O corpo caiu pra frente, a forçando a puxa-lo para seu colo.
O cheiro de ferro preenchia todo o ambiente, ela podia sentir o amargor da bile subindo pela garganta.
O silêncio parecia condena-la, ela esperava por um grito, uma última palavra, qualquer coisa que não aquilo.
Oque faria com aquele corpo? Não, oque faria com Christopher?
A adrenalina não lhe permitia sentir frio, mas apesar disso, seus dentes se choravam uns contra os outros. Ela tremia violentamente.
Tudo parecia perdido, ela seria presa, ou se mataria, de qualquer forma, nada bom poderia vir dali.
Até que aquele rosto apareceu na janela.
— Tyler? - Seus olhos se marejaram imediatamente, ela queria sorrir, mas estava muito assustada.
Porque não foi embora com eles e deixou Tyler ali, por sua própria sorte? Ele com certeza se viraria, bom, ou não, mas qualquer coisa parecia melhor do que aquilo, mas não dava pra voltar atrás.
Ele não pareceu em choque, só cansado.
— Oi...- Ele disse gentil, tentando ignorar o corpo. — Tem mais alguém lá em cima?
— Tem. Mas por favor, não faz nada com ele.
—Então devemos deixá-lo ir embora?
— Oque? Não mas... Posso dizer que ele tentou me estuprar. - Ela se referiu ao corpo do falecido. — Ele vai acreditar, por favor, deixa eu tentar.
Alisson já estava arrependida, não imaginava que se sentiria tão mal por tirar a vida de um desconhecido. Ela não queria que Christopher tivesse o mesmo destino.
— Claro, vai lá. - Tyler concordou.
Ela foi.
Mas quando já estava no topo do morro, sentiu algo a puxando para baixo.
Havia sido abraçada por trás, e agora, um antebraço duro pressionava seu pescoço.
— Oque? - Ela perguntou se debatendo enquanto cada vez menos ar entrava em seus pulmões.
Mesmo quando sua visão já estava turva, ela ainda lutava, dilacerando aquele braço com as unhas, ela se debatia.
Já não podia respirar, então, abraçou a escuridão.
—
Quando acordou, estava na cama, como a pamonha envolve o queijo, Tyler a envolvia em uma conchinha apertada enquanto dormia.
Ela quase sorriu, se iludindo que tudo havia sido um sonho.
Mas ao se soltar do abraço e observá-lo se perto, os cortes denunciavam a verdade.
Seu pescoço ainda ardia, e a sensação claustrofóbica de sufocar ainda estava na mente.
Quantas horas eram?
Quanto tempo havia se passado, desde de...?
E o corpo?
E Christopher?
E os carros?
E o telefone?
— Tyler? - Ela o chamou se virando.
— Oi?- ele respondeu sonolento, mas acordando de primeira.
— Oque aconteceu? - Sua voz falhou um pouco, estava rouca.
— Nada, você estava com sono e eu te trouxe para casa.
Não, pera...
Ela se sentou para tentar assimilar tudo.
Ao encarar seu braço, viu as marcas de unha em meio aos cortes.
— Não, mas... Você me deu um mata leão?! - Ela se lembrou incrédula.
Ele depositou um beijo em sua mão, e a abraçou em resposta.
— Minha garota precisava ficar em paz, e não conseguiria de outra forma. Mas agora pode, eu cuidei de tudo.
Ela queria sorrir, agradecer, se sentia quentinha e amada, mas caralho, um mata leão?
— Não, pera, mas oque você fez com eles?
— Confia em mim, por favor.
— Não vai me contar?
— Aí, já tá ficando histérica de novo. Acho que precisa dormir mais um pouco.
— Tyler, não! Me fala, oque aconteceu?
Ainda havia algum sangue seco em seu corpo, mas quase nenhum, estava nua.
Ele devia ter passado um pano úmido para limpa-la quando chegaram, seria assustador acordar e ainda estar imersa em todo aquele sangue. Ele era tão fofo.
— Olha, tá tudo bem, sério. Você foi nossa heroína, mas não precisa ser mais. Eu fiz oque precisava ser feito e agora tá tudo bem.
— Oque precisava ser feito, caralho?! - Ela perguntou alterando seu tom de voz.
— Alisson, calma, pra que isso?
Ela não pensou. Sem paciência, desferiu um tapa em sua face.
— RESPONDE, DESGRAÇA!
— Calma! - Ele suplicou assustado.
E antes que ele pudesse digerir, um soco atingiu sua mandíbula. Algo quicou no chão. Um dente. O pedaço de um dente.
— Caralho Alisson. Porque a gente não pode curtir um momento desses e comemorar de boa? - Ele já não parecia surpreso, estava irritado. — Olha isso, você tem que se controlar! - ele disse apontando pro próprio dente, que havia pedido um pequeno pedaço.
— Comemorar? Eu matei um homem, Tyler. Comemorar oque? Você é doente?
Lágrimas escorreram pelo rosto da garota.
Era como se ainda pudesse sentir o calor do sangue em suas mãos.
— Ei, ei... Não chora...- Ele a puxou pra si, a abraçando. — Eu me livrei do corpo, e prendi o Christopher no porão até que pudéssemos decidir oque fazer com ele.
— Oque? - Ela afastou o próprio rosto de seu peito para encara-lo.
— É... Não machuquei ele.
— Porque não podíamos seguir meu plano? - Ela continuava chorando. — Porque você tinha que desmaiar? A gente devia ter fugido correndo, não... Ter matado aquele menino. - Ela fungou.
— Você tá com fome? Acho que precisa de um banho quentinho de banheira enquanto faço algo gostoso. Viu, não devia ter passado a noite em claro. Por isso não gosto dessas festas. - Ele brincou.
Ela não viu graça.
Como ele poderia parecer tão tranquilo?
Sem nem mesmo brigar com ela? Não que ela quisesse isso, mas parecia o mais normal a se fazer, ou ao menos questionar.
Ela não precisou justificar nem explicar, ele parecia entender mais do que bem, e além disso, parecia concordar com oque havia acontecido.
— Você tá agindo assim porque não foi você quem tirou uma vida. - Sua voz saia fraca, quase em um sussurro. Tyler sorriu.
Porque ele estava tão calmo?
Agora, parecia evidente que Tyler não era normal. Isso já era óbvio, ele já tinha dado indícios, mas agora, ela tinha certeza absoluta de que não sabia quem estava ao seu lado.
Ele também agiria daquela forma se fosse ele tirando uma vida? Ou se ela fosse a pessoa a ter sua vida tirada?
O sorriso de Tyler se desfez lentamente, e após acariciar o rosto cansado da garota, ele a olhou de forma fria.
— E quem disse que não?
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Doce Caos
Mistério / SuspenseEssa história contém muitos temas sensíveis como; Abuso psicológico. Violência doméstica. Agressão. Sequestro. Feminicídio. Homicídio. Tortura. Sexo. Pessoas sensíveis a isso, por favor, evitem ir a fundo nessa leitura.
