James Hastings
A noite parecia ainda mais densa quando James permaneceu ali, imóvel, fitando a escuridão onde Natália havia desaparecido. O peso da revelação do pai dela o esmagava.
Mas, mais que isso, havia algo dentro dele que já não podia mais ficar oculto. Algo que carregava desde a adolescência como um segredo sombrio, repassado em silêncio pelos corredores da mansão dos Hastings.
Ele soltou um suspiro trêmulo e olhou para o homem à sua frente
— aquele que, apesar de tudo, criara Natália com dignidade e amor.
— Eu preciso te contar algo
— disse James, a voz carregada de algo mais do que tensão
— talvez seja a única coisa que pode mudar o rumo disso tudo.
O pai de Natália o encarou, atento.
— Diga.
James passou a mão pelos cabelos, como se tentasse ordenar os pensamentos antes de soltá-los.
— Eu não sou filho de Ricardo Hastings.
A afirmação pairou no ar por um momento, sem reação imediata.
— Como assim?
— Fui criado por ele como filho mais sou seu sobrinho. Carrego o sobrenome, o legado, o peso dos Hastings.
— mas a verdade é que… meu pai era Petrick Hastings. O irmão mais novo de Ricardo Hastings. Petrick ele morreu num acidente de carro quando eu ainda era pequeno. Minha mãe entrou em colapso, e Ricardo e a esposa Marisa assumiram a minha criação. Pra todos os efeitos, virei o filho deles.
O homem arregalou os olhos, surpreso.
— Por que nunca contou isso pra Natália?
— Porque passei a vida inteira tentando ser digno do nome que carrego. Ricardo sempre fez questão de apagar Petrick da história dos Hastings. Dizia que ele era um fracasso, uma vergonha. Mas eu descobri a verdade anos depois, escondido no escritório dele, lendo cartas, vasculhando registros. Petrick era um homem bom. Artista. Sensível. Ele e Ricardo eram opostos um do outro.
— Então… você e Natália não têm laços de sangue direto de Ricardo.
— disse o pai dela, mais para si, mesmo do que para James.
James assentiu, firme.
— Nenhum não somos irmãos. E mesmo que tivéssemos… não deixaria de amá-la. Mas agora, com essa revelação… se ela realmente for filha de Ricardo Hastings, então ela é a única herdeira legítima dos Hastings. Os “filhos” da senhora Marisa Hastings, meus supostos irmãos… também são filhos do primeiro marido dela. Filhos de acordos, de aparências. Só Natália, se for realmente mesmo filha dele, carrega o sangue Hastings de verdade.
O homem se levantou devagar, andando pela varanda com passos pensativos. A cabeça parecia girar com tantas verdades novas, cada uma mais inesperada que a anterior.
— Isso muda tudo…
— Muda
— respondeu James.
— Mas, pra mim, só reforça o que já sinto. Eu amo a Natália, independente do nome, da origem, do passado. Só quero a verdade para que ela possa ter paz… e liberdade de seguir a decisão que quiser em sua vida.
O pai dela parou, encarando-o com intensidade.
— E se essa verdade a afastar de você?
James hesitou por um momento, mas sua resposta veio firme:
— Então eu vou deixá-la ir… se for isso que ela quiser. Mas não sem lutar. Porque se tem uma coisa que ela precisa agora, é saber que não está sozinha. Que existe alguém disposto a enfrentar tudo ao lado dela, inclusive a verdade.
O homem assentiu lentamente, com um certo respeito no olhar.
— Você tem a coragem do seu verdadeiro pai, então. Patrick era assim então. Não muito presente, mas… íntegro.
James sentiu um nó na garganta. Aquilo era o mais próximo de um reconhecimento que ouvira em anos sobre o homem que lhe dera a vida.
— Eu não quero que isso vire uma guerra por herança
— continuou ele.
— Mas se for verdade que Natália é filha de Ricardo, ela tem o direito de saber tudo o que lhe foi tirado. A identidade, o legado, até mesmo o nome.
— E a senhora Marisa Hastings?
— perguntou o pai de Natália.
— O que ela vai fazer quando souber?
James soltou um riso sem humor.
— Vai tentar esmagá-la. Vai acusá-la de oportunismo, de mentira. Mas dessa vez ela não vai ter como negar. Se o DNA confirmar, ela não pode apagar o sangue de Natália como apagou o de Patrick.
A porta da casa rangeu ao se abrir devagar. Natália estava ali, os olhos vermelhos, mas o semblante resoluto. Ela havia escutado parte da conversa.
Seus passos foram firmes até James, que se levantou de imediato.
— É verdade?
— ela perguntou, olhando direto em seus olhos.
— Você não é filho de Ricardo?
Ele assentiu.
— Não. Sou filho de Petrick Hastings. E descobri isso há alguns anos, mas nunca ousei contar à família. Achei que, de alguma forma, eu conseguiria provar meu valor como “filho” de Ricardo. Mas agora… isso não importa mais.
Natália respirou fundo.
Havia um brilho nos olhos dela que misturava raiva, dor e alívio.
— Isso significa que… se eu for mesmo filha dele, eu sou a única legítima.
— Sim
— respondeu James.
— E eles sabem disso. Foi por isso que a sua mãe foi rejeitada. Por isso que a senhora Hastings ficou em pânico ao descobrir o nome Macklein em você. Porque talvez sabia que aquele criança sobreviveu e poderia ameaçar o que eles construíram com mentiras.
— Então o que fazemos agora?
— ela perguntou.
James segurou suas mãos com firmeza.
— Descobrimos a verdade. Com um teste, com registros, com o que for preciso. E depois… você decide o que fazer com ela. Se quiser sumir de tudo, eu vou com você. Se quiser lutar pelo seu nome, eu estarei ao seu lado também.
Ela o encarou por longos segundos, depois virou-se para o pai.
— Você vai me ajudar?
O homem assentiu sem hesitar.
— Já passou da hora de tirar esse passado do túmulo.
A noite não parecia mais tão escura. Pela primeira vez, mesmo no meio da tormenta, Natália sentia que não estava sozinha.
A verdade ainda podia machucar
— mas agora, finalmente, ela tinha uma chance de libertar o presente dos pecados do passado.
Natália
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O Contrato
Roman d'amourMeu nome é Natália Macklen, e alguns meses atrás, minha vida mudou para sempre. Cheguei a Nova York com uma mala cheia de sonhos e o coração carregado de expectativas. Vinda de uma cidade pequena, onde os dias eram calmos e previsíveis, eu sabia que...
