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LUCCA

Depois que Luis saiu eu me deitei na cama e chorei, solucei de tanto chorar e por fim apaguei, as vezes tenho que agradecer por sentir tanto sono, dormindo não sinto nenhum tipo de dor. Acordo com o dia já claro e faço xixi, depois pego água na geladeira, bebo e me deito novamente, dormindo em seguida. Acordo com o barulho da campainha tocando, eu e o Luis instalamos câmeras de segurança então me levanto pra ver quem é, olho as imagens e vejo que é Theodoro, é claro que é o Theodoro. Luis já deve ter ido chorar no ombro dele. O ignoro completamente e passo o trinco na porta pelo lado de dentro, esse não entra nem se estiver com a chave.

Vou ao banheiro e tomo um banho. Depois me arrumo e coloco algumas coisas numa bolsa, preciso sair um pouco daqui, não quero ter que ver o Luis ou o amigo dele tão cedo, se vamos nos separar não precisamos nos encontrar a não ser pra assinar o divórcio. Se encontrar pra ficar cutucando essa ferida é ainda pior. E voltar com Luis não está nos meus planos, amar pra manter um casamento não é o suficiente, preciso amar e ser amado.

Termino de arrumar minha bolsa e ligo pro meu avô, ele é o único que merece todo o meu amor. Meus pais moram no Uruguai, eu desde a adolescência moro com meu avô, isso desde que a minha vó morreu. Preferi morar com ele pra cuidar dele, meus pais não se opuseram mesmo eu sendo filho único, eu e meu avô somos inseparáveis mesmo eu o poupando de muita coisa que eu passo, ele já está velhinho e não quero que se preocupe comigo.

Olho pela câmera e vejo que o amigo de Luís foi embora, então saio de casa com a minha bolsa e vou a casa do meu avô. Ele mora num sítio perto daqui.

Meia hora depois chego no sítio e meu vozinho está sentado na varanda de casa, ele sorri quando vê eu me aproximando com o carro. Eu paro o carro e desço, ele se aproxima de mim sorrindo mas fica sério quando repara bem em meu rosto.

_ Meu neto.

_ Vô.

Ganho um abraço apertado dele e não me aguento, deito a cabeça em seu ombro chorando.

_ Vem. Venha pra dentro que o vô vai cuidar de você.

Entramos e ele me coloca sentado na mesa da cozinha e me entrega um copo de suco.

_ Agora me fala porque está chorando.

_ Eu e o Luis nos separamos vô, eu tô sofrendo muito..

_ Não posso dizer que estou surpreso, eu vinha notando você meio triste a algum tempo. Percebi que não era só por causa do seu sonho de ser pai.. o que os levou a tomarem essa decisão?

_ Tudo vô.. eu não estava feliz e ele também não..

_ Meu neto converse comigo, estou velho mas sirvo pra alguma coisa. Posso não ter bons conselhos pois a minha geração é diferente da sua, mas eu quero te ajudar.

_ Eu sei vô.. é que, é complicado..

_ Descomplique.

Eu sorrio diante da simplicidade dele.

_ Vocês jovens complicam tudo, se acham espertos mas é a geração mais perdida e complexa de todos os tempos. Faça como muitos estão fazendo, procure uma terapia. Uma separação nunca é fácil, eu vivi mais de trinta anos com a sua vó e ela era uma mula teimosa, reclamona e turrenta, mas eu viveria tudo denovo.

_ A vó nunca te traiu vô.

Ele arregala o olho.

_ Luis fez isso com você?

_ Eu não sei, o pior é que tudo que eu vi e senti me diz que sim mas ele fala que não, ele jura que não. Mas vô, ele mudou muito comigo, ele não é mais o cara carinhoso com quem me casei.

_ Filho..

Ele quando me chama de filho é porque quer que eu preste bastante atenção no que ele diz.

_ .. você falou pra ele que está tendo crises de ansiedade, mudanças repentinas de humor?

_ O que isso tem a ver vô?

_ Tem que você pode estar o tratando de uma maneira rude e não percebeu. Imagina passar o dia todo trabalhando e chegar em casa disposto a descansar e namorar um pouco, encontra o marido com quatro pedras na mão, não estou dizendo que ele tem razão, estou dizendo pra você se avaliar também.

_ Eu tento vô mas quando eu vejo js estamos brigando, e por qualquer coisa.

_ O médico te indicou um psicólogo por achar que você está depressivo, deveria seguir o conselho dele.

Essa parte tive que contar ao meu avô pois o levei na consulta, o médico queria conversar com alguém da família.

_ Você não se abre meu neto. O fato de não conseguir engravidar, só o deixa pior e você precisa de uma rede de apoio mas se fecha feito uma concha, nem eu consigo te ajudar, você não precisa e não pode passar por isso sozinho.

_ O senhor acha que eu o afastei?

_ Eu acho que vocês são dois cabeças dura que não sabem sentar e conversar, se conversassem não teriam chegado nesse extremo.

_ Eu sinto vergonha..

Admito de cabeça baixa.

_ Vergonha de que?

_ De ser incapaz.

_ Nunca mais repita isso, mesmo se não pudesse gerar um filho não poderia dizer e nem mesmo pensar numa barbaridade dessa. Você fez um milhão de exames e o médico disse que você pode sim engravidar, e se esse bebê não veio ainda é porque não era pra ser, ele deve estar esperando você parar de criancice, pois de criança já basta ele.

Eu dou risada, meu avô sempre diz algo engraçado pra amenizar a bronca, mas as broncas dele são suaves e sábias, talvez eu precise mesmo de um terapeuta.

Eu vou pra sala com ele e nos sentamos no sofá, praticamente me jogo em seu colo.

_ Ainda não percebeu que cresceu e não cabe mais em meu colo garoto?

_ Cabe sim, me deixa ficar aqui, preciso me sentir cuidado.

_ Você é meu neto, nunca deixarei de cuidar de você seu manhoso.

Sorrio e me aconchego em meu avô, me sinto bem com o carinho que recebo em meus cabelos. Meu vozinho é a melhor pessoa que existe, passarei uns dias com ele e depois volto pra minha triste realidade.

EU AINDA TE AMO Onde histórias criam vida. Descubra agora