32|Planejando o Casamento.

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Lyana

Se eu tivesse um real pra cada vez que minha mãe disse "ai, filha, que emoção!", eu já tinha pagado o buffet do casamento e o DJ que a Olívia quer porque "ele toca Beyoncé em versão bossa nova".

O dia seguinte ao pedido de casamento começou com minha mãe invadindo meu apartamento com um caderno de anotações, uma fita métrica e um catálogo de flores.

— Eu esperei anos pra esse momento. Anos, Lyana. Agora senta e me diz: você quer casamento no campo, na praia ou num galpão industrial desativado com pegada boho chique?

— Mãe, calma.

— Eu estou calma. Tô até com o coração em paz. Mas se você disser que quer uma decoração rústica com palha e juta, eu saio daqui agora.

— A senhora que manda.

Ela riu.

— Você manda, filha. Eu só ajudo a realizar o que você sonha. E se esse sonho tem a Olívia no altar, eu já tô realizada.

Olívia chegou meia hora depois, com o cabelo preso de qualquer jeito, vestindo a camiseta que roubou de mim — aquela velha com a estampa de "Art Is My Weapon".

— Tá rolando mutirão de planejamento?

— Tá rolando Survivor: Edição Casamento, querida — respondi, dando um beijo nela. — E minha mãe é a apresentadora, produtora e patrocinadora oficial.

— Olá, sogra preferida!

— Minha filha, você é a única no páreo. E já ganhou.

Entre uma página e outra do caderno da minha mãe, começaram os dilemas:

— Convite com aquarela feita pela Lyana ou tipografia minimalista?

— Aquarela, lógico. Eu sou a artista da relação, lembra? — Pisquei pra Olívia, que fingiu revirar os olhos.

— Flores no cabelo ou véu tradicional? — minha mãe perguntou.

— Hmmm... e se for um mix? Véu leve com flores?

— Agora você está falando minha língua — ela disse, anotando com paixão de wedding planner.

Depois de algumas horas, a mesa da cozinha parecia um campo de batalha de revistas rasgadas, amostras de tecido, cartões de fornecedores e um brigadeiro meio esmagado que o Collin roubou e quase morreu de rir ao ouvir “Você não pode comer a prova do bolo!”.

Sim, o Collin apareceu no meio da tarde, junto com o Nick, como quem não quer nada e ficou.

— Então vocês vão casar mesmo? — Nick disse, com aquele sorrisinho de irmão mais velho que diz "orgulho, mas vou provocar".

— Não. A gente só quer um bolo de três andares pra comer sozinha mesmo — Olívia respondeu, impassível.

— Aprovada. Mais uma vez.

A conversa descambou pra lembranças de infância, quando a Lyana sonhava em se casar com alguém que soubesse cozinhar e tivesse uma risada bonita.

— E você arranjou as duas coisas — Nick comentou, olhando pra Olívia.

— Exato. Só que eu aprendi a cozinhar e ela tem a risada bonita. Um trabalho de equipe.

Mais tarde, sozinha com a Olívia no quarto, entre tecidos e cartões, eu olhei pra ela e respirei fundo.

— Tá mesmo acontecendo, né?

— Tá. E tá lindo. Mesmo com aquele papel rosa brega que sua mãe ama.

— Ei, respeita a dona Vera. Ela é um anjo com glitter.

— Um anjo que quer me ver de vestido, véu e buquê.

— E eu quero te ver sorrindo igual agora. Todo dia. Até quando a gente brigar por quem lavou menos pratos.

Ela se aproximou, segurou meu rosto com as duas mãos e disse:

— Vai ser perfeito. Porque você é minha casa. E onde quer que a gente se case, vai ser só o começo.

Aí, é claro, a gente se beijou como se não tivesse amanhã.

Spoiler: amanhã tem mais. E tem cerimônia vindo aí.

※※※※※※※※※

Já havíamos discutido o básico: data, local, cores, comida. E agora era o grande dia de ir experimentar vestidos. Minha mãe parecia mais empolgada que eu — e olha que eu estava quase flutuando desde que acordei.

Chegamos ao ateliê num fim de tarde preguiçoso, e o lugar parecia saído direto de um conto de fadas. Tudo branquinho, elegante, e com cheirinho de lavanda misturado a renda antiga. Até o chão parecia pedir silêncio e reverência. Claro que eu entrei tropeçando no tapete e quase derrubei uma arara de vestidos.

Minha mãe segurou meu braço com aquele sorrisinho de “minha filha é um desastre, mas é meu desastre”.

— Vamos tentar não destruir nada antes do vestido, filha.

— Eu tô nervosa, tá? — rebati, tentando ajeitar meu cabelo como se isso resolvesse minha ansiedade. — É o vestido. O evento. O momento! E eu nem sei o que quero.

— Você vai saber quando experimentar. Igual quando encontrou a Olívia.

Respirei fundo, me deixando guiar pela estilista como se eu fosse um projeto de noiva em crise existencial. O primeiro vestido? Volume demais. Parecia que eu tinha brigado com uma nuvem e perdido. O segundo? Lindo, mas sério demais. Parecia que ia casar num castelo gótico, com uma espada nas costas. Nada contra, aliás.

Foi no terceiro que meu coração deu aquele pulinho. Um modelo com renda delicada, decote discreto nas costas e uma saia que dançava com o vento do ar-condicionado.

— Mãe… esse aqui...

Ela não disse nada. Só me olhou com aqueles olhos brilhando, o tipo de olhar que a gente guarda na memória pra sempre.

— É esse. Filha, você tá… você tá deslumbrante.

Dei uma voltinha no espelho. O vestido me abraçava como se tivesse sido feito pra mim. Era leve, mas com presença. Simples, mas com detalhes tão minuciosos que pareciam costurados à mão com paciência de fada.

Minha mãe se aproximou e pegou minha mão, com a mesma delicadeza de quando segurava enquanto eu tentava equilibrar a bicicleta sem rodinhas.

— Eu me lembro de quando você usava um vestido de princesa feito com fronha e fita crepe. Disse que queria casar com o “gato do desenho”. Agora olha pra você…

— Vou casar com alguém bem melhor que o gato do desenho. A Olívia é real. E me ama até quando eu tô descabelada e discutindo com o micro-ondas.

Ela soltou aquele riso gostoso, com lágrimas nos olhos.

— E eu amo ver você feliz. Só isso importa.

Saímos do ateliê com o vestido escolhido e o coração aquecido. Ela me abraçou tão apertado que parecia estar tentando eternizar aquele instante.

— Obrigada, mãe. Por estar aqui. Por tudo.

— Sempre vou estar, filha. Sempre.

Estão preparados para tão esperada cerimônia de casamento?

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