Sangue e Verdade

22 5 0
                                        


          Natália Macklein

O laboratório era pequeno, discreto, afastado das grandes cidades. Um lugar escolhido a dedo por James para garantir que o teste de DNA fosse feito com sigilo absoluto.

Não era apenas sobre genética agora

— era sobre proteger Natália de um passado que poderia destruí-la antes mesmo de ser oficialmente revelado.

James segurava firme a mão dela enquanto aguardavam na sala de espera. As paredes bege, o som abafado do relógio, tudo parecia suspenso no tempo.

Natália mantinha os olhos fixos no chão, como se quisesse fugir da realidade, como se olhar ao redor fosse admitir o quanto aquilo importava.

O silêncio entre eles não era incômodo, mas denso, carregado de perguntas sem resposta.

O pai dela estava ali também, sentado ao lado da filha, o semblante sério, mas com uma expressão de apoio inabalável.

Desde a revelação da história de sua esposa com Richard Hastings, ele se tornara ainda mais protetor

— com raiva do passado, mas determinado a defender o futuro da filha.

— Quando soubermos

— disse James, quebrando o silêncio com delicadeza

—, nada vai mudar o que eu sinto por você. Isso não é sobre amor. É sobre verdade.

Natália assentiu lentamente.

Ela sentia isso também. Pela primeira vez, não era o amor deles que estava em dúvida, e sim as mentiras que foram colocadas entre eles por tanto tempo.

— E se eu for mesmo filha de Richard Hastings?

— ela perguntou, quase num sussurro.

— Isso muda tudo. Muda o meu nome, a minha história. Talvez até o que esperam de mim.

— Muda, sim

— disse o pai dela, com sinceridade.

— Mas não muda quem você é. E muito menos quem te criou.

Antes que James pudesse completar o pensamento, a porta se abriu e uma atendente discreta os chamou para dentro.

O procedimento foi simples, rápido. Um pouco de saliva, alguns dados preenchidos. O resultado viria em até dois dias.

Dois dias que pareceriam uma eternidade.
Naquela noite, a tensão voltou a pairar na casa da fazenda.

A mãe de Natália se mantinha em silêncio, evitando encarar a filha, evitando encarar a si mesma. Mas ela ouvia. Cada palavra trocada, cada plano sussurrado entre James e Natália.

Havia algo dentro dela se quebrando

— e ela sabia.

— Ele te olha como se você fosse o sol

— disse baixinho, mais tarde, quando ficaram a sós na varanda.

Natália se virou, surpresa com a repentina abertura.

— Ele me ama

— respondeu, com uma honestidade serena.

— Richard também me olhava assim, no começo

— murmurou a mãe.

— Foi isso que me fez acreditar no amor dele por mim.

— James não é como ele. E eu não sou como você mãe.

A mãe soltou um suspiro longo, pesado. O tipo de suspiro de quem carrega dores há décadas.

— Espero que não seja mesmo. Porque se for… vai aprender que o amor, às vezes, não é suficiente para vencer um nome como Hastings.

"Enquanto isso, em Nova York, algo se movia nos bastidores. Um e-mail anônimo chegou à caixa de entrada de um dos executivos da Fundação Hastings.

Assunto: Assunto delicado
– possível filha ilegítima de Richard Hastings.

O anexo era uma cópia escaneada da solicitação de exame de DNA. Nome: Natália Macklein.

A mensagem finalizava com poucas palavras: Ela vai atrás do que é dela. Preparem-se.

Dentro da sede dos Hastings, o aviso acendeu um alerta silencioso. A Senhora Hastings esposa de Richard, lia cuidadosamente o alerta, recebeu a notícia com a frieza de quem há muito tempo aprendeu a silenciar escândalos com cheques e ameaças.

— Mantenham isso contido.

— ela ordenou ao seu assessor.

— Se for verdade… tratem de resolver como fizemos antes.

— E se ela não aceitar calar?

— perguntou o homem.

A senhora apenas sorriu ironicamente.

— Todos têm um preço. Ou uma fraqueza. Ou acidentes acontecem como o de Petrick Hastings."

Dois dias depois, o resultado estava pronto.
James segurava o envelope com as mãos trêmulas. Natália, ao seu lado, parecia petrificada.

O pai dela se manteve firme, mas silencioso, como se tivesse entendido antes de todos o que aquele papel revelaria.

James abriu.

Leu em silêncio.
Depois, ergueu os olhos para Natália. Eles estavam marejados.

— É verdade.

Ela prendeu a respiração.

— Você é filha de Richard Hastings. Biologicamente, você carrega o sangue deles.

O nome… os direitos. Tudo.

O mundo pareceu girar ao redor dela. Uma parte de si queria correr, se esconder.

Outra queria gritar, chorar, lutar. Mas, acima de tudo, ela sentia uma estranha paz.

Agora sabia quem era.

— Isso faz de você a única herdeira legítima da fortuna Hastings

— disse James, ainda em choque.

— Porque… os outros filhos da senhora Hastings não são filhos de sangue de Richard.

São filhos do primeiro marido dela, e meu pai sempre foi Patrick. Eles nunca souberam.

— E você…?

— sussurrou Natália, olhando para ele.

— Isso muda algo pra você?

James se aproximou, tocou seu rosto com as duas mãos.

— Muda tudo o que aconteceu antes de hoje. Mas não muda o que eu sinto por você. Nunca mudou.

Ela fechou os olhos, e quando os abriu, havia algo novo neles: força.

— Eles vão saber que eu existo. Que estou viva. E que não vão me apagar.

James sorriu, orgulhoso.

— E eu estarei ao seu lado, aconteça o que acontecer.

Mas, do lado de fora da casa, parado na estrada de terra, um carro preto observava à distância.

Alguém já sabia.

E os Hastings estavam prestes a descobrir que a filha esquecida de Richard voltaria para reivindicar o que era seu.







       _________________

O Contrato Onde histórias criam vida. Descubra agora