor que umedecia sua pele, mesmo no frio, a adrenalina transbordava por seus poros.

- Agente não é policial não, porra! Quer morrer? Vamos meter o pé.

- Nao! Na frente do Filiph você tava parecendo até o Dead Pol falando que ia "enfiar a cabeça do filha da puta que fez aquilo com Filiph no rabo dele" - Christopher zombou imitando a voz do amigo - e agora que você vê uma GAROTA indefesa toda ferrada por causa do mesmo otário você fica com medo?! Não vamos embora!

- Christoper, quer ficar e procurar um maníaco? Vai em frente, mas faz isso sozinho. É fácil pra você falar quando só precisa ficar nessa bosta de cadeira de rodas enquanto eu faço o trabalho!

As vozes se atropelavam, com histeria.

Alisson não poderia apenas assistir e rezar por um bom desfecho, e sabia disso. Com dificuldade, ela se colocou sobre os pés, se apoiando no menino sem importância.

- Calma! Por favor, vocês estão certos. - Sua voz saia trêmula. Aquilo não era como manipular as meninas com pequenas mentiras, a situação exigia algo maior, melhor planejado.

- Como assim?! - Um deles pergunta sem entender.

- Nao somos policiais pra pegar esse cara, mas por outro lado, não podemos ir embora enquanto tem um maluco atrás do Filiph que pode vir atrás da gente q qualquer momento. - Ela responde ofegante.

- Ata, você jura? E qual seu plano Sherlock Gomes? - Ele zombou, irritado.

- É Holmes. - Christopher corrige impaciente.

- Foda-se. Não é ela que tá se colocando em risco. E até agora não explicou nada do que aconteceu.

- Como não?! Você não viu ela correndo atrás do carro pra descobrir quem fez isso com Filiph? - Christopher defendeu.

- É porque não dá tempo, enquanto estamos aqui discutindo, ele vai fugir. Vem comigo, por favor.

- Por favor, cara, vai com ela. - Christopher implora.

- Ta, e o senhor, bonitão, fica aí fazendo oque?

- Vou chamar a polícia.

- É isso! Vamos indo.- Após chegar a beira da estrada, Alisson para. - Ei, espera aqui, preciso falar algo pro Christopher antes disso.

- Ah, vai tomar no cu! - Ele disse como se estivesse prestes a vomitar, nervoso.

- É coisa séria, eu já volto, juro.

Alisson corre até o carro, esquecendo completamente a encenação de ter se arrastado minutos atrás.

- Chris, me empresta seu celular? O celular dele está descarregando e vamos ficar sem.

- Mas e como vou chamar a polícia?!

- Nao se preocupe, aqui não tem sinal direito, eu acho, não vamos demorar, só quero tirar fotos do lugar aonde ele me levou.

Christopher hesitou, já estava ligando, mas a essa altura, mesmo que Alisson não parecesse desesperada pelo objeto, já era evidente que ele era gado.

Ela voltou até o outro, que, impaciente, rezava tentando disfarçar as lágrimas.

- Garota, Oque você quer me mostrar? - Usando o celular, Alisson joga a luz da lanterna contra o carro.- Puta merda...

Eles descem o morro com dificuldade, tentando não escorregar pelo barro.

- Agora, pode falar o que aconteceu?

- Voce não tá vendo? Ele bateu o carro!

- Mas porque você tava nessa porra desse carro?!

- Voce não me viu ir correndo atrás dele? Então, não é óbvio? Eu... Tirei fotos da placa e quando menos esperei ele me pegou e me puxou.

- Isso faz muito sentido, você foi corajosa. Mas aqui, cê tava na onda pra fazer uma merda dessa né?

Alisson força um sorriso envergonhado para concordar.

Com as mãos trêmulas, ela não tinha certeza do que faria, se o levaria ou não até o corpo.

- Ele tá no banco traseiro. - Ela mentiu.

- Serio? E como foi parar lá?

- Amarrei desacordado pra não correr risco de fugir.

- Cara, isso vai sair no jornal, provavelmente até na porra da televisão. Você é muito foda, vai falar que eu te ajudei ne? Se eu não tivesse te achado, esse cara ia fazer salsicha com você quando acordasse.

- Claro... Eu nem quero me envolver nisso. É algo horrível, tô apavorada. - Ela foi sincera. Suas mãos tremiam, suadas. - Até porque... Não sabemos se ele realmente estava atrás de Filiph ou... Se só estava bêbado e saiu sem prestar socorro.

- Cadê esse cara? Não tô vendo nada. - Ele disse batendo a lanterna contra o vidro embaçando.

- O vidro é disfarçado, você tem algum problema? Entra logo!

Com medo, o rapaz abriu a porta, e adentrou pelo escuro, impaciente.

- Eu não tô vendo nada, onde tá?

- Olha no chão.

O rapaz obedeceu, se inclinou no vão entre os bancos da frente, tateando o chão a procura do tal criminoso amarrado, mas não encontrou.

Ele estava prestes a perguntar de novo, mas não teve tempo. Sua cabeça havia sido puxada para trás, com suavidade, rapidamente.

Os dedos suados da garota enroscavam e prendiam os fios grossos de seus cabelos, apoiada no banco do motorista, ela acalmava a própria respiração, se debruçando sobre ele com delicadeza.

- Me perdoa.

O vidro antes escondido, agora brilhava em sua mão livre, e antes que ele pudesse olhar para trás ou perguntar, o afiado objeto penetrou e escorregou por dentro de sua pele, sua respiração agitada, rapidamente foi substituída por um som engasgado, que preenchia o silêncio do carro.

Sua garganta foi cortada de fora a fora.

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