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LUCCA

Que droga Luis! Parece que lê pensamentos.

Com as mãos tremendo atendo o celular.

_ Alô.

Ele parece respirar aliviado quando atendo e só de ouvir a voz dele eu choro. Eu preciso tanto de você nesse momento Luis.

_ Lucca? Oi, eu... eu te liguei pra..eu...

Pra salvar nosso possível filho de uma loucura minha. Estou chorando então pra ele não perceber dou um jeito de tornar aquela ligação a mais breve possível.

_ É sobre o divórcio né? Não se preocupe que irei resolver isso, essa semana estou ocupado com o meu avô.

Porra! Pareço falar firme mas estou tremendo pra caramba, me sento no vaso pra sustentar as minhas pernas.

_ Não, não é sobre o divórcio. Liguei pra falar com você, Já chegou de viagem né? Você está bem?

Meu avô ligou pra ele? Porque ele está perguntando se estou bem? Franzo a sombrancelha confuso e já puto. Ele não tinha esse direito. Mas confirmo antes de surtar.

_ Cheguei porque? Meu avô te falou alguma coisa?

_ Não. O que ele teria pra me falar?

Menos mal.

_ Nada...

Acho que nem consigo disfarçar o alívio e pigarreio, se bem que seria bom se ele tivesse contado. Acabei de perceber que eu sou um idiota que não sabe o que quer.

_ Eu só achei que... deixa pra lá, eu estou bem, só um pouco cansado da viagem, trabalhei bastante.

_ Há sim, foi tudo bem lá na Itália?

_ Foi. Era só isso Luis?

Preciso mesmo desligar ou acabarei  implorando pra ele vir aqui.

_ Me disse que está cuidando do seu avô.  Está tudo bem com ele?

_ Ele caiu no sítio, me deu um baita susto, tive que voltar literalmente voando de Milão.

_ Caiu como? Quebrou alguma coisa? Porque não me ligou?

Entendo a preocupação até porque Luis sempre demonstrou gostar do meu avô, tanto que o chama de vô também, sempre achei bonitinho isso nele.

_ Alfredo me ligou, e você... bom, não tinha porque incomodar você.

_ Lucca...

_ ... meu avô está bem Luis. Ele só fraturou a perna, obrigado por perguntar. Eu te ligo quando puder ir ao cartório, eu só não quero deixar ele sozinho por enquanto.

Sei que ele ainda quer falar alguma coisa então espero.

_ Sobre isso... sobre o divórcio, eu preciso conversar com você Lucca...

Hã? Porque? Qual o problema agora?

_ Porque?

Pergunto calmo por fora mas por dentro quero o esganar. Não me venha com conversa fiada Luis, não me desgaste mais ainda pois não tenho estrutura pra uma briga agora. Aliás preciso voltar minha terapia, dei uma pausa pois seria uma correria em Milão. Luis parece tomar fôlego como se tivesse buscando coragem pra me responder.

_ ... eu não quero assinar, não quero me separar de você.

Isso foi inesperado e eu fico sem saber o que dizer. Luis o homem de poucas palavras que nunca toma iniciativa. O que deu nele? Eu precisava ouvir isso Luis mas me pegou em completa surpresa, eu não sei o que fazer, eu posso estar grávido e estou ganhando uma oportunidade de reatar com meu marido. Mas se eu não estiver grávido e só o dar falsas esperanças. Nesse momento meu inconsciente me grita a plenos pulmões "CHAMA ELE PRA TE AJUDAR E FAÇA A PORRA DO TESTE CARALHO!" eu até fecho o olho mediante o grito em minha orelha porque eu realmente ouvi nitidamente,  recomeço a chorar diante da confusão em minha cabeça e faço o que acho o certo no momento, fujo.

_ Luis, o que mais a gente tem pra conversar?

_ Me da mais uma chance por favor.

_ Pra que cara? Pra gente se magoar mais ainda?

Não quero que ele perceba que estou chorando mas começo até a soluçar baixinho.

_ Não, me deixa eu te provar que estou disposto a fazer diferente, eu amo você Lucca, eu..

Oh! Por favor!

_ Pare. Só pare Luis, eu não quero saber, eu não quero mais sofrer, não quero mais ser acusado de te usar como a porra de um doador de esperma.

Pronto, lá vem o surto. Dele, meu ou de ambos.

_ Me perdoa por favor, eu fui um filho da puta..

Nossa! Ele finalmente enxergou esse fato!

_ Eu preciso desligar Luis, eu...

Está bom demais pra ser verdade Luis. Porra! Parece que adivinhou que preciso de você. Eu choro de soluçar até, ele irá perceber e eu preciso desligar antes que isso aconteça.

_ Lucca? Lucca me responde, eu vou até aí...

_ Eu estou bem Luis eu só... eu só estou jantando..

Minto descaradamente falando algo sem sentido. Jantando? É sério?

_ Eu te ligo outra outra.

E desligo sem dar chance pra réplica. Fico no banheiro e em segundos me chega uma mensagem dele.

_ A Luis vai iludir outro, eu já estou vacinado.

Vou até o quarto e me jogo na cama, o bom é que nem tenho tempo de surtar novamente pois durmo tão facilmente que pareço flutuar. Acordo já com o dia claro sentindo um cheiro bom de café. Relutante me levanto mas tomo um banho quentinho antes de sair do quarto. Bom, não acordei vomitando. Talvez tenha sido o lanche mesmo. Mas continuo engordando pois tenho que usar calça de moletom pra não ficar igual um saco de farinha amarrado pelo meio. Vou a cozinha e me deparo com o meu avô fazendo algo no fogão.

_ O que está fazendo vô? Sabe que não pode fazer esforço não sabe?

Ele se vira pra mim de cabelo molhado.

_ E tomou banho sozinho? E se o senhor cai no banheiro?

_ Bom dia pra você também meu neto. Acordei cedo e não quis ficar na cama.

_ E porque não me acordou?

_ Hoje é o seu último dia de folga, tem que aproveitar, e eu peguei uma cadeira de plástico pra tomar banho, deu tudo certo não se preocupe. Estou fazendo café e panquecas de doce de leite, como você gosta.

Eu sorrio com o carinho dele. Estou realmente com fome. Me aproximo da geladeira e vejo que ele cortou uns pedaços de bacon e separou ovos pra fazer.

_ Bacon com ovos não quero mas eu quero uma fruta com as panquecas.

_ Fruta faz bem. Esquentei um pouco de leite também.

_ Obrigado vô. Te trouxe pra cuidar de você e está acontecendo exatamente o contrário.

_ Não consigo ficar parado e já não sinto tanta dor.

Começo a cortar mamão numa tigela e me sento pra comer, estava tudo perfeito até ele começar a fritar o bacon misturado com o ovo, juro que quase joguei tudo que havia comido emcima da mesa, saio correndo novamente pra lavanderia, ouço um barulho e sei que o meu avô atirou a panela de bacon pela janela no quintal de tão desesperado que ficou. E lá vem ele batendo com a bengala no chão.

_ Meu filho você vai ao médico agora nem que o leve arrastado. Se você estiver grávido precisa começar o pré natal e se não for gravidez eu arranco meus ovos.

Lavo minha boca fazendo bocejo, faço uma nota mental de deixar um enxaguante bucal na lavanderia. Estou suando e abaixo minha cabeça no tanque pra molhar um pouco a minha nuca, só que quando eu levanto minha cabeça pra responder o meu avô tudo escurece e eu perco a força nas pernas me seguro no tanque mas não tenho coordenação motora nenhuma e vou ao chão.

_ LUCCA..

Ainda ouço meu avô gritar e segurar o meu braço mas depois sou engolido por uma escuridão e não ouço mais nada.

EU AINDA TE AMO Onde histórias criam vida. Descubra agora