A Hora do Chá

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              Katherine

Os corredores da mansão Hastings estavam mergulhados num silêncio tenso, quebrado apenas pelo som abafado dos passos decididos de William, Daniel e Helena.

Caminhavam lado a lado, mas o peso do passado

— e do futuro incerto

— ainda pairava entre eles.

Os três sabiam que estavam prestes a entrar em território sensível.

Não por causa da idade de quem os aguardava, mas pela inteligência afiada que já havia deixado marcas naquela casa.

Pararam diante da porta do último quarto da ala norte.

Era um cômodo encantador, decorado com papéis florais, cortinas de linho e brinquedos arrumados com perfeição milimétrica.

Lá dentro, sentada com postura impecável à mesinha de chá, estava Katherine

— filha de William, neta de Marisa, e a mais nova da linhagem Hastings.

Tinha apenas seis anos, mas era impossível ignorar sua presença.

Ao ver o pai entrando com os tios a reboque, a menina apenas ergueu os olhos castanhos e expressivos.

Não houve sorriso, nem surpresa. Apenas um olhar direto e contido.

William, forçando um ar de leveza, deu um passo à frente.

— É hora do chá, minha princesa?

Katherine ergueu uma xícara de porcelana com a elegância que sua avó lhe ensinara e respondeu com uma doçura que soava mais como ironia:

— Sim, papai. É hora do chá... e eu não me lembro de ter convidado ninguém.

Daniel e Helena trocaram olhares breves. Aquilo seria mais difícil do que pensavam.

Helena se adiantou, tentando parecer acolhedora.

— Posso me sentar para o chá?

Katherine se levantou devagar. Seus movimentos eram suaves, mas carregados de intenção.

Ela olhou para a tia de cima a baixo e perguntou, com a voz firme:

— A senhora vê alguma cadeira desocupada?

Helena hesitou por um instante, desconcertada, e deu dois passos para trás, indo se posicionar ao lado de Daniel.

Katherine voltou ao seu lugar com a serenidade de quem tem o controle da situação.

Serviu o chá para suas bonecas

— quatro delas dispostas como em um encontro formal, cada uma com sua xícara delicadamente apoiada diante de si.

— Acham mesmo que, por eu ter seis anos, não sei tudo o que acontece dentro desta casa?

Daniel tentou sorrir, mas o desconforto era visível em seu rosto.

William abaixou-se até ficar à altura da filha, observando-a com atenção.

— Você é mesmo muito esperta, Katherine. Inteligente além da sua idade.

Ela ergueu os olhos novamente, séria.

— E por isso mesmo, vou poupar o esforço de vocês. Não vou ajudar nenhum de vocês a se aproximar da Natália.

A frase caiu como uma pedra entre os três adultos. Era exatamente para isso que estavam ali

— pedir à pequena Katherine que intermediasse um contato com a mulher que ameaçava desmoronar tudo que conheciam.

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