30|Café com vergonha

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Olivia

Acordei com o som do liquidificador.

Sim, esse foi o momento em que percebi que alguém lá embaixo estava acordado. Cozinhando. Preparando o café da manhã como se não tivesse passado a noite ouvindo eu e Lyana reinterpretando o Kama Sutra com efeitos sonoros dignos de pornô.

Abri um olho. Lyana dormia de lado, cabelos todos bagunçados, e o lençol baixo o suficiente pra me distrair completamente.

— Amor… — cutuquei de leve — a Clara tá acordada. E cozinhando.

Ela gemeu (de cansaço, dessa vez) e murmurou com a voz rouca:

— Ai meu Deus… a Clara… ouviu a transando!

— "Ouviu" é pouco. Provavelmente teve visões. Eu devia ter assinado uma autorização de conteúdo adulto.

Lyana rolou na cama, jogando o travesseiro na cara e soltando um:

— A gente devia ter ido transar na praia. Lá pelo menos só os caranguejos iam julgar.

Rimos. Vestimos as primeiras roupas que encontramos — moletom meu, blusa dela, a calcinha eu achei no abajur, não me pergunte — e descemos com a dignidade de quem sabe que vai encarar julgamentos não-verbais em forma de panqueca.

E lá estavam eles: Clara e Noha, na cozinha como se fossem os pais do rolê.

Clara virou de costas com a espátula em punho, cabelos presos numa trança e aquele olhar de "a cozinha tá limpa, mas minha mente não".

— Bom dia, Dorme-gemidos — disse ela, virando as panquecas.

Noha, ao lado, de camisa aberta e café na mão, soltou um risinho.

— Eu disse pra ela parar de ouvir e ir dormir, mas Clara  não sabe ignorar sonoplastia envolvente.

Lyana ficou vermelha. Tipo, tomate-cereja em dia de sol. Eu tentei manter a pose.

— Gente… vocês estão exagerando. Não foi tudo isso.

Clara virou pra nós, um prato na mão, arqueando uma sobrancelha.

— Lya… eu ouvi você gritar “ME FODE OLIVIA ” e depois o som da cama rangendo. O que exatamente vocês estavam fazendo?

— A cama é instável! — Lyana se defendeu, escondendo o rosto com a caneca.

Noha gargalhou.

— Ok, não vou mentir, vocês me assustaram no início. Lembrei da época que tive crush em vocês duas. Foi tipo um "flashback de ilusão". Mas agora? Zero gatilho. Só orgulho e trauma auditivo mesmo.

Clara serviu os pratos e beijou Noha na bochecha. Eles estavam bem, tipo, de verdade. O tipo de casal que ainda troca olhares cúmplices e memes no WhatsApp. E vê-los ali, tão em sintonia, fazia tudo parecer… leve.

— Sério, gente — disse ele, se sentando — vocês são um casalzão. Mas talvez um pouco menos sonoro, só pra preservar minha sanidade? Meu ouvido esquerdo ainda tá em negação.

Lyana deu um risinho culpado.

— Desculpa, Noha. Desculpa, Clara.

Clara sentou-se, cruzando os braços com fingida severidade.

— Eu só quero que vocês saibam que se hoje à noite eu ouvir mais uma sílaba indecente, vou jogar água benta pela ventilação.

— E uma GoPro pra vender o conteúdo depois, né? — Noha sussurrou, e eu quase cuspi o café.

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