Herdeiros do Silêncio

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      Marisa e os três filhos

"O silêncio após a saída de Ricardo era ensurdecedor. A porta do escritório ainda balançava levemente, como se hesitasse em se fechar por completo, carregando no ar a tensão deixada para trás.

Lá dentro, Marisa permanecia estática, de costas para os filhos, encarando a moldura agora virada de frente novamente.

O retrato da família perfeita, Marisa se lembrou de quando tiraram aquela foto tudo que ela fez na época encontrar um homem rico pra ajudar sustentar seus filhos.

Helena foi a primeira a entrar.

— É verdade mãe?

— sua voz saiu fraca, quase infantil, como se ainda procurasse por alguma mentira confortável para se abrigar.

Marisa não respondeu. Apenas ajeitou a postura e se virou, lentamente, como quem está diante de uma plateia que não escolheu.

— Mãe...

— Daniel disse, entrando atrás da irmã.

— A quanto tempo você sabia disso mãe?

William o filho mais velho, mais hesitante, ficou na porta. Seus olhos iam da mãe aos irmãos, tentando digerir tudo.

— Vocês são jovens demais para entender certas decisões.

— Então nos ajude a entender

— rebateu Helena, com os olhos marejados.

— Você escondeu que essa garota tem que ter um motivo! Uma filha do papai! E ainda fala como se tivesse feito um favor?

— Aquela garota...

— começou Marisa, com a frieza que lhe era habitual.

— Não faz parte desta família. Ela é um erro do passado. Eu protegi vocês. Protegi a estabilidade que construímos.

— A estabilidade que você construiu em cima dos Hasting

— Daniel se aproximou.

— E se fosse com a gente? Se um dia você achasse que algum de nós era “um problema”? Você também nos apagaria?

— Não diga bobagens filho. Todos vocês são meus filhos. Até o James eu cuidei como meu filho e tudo que eu fiz foi para manter essa família unida.

— Mas nunca fomos unidos, mãe.

— William finalmente entrou.

— Só... bem treinados.

A frase pairou pesada no ar.

Marisa sentiu o golpe, mas não reagiu. Apenas fechou os olhos por um segundo, como quem segura uma lágrima por pura vaidade.

— E papai?

— Helena perguntou.

— Você vê ele desmoronando, quebrado... e ainda assim acha que fez certo?

— Ele era fraco naquela época e sempre foi um fraco. Impulsivo. Teria jogado a própria vida fora por um erro. Eu apenas tomei a decisão que ele não teria coragem de tomar.

— Você está justificando o injustificável.

— Daniel murmurou.

— Então a Natália? Ela merece nossa indiferença só porque nasceu do “erro” que você quis apagar?

— Não se deixem enganar.

— Marisa apertou os olhos.

— Essa menina apareceu agora por um motivo: Apenas interesse. Ninguém some por anos e depois volta cheia de certezas, sem querer algo em troca.

— E se ela quiser apenas o que é justo? Você já pensou nisso mãe afinal ela é a única filha de sangue do senhor Hastings. Nós somos entiados dele e James é seu sobrinho ele tem 50% da empresa Hastings por parte do verdadeiro Pai dele. E o que nós temos agora?

— William perguntou, calmo.

— A verdade. O pai dela é o herdeiro de 60% da fortuna dos Hastings. Significa que ela pode nos deixar sem nada.

Marisa olhou para os três filhos com intensidade. Pela primeira vez, parecia perdida entre justificativas e o medo de perder o controle.

— Vocês vão escolher ela em vez de mim?

— Não.

— Helena respondeu.

— A gente tem que procurar saber nosso direito também mãe, afinal vivemos como Hastings todos esses anos. E agora como será?

Marisa se sentou na poltrona, exausta.

— O que vocês vão fazer?

Daniel trocou um olhar com os irmãos antes de responder:

— Vamos tentar descobrir o que essa garota realmente quer?

E então, os três saíram do escritório, deixando Marisa sozinha, cercada por tudo o que construiu... e tudo que estava prestes a ruir.

Marisa permaneceu na poltrona por alguns minutos, imóvel. A porta do escritório agora estava fechada, e o silêncio parecia mais definitivo.

Com um gesto rápido, ela pegou o telefone do lado da mesa e discou.

— Preciso falar com o Dr. Álvaro. Urgente.

— Marisa...

— a voz do advogado soou calma, mas carregada de cautela

— ...já revisei os documentos.
Sua posição é muito... delicada.

— Delicada?

— ela estreitou os olhos.

— Eu sou a esposa de Ricardo Hastings por mais de vinte anos. Criei o sobrinho dele como meu filho, cuidei da empresa ao lado dele, sempre estive ao lado dele quando ele... era só um sonhador fracassado gastando a fortuna dos Hastings com tantas vadias. Você está me dizendo que não tenho direito a metade do que construí junto com ele durante anos?

— Legalmente, Marisa, o patrimônio da família Hastings sempre esteve vinculado à holding da Família Hastings. Ricardo apenas administra a maior parte... E James administra a parte de seu falecido Pai, mas a decisão final ainda é de Ricardo na parte dele. Tudo que está em nome da família pode ser... redirecionado para o seu legítimo herdeiro, digamos assim.

— Então, se essa Natália for reconhecida como herdeira legítima...

— Ela tem direito à parte que o pai dela, Ricardo, detém. Isso se ele reconhecer a paternidade, ou se ela tiver provas que é sua filha legítima.

Marisa ficou em silêncio por um instante. Depois, respirou fundo e se levantou da poltrona, os olhos fixos no retrato de família pendurado na parede, como se enxergasse algo novo ali.

— Então é o Ricardo...

— Como disse?

— Se ele é o único que pode decidir, então talvez esteja na hora de lembrá-lo... de quem o ajudou a chegar onde está.

— sua voz voltou a carregar aquele tom gélido e determinado.

— E se ele se recusar... bem, o mundo adora um escândalo. Principalmente quando envolve empresas familiares, amantes do passado... e dinheiro.

Do outro lado da linha, o advogado hesitou:

— Marisa... cuidado com esse caminho.

Ela desligou sem responder.

Caminhou até a janela, observando o jardim lá fora.

Um novo plano começava a se formar. A batalha não era mais contra a garota.

Era contra o homem que ela conhecia melhor do que ninguém.

Ricardo Hastings.

Ele era o novo alvo.

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