Esse capítulo tem 987 palavras.
Quando Alisson finalmente recobrou a consciência, a primeira coisa que sentiu foi a textura macia dos lençóis tocando seu corpo, um contraste brusco com o peso em seu peito.
Ao seu lado, uma garota de pele escura dormia serenamente, seminua.
Seu coração disparou. Ela levantou às pressas, mas travou ao notar que se encontrava vestida da mesma forma que a garota. Com um travesseiro cobrindo os seios, ela contornou a cama para ver quem a acompanhava.
- Puta merda... - Murmurou para si, sem reação.
Os traços da garota eram familiares: olhos puxados, lábios carnudos, nariz achatado e cabelos crespos volumosos, longos e despenteados. Alisson afastou uma mecha rebelde do rosto da jovem inconsciente e, ao vê-la com clareza, sentiu o desespero se aproximar.
Sem acreditar, se sentou no chão. Filetes de luzes coloridas invadiam o quarto através das cortinas, criando sombras que agora pareciam dançar, assustadoras. O ar parecia denso, abafado.
O que estava acontecendo? Até onde ela estava disposta a ir por Tyler? Será que tudo aquilo realmente valia a pena?
- Por que você tá chorando? Eu deveria estar chorando. - Reclamou a menina depois de acordar.
Livre de qualquer vergonha ou receio, ela se levou como estava, exibindo seu corpo quase completamente exposto.
Alisson não respondeu. Permaneceu em posição fetal, balançando a cabeça repetidamente. "Você não é real", sussurrava para si, recusando-se a abrir os olhos.
- Garota, tá me escutando? - insistiu a outra, mas mais uma vez, foi ignorada.
Cansada de ser esperar a boa vontade de Alisson, a garota se aproximou lentamente, pegou os cabelos da menina, e puxou, forçando-a a encarar seu rosto.
- Alisson, você é burra? É claro que eu sou real. Não tá me vendo? Não tá me ouvindo? Eu não sou louca, não se atreva a pensar o contrário.
Era como olhar para um espelho. A única diferença entre Alisson e a garota, era a cicatriz na testa, que marcava a queda que a levou a perder as memórias, e por algum motivo, ela não tinha.
- Você é minha irmã gêmea? - perguntou Alisson, perturbada.
- Claro que não. Eu sou você - respondeu a garota enquanto soltava os cabelos de Alisson como se fosse mais fácil de assimilar.
Alisson repetia para si mesma que nada daquilo estava acontecendo. Tentava controlar as lágrimas, desejando apenas voltar à realidade.
- Alisson, eu sou a única em quem você pode confiar. Me ignorar é a maior burrice que você pode cometer.
- Ah é? E por quê? Olha, claramente eu tô drogada. Não sei como, não sei por quê, mas isso não é real. VOCÊ não é real.
- Alisson... - A garota respirou fundo, visivelmente irritada. - Eu vou te dar um minuto pra assimilar o que tá acontecendo e se vestir. Se não fizer isso, teremos um problema.
Antes que Alisson pudesse responder, o joelho da garota acertou seu queixo, fazendo seu nariz e boca sangrarem.
- Isso parece real pra você? - perguntou a jovem, abrindo um sorriso avermelhado, satisfeita por descontar sua falta de paciência em algo. - Vamos lá, Alisson, pensa. Tudo começou quando...?
E o um minuto pra assimilar...?
- A batida de frutas da Emily?
- Exatamente. E agora agente tá pelada nesse quarto. E isso é culpa sua.
- Culpa minha?
- Eu te avisei, caralho! Eu coloquei na sua cabeça que não devíamos confiar nessa gente! Mas você preferiu ignorar, queria seguir seus próprios passsos e se aproximar como se fosse a porra de uma Sherlock.
- Quando você disse isso?
- Na sua cabeça, Alisson. Não dá pra eu fazer tudo sozinha! - Ela abaixou, pegou algo do chão e jogou em direção à garota. - Veste essa merda. Está ouvindo esse barulho?
- Na verdade, não tô ouvindo nada. - Alisson disse tentando se concentrar em algo que não fosse o zumbido em seus ouvidos.
- Tá. Só veste isso e desce. Foda-se Emily, Gzabel, Christopher, Maria... Só S O M E!
- E o Filiph? - A pergunta levou a outra Alisson a gelar, como se um nó houvesse acabado de se formar na garganta.
- Alisson... Vamos ficar longe dele. - Ela se aproximou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar. - Prometa para nós, que nunca mais vamos nos envolver com pessoas perigosas por causa do Tyler.
- Como assim? Por que não? Precisamos ajudar o Tyler! Ele é tudo o que eu tenho... - Alisson vestiu a camiseta molhada, e flashes breves da hidromassagem invadiram sua mente, deixando-a inquieta.
- Como assim porque? Você é maluca?! Não vamos arriscar nossa sanidade por uma piroca! Qual é o seu problema? - Ela puxou a garota enquanto procurava por calças. - E, aliás, isso não é verdade. Você tem a mim, tem a Duda, nosso pai...
- O quê? A Duda? Papai? Ele morreu Alisson, qual é o SEU problema?
- Meu Deus, que merda você virou? Ele morreu e agora você é a putinha do Tyler? Olha aqui, eu moro com ele por conveniência, porque nossa mãe é uma merda, porque o Phil é um velho nojento. Não porque ele é um príncipe encantado, mas porque é o menos pior.
- Você morava, agora eu moro. E eu moro com ele porque gosto dele.
- Eu sei de coisas que você se sabe. Tenho lembranças que você perdeu.
- E eu não confio em você.
- Alisson, por favor, só dessa vez faz o que eu tô te falando... Desce lá. Você vai encontrar o que tanto quer. E quando voltar pro Tyler... Vá até o porão.
- O que tem no porão?
- Não adianta, você não acreditaria em mim. Então só indo e nos fazendo quebrar a cara pela segunda vez pra confiar em si mesma. Quando você descobrir, vai entender por que eu fugi. E aí vai querer fugir também. Eu não entendo como você acha mais fácil confiar nele do que em mim, que sou você.
- Olha, valeu, mas sei lá. Eu me viro sozinha.
- Que ódio, eu já falei que eu sou você! Mas tá, vamo logo com isso
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Doce Caos
Misteri / ThrillerEssa história contém muitos temas sensíveis como; Abuso psicológico. Violência doméstica. Agressão. Sequestro. Feminicídio. Homicídio. Tortura. Sexo. Pessoas sensíveis a isso, por favor, evitem ir a fundo nessa leitura.
