Marisa e Ricardo
"A noite caía sobre a mansão Hastings, mas dentro do escritório principal, o clima era qualquer coisa, menos tranquilo.
As janelas altas filtravam o azul escuro do céu, e a luz amarelada dos abajures refletia nas prateleiras repletas de livros jurídicos e troféus de poder.
Ricardo Hastings estava de pé, apoiado na escrivaninha de carvalho maciço, os olhos cravados na esposa com uma mistura de raiva, incredulidade e mágoa.
— Como... como você pôde?
— sua voz saiu rouca, embargada.
— Como você escondeu isso de mim por tantos anos?
Marisa, sentada na poltrona à frente, permanecia serena. Os braços cruzados sobre o colo, a postura ereta, a frieza habitual intacta.
— Não faça essa cara, Ricardo. Você está dramatizando. Isso não muda nada.
— Não muda nada?
— ele repetiu, dando um passo à frente.
— Você me escondeu uma filha! Uma filha de sangue minha, Marisa!
Ela suspirou, como quem precisa explicar o óbvio a uma criança impaciente.
— Eu não escondi nada. Eu protegi você. Protegi nossa família. Aquela mulher apareceu grávida, sem provas, sem dignidade. A sua mãe fez o que precisava ser feito.
Ricardo franziu a testa.
— Minha mãe?
— Sim. Foi ela quem lidou com aquilo. Pagou a garota para sumir com a criança. Disse que era melhor assim, para todos. E sabe o quê? Ela estava certa.
— Você sabia disso e nunca me contou?
— Claro que sabia. Eu estava lá quando sua mãe tomou a decisão. E concordei.
— Concordou?!
— a voz dele subiu, furiosa.
— Você concordou em apagar a existência da minha filha como se fosse um erro, uma vergonha?
Marisa finalmente se levantou, os saltos estalando no chão de mármore do escritório.
— Aquilo era um escândalo, Ricardo! Uma mancha no seu nome, na nossa reputação! Você estava prestes a assumir o conselho da Fundação. Aquela criança... era uma distração indesejável.
Ricardo passou as mãos pelo rosto, como se tentasse acordar de um pesadelo.
— Eu sei de uma, naquela época se eu soubesse da existência daquela criança eu jamais teria me casado com você e vejo que morei a vida inteira com você, Marisa. Dividi tudo. E agora... agora percebo que não conheço a mulher com quem me casei.
— Foi por isso que apoiei a decisão de sua mãe porque eu sabia que você se recusaria a ver a realidade.
— ela rebateu, fria.
— Aquela garota mulher e a filha Natália, elas não querem justiça. Ela só quer dinheiro. É só isso que essas pessoas sempre quiseram. Você acha mesmo que ela apareceu do nada por valores nobres?
Ricardo encarou a esposa em silêncio por alguns segundos. Então caminhou até a estante e retirou uma moldura com a foto da família: ele, Marisa, os quatro filhos. Todos sorrindo.
Ele virou a moldura devagar, encarando o verso.
— E se for verdade? Se tudo que ela disse hoje for verdade... O que isso faz de mim? Um pai ausente. Um covarde. E você...
— ele devolveu a moldura para o lugar.
— Uma manipuladora fria, capaz de apagar uma vida por conveniência.
Marisa manteve o semblante controlado, mas os olhos revelavam um lampejo de incômodo.
— Eu fiz o que era necessário. Assim como você fez com Petrick.
— Você fez o que era fácil e conveniente pra você.
— Ricardo respondeu, voltando a encará-la.
— E agora, todos nós vamos pagar o preço por isso.
Do lado de fora do escritório, os filhos do casal, Daniel e Helena com o irmão William Hastings, escutavam cada palavra, parados diante da porta entreaberta.
Tinham crescido numa casa onde os corredores sussurravam segredos e o silêncio valia mais do que perguntas.
Mas agora, nada mais podia ser contido.
— Eles estão falando de uma filha.
— sussurrou Helena, com os olhos arregalados.
Daniel assentiu, tenso.
— Natália... deve ser a filha do papai. A babá.
— E a mamãe...
— a voz de Helena falhou.
— A mamãe sabia disso o tempo todo?
— Parece que sim.
Os tres trocaram um olhar carregado de confusão, mágoa e medo.
A imagem impecável da família Hastings, cultivada com tanto zelo, começava a desmoronar diante de seus olhos.
Dentro do escritório, Ricardo se afastou de Marisa. Abriu uma das gavetas da escrivaninha e tirou o exame de DNA que James havia deixado na reunião.
— Isso é prova. Não teoria. Ela tem meu sangue. É minha filha. E eu... eu deveria ter estado lá.
— Agora você quer brincar de pai herói?
— disparou Marisa, com desprezo.
— Você vai abrir os braços para uma estranha? Vai colocá-la no nosso testamento? Dar assento no conselho?
— Não sei ainda o que vou fazer, mas sei o que não posso mais fazer: fingir que ela não existe.
Marisa cruzou os braços, olhando para o marido como se ele fosse um desconhecido.
— Então vá. Abrace sua nova “família”. Mas não se esqueça: essa casa, essa reputação, tudo o que você construiu, pode desmoronar se você der um passo em falso.
Ricardo se aproximou devagar, e pela primeira vez na conversa, sua voz desceu para um tom frio, calculado.
— Não me ameace, Marisa. Eu já perdi tempo demais ouvindo suas verdades moldadas. Se Natália for o que ela diz ser, terá o que lhe é de direito como minha filha e a única Hastings, enquanto seus filhos são apenas seus. E você... vai ter que conviver com isso.
Ele abriu a porta do escritório com força.
Do lado de fora, Daniel, William e Helena fingiram não estar ali, mas era tarde demais.
O olhar de Ricardo pousou sobre eles.
— Vocês estavam ouvindo?
Os tres ficaram imóveis.
— Sim, pai.
— respondeu Daniel, sem desviar o olhar.
— Quem é Natália?
Ricardo respirou fundo.
Então, finalmente, respondeu:
— Minha Filha, a única e Verdadeira Hastings.
Helena e Daniel levaram a mão à boca.
William abaixou os olhos.
Marisa permaneceu dentro do escritório, imóvel.
O império Hastings balançava.
E pela primeira vez, todos sabiam: nenhuma verdade podia mais ser ignorada.
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O Contrato
RomanceMeu nome é Natália Macklen, e alguns meses atrás, minha vida mudou para sempre. Cheguei a Nova York com uma mala cheia de sonhos e o coração carregado de expectativas. Vinda de uma cidade pequena, onde os dias eram calmos e previsíveis, eu sabia que...
