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— Chegou bem em casa? — Judy perguntou ao ver a filha sentada no sofá, assistindo algum seriado aleatório que passava na televisão.

— Ah, sim. Tristan me deu uma carona.

— Que estranho. Ele apareceu no restaurante um tempo depois de você sair.

— Ele falou que voltaria depois, mas quis me dar uma carona e eu não recusaria. Tenho medo de andar sozinha ao entardecer. — A mais nova deu de ombros.

— E ele não falou nada esquisito?

— É o Tristan, ele sempre fala algo esquisito.

— Mas não perguntou nada? — A mulher levantou uma das sobrancelhas e Beatrice a olhou confusa.

— Não…? 

— Estranho, Beatrice. Porque ele me fez um interrogatório sobre a sua vida.

— Sobre a minha vida?

— É, algo como: “Quando foi que você notou que a Beatrice não interagia com as outras crianças?”, “Sabe quando foi que Beatrice se demonstrou ser solitária?”, “Ela nunca demonstrou se sentir sozinha?” — Judy citou cada frase do loiro e Beatrice abriu a boca, antes de rir.

— Que idiota, eram as outras crianças que não interagiam comigo.

— Acho que o seu namoradinho está preocupado.

— Acho que esse “namoradinho” está tentando achar respostas em algo que não tem explicação.

— Como é? — Judy arregalou os olhos. — Eu estou ficando louca ou você não negou que ele era seu namorado?

— Não comece…

— Não, é melhor que isso. Você até repetiu a palavra!

— Judy Otinger! — Beatrice fechou a cara e a sua mãe segurou a risada diante da sua expressão.

— Você sabe que eu estou brincando, né?

— Eu sei, eu sei. É só que… é algo muito novo.

— Tudo bem. — Judy deu de ombros. — Mas quando vocês estiverem realmente namorando, me avise.

— Não vou…

— Não vai me contar? — Sua mãe fingiu indignação. — Não se preocupe, Beatrice, o próprio Tristan vai vir me contar. 

— Olha, eu vou dormir. — A garota bufou subindo as escadas.

— Não vai me desejar uma boa noite?

— Você não está merecendo.

• ⭒ •

Sentiu suas bochechas esquentarem ao ver que o seu adversário no xadrez estava focado no jogo, enquanto a garota estava preocupada com o loiro, que esperava que o horário do clube de xadrez acabasse. A sala estava silenciosa e Beatrice costumava gostar desse ambiente, porém, agora aquilo era desconfortável enquanto o loiro estava sentado na cadeira encostada na parede ao seu lado direito e encarava a baixinha. Vez ou outra não conseguia ver os movimentos com clareza, o que acabava a deixando confusa sobre o jogo. Seu adversário parecia impaciente enquanto a garota estudava o jogo por alguns longos minutos. O loiro ao seu lado levantou as sobrancelhas, parecendo incrivelmente entediado e com agonia de ficar em silêncio por oito minutos — o que, na sua cabeça, parecia uma eternidade. Beatrice bufou quando todas as suas peças foram apreendidas e ficou com o seu rei preso. Ainda que não fosse um xeque-mate, era uma derrota. Apertou as mãos do garoto à sua frente, murmurando um “bom jogo” e olhou no relógio, percebendo que não havia tempo para outra partida.

𝐇𝐎𝐒𝐓𝐀𝐆𝐄, ᴛʀɪꜱᴛᴀɴ ᴅᴜɢʀᴀʏOnde histórias criam vida. Descubra agora