35|O fim.

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Lyana

O cheiro da nossa casa era uma mistura de lavanda com lembrança. Aquela porta se abrindo era quase um símbolo: o ciclo da lua de mel tinha acabado, mas o resto da vida só estava começando.

— Ly, você acha que ainda tem pizza congelada? — Olívia perguntou, largando a mala no chão como se tivesse acabado de cruzar o deserto do Saara.

— Se tiver, provavelmente virou fóssil. — Sorri, puxando ela pela cintura e roubando um beijo que durou mais do que a fome.

A casa estava igual, mas nós não.

Lyana e Olívia voltaram diferentes. Não no sentido espiritual-coach-zen, mas no mais bonito possível: agora elas tinham uma bagagem cheia de lembranças, uma aliança reluzindo na mão esquerda e um amor que sobreviveu a tudo — até à convivência intensa em um destino paradisíaco com dias de sol, mar e noites de penetrações memoráveis.

Enquanto desfazíamos as malas, Olívia achou uma calcinha minha na necessaire dela e gritou do quarto:

— Você tá espalhando suas roupas íntimas pelo universo agora?

— Claro, é pra deixar minha marca em cada lugar por onde passo. Marca registrada: calcinha jogada e coração roubado.

Dante, o irmão da Olívia, foi o primeiro a ligar assim que viu nosso “chegamos vivos” no grupo da família.

— E aí, recém-casadas? Tudo certo? Aconteceu alguma tragédia internacional? Teve um surto de amor em excesso?

— Só o normal — Olívia disse, colocando em viva-voz. — Uma ou duas overdoses de prazer, mas já nos recuperamos.

Dante riu alto do outro lado.

— Só não esqueçam que agora vocês são cidadãs respeitáveis. Nada de gemer alto nas janelas da vizinhança, ok?

— Tarde demais — murmurei, indo até o corredor onde a cortina da sala ainda estava torta. — A reputação já foi.

※※※※※※

Nos dias seguintes, a vida retomou seu ritmo com uma trilha sonora de risos, cafunés no sofá e pratos queimados porque a gente sempre esquecia o forno ligado.

Nick, meu irmão mais velho, apareceu num sábado qualquer com um bolo na mão e um discurso ensaiado:

— Vim parabenizar oficialmente o casal mais insuportavelmente fofo da família. — Ele entrou e foi direto pra geladeira. — E, claro, comer de graça.

— Oi, Nick. Fico feliz que você tenha vindo só pra isso. — Olívia disse, revirando os olhos. — Nem parece que chorou no casamento.

— Eu? Chorando? Deve ter sido suor dos olhos. Clima quente. Muito quente.

Collin, meu irmão mais novo, invadiu logo depois com a Mila e o Theo a tiracolo, gritando “três, dois, um — ABRAÇO DE GRUPO!” e quase derrubando a estante.

E ali, cercada dos meus irmãos, da minha esposa, dos amigos que viraram parte da mobília da nossa vida, eu percebi: a gente venceu.

Noha e Clara chegaram com brownies e piadas internas. Ele já não era mais aquele cara que nutria sentimentos mal resolvidos. Agora, Noha era só o amigo que fazia piada sobre nossa playlist de “noite quente” no Spotify e chamava Clara de “meu amor” com os olhos brilhando.

Clara se aproximou de mim na varanda, enquanto todos estavam entretidos com alguma conversa sobre o último filme da Marvel.

— Ei, Lyana… vocês já pensaram em filhos?

Quase engasguei com o chá.

— Meu Deus, Clara, a gente acabou de voltar da lua de mel. Deixa a gente terminar de lavar a calcinha de renda primeiro.

Ela riu, mas ficou ali, com aquele olhar gentil.

— Não precisa ser agora. Só queria saber se vocês veem isso… lá na frente.

Fiquei em silêncio um momento, olhando pra dentro da sala onde Olívia ria, agarrada ao meu irmão mais novo, zoando ele por perder no UNO.

— Eu vejo um futuro com ela, sabe? Com ou sem filhos, mas com amor o suficiente pra caber uma galáxia inteira.

Clara apertou minha mão.

— Então vocês já têm tudo.


※※※※※※※※

Na semana seguinte, o pai da Olívia nos chamou pra almoçar. Era sempre estranho ver aquele homem que começou duvidando tanto da gente, agora servindo arroz e feijão como se fosse mestre cuca do Masterchef Família.

— O casamento foi lindo. — Ele disse, e quase engasgou de emoção. — Vocês estavam tão… vocês. E eu fico feliz de ter visto isso. De ter aprendido a enxergar vocês do jeito certo.

Olívia segurou a mão dele, emocionada.

— A gente só queria ser vistas, pai. Obrigada por olhar de verdade.

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Matteo, também nos visitou com um presente inusitado: um porta-retratos digital que passava fotos do casamento em looping infinito. Até as da pista de dança em que Olívia quase caiu tentando rebolar até o chão com a avó dela.

— Isso aqui é pra vocês lembrarem que o amor é bonito, mas também um pouquinho cafona — disse ele, nos abraçando. — E que eu sempre vou estar aqui. Mesmo que vocês não consigam mais beber uma garrafa de vinho sem dormir no meio da segunda taça.

※※※※※※※

Última noite antes da rotina voltar.

Eu e Olívia estávamos no sofá, enroscadas sob uma manta, vendo algum reality ruim só pelo prazer de comentar as cafonices alheias.

— Você acha que a gente já virou aquele casal que dá nojo de tão fofo? — perguntei.

— Totalmente. Mas, sinceramente, foda-se. — Ela beijou meu ombro. — A gente merece cada segundo disso.

Ficamos em silêncio um tempo. Só o som da TV e o barulho bom da respiração dela.

— Amor? — perguntei baixinho. — E se daqui a uns anos a gente quiser mesmo aquela coisa de ter uma família maior? Com criança correndo e bagunça?

Ela olhou pra mim, os olhos brilhando.

— Então a gente constrói isso. Do nosso jeito. Sem pressa. Sem fórmulas. Só com amor.

Suspirei, deitada ali no peito dela.

Era isso. O fim do início. E o começo do sempre.

COMO NÃO TE AMAR? Histórias para pegar e não largar. Descubra agora