Veneno

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            Paris, 1995
       Jagged Stone estava apresentando em um bar de Paris com sua antiga banda. O lugar era pequeno, meio sujo, cheio de pôsteres rasgados de bandas de rock e punk colados nas paredes. O som era cru, quase áspero, e o público era uma mistura de jovens rebeldes e frequentadores habituais.
        Jagged, com seu cabelo rebelde e jaqueta de couro surrada, cantava com uma intensidade que parecia rasgar o ar, cada nota carregava a raiva e a paixão de quem sabia que estava ali para deixar sua marca. Porém, o público parecia estar indiferente em relação à música, pessoas conversavam, bebiam, alguns até viravam os olhos, exceto uma pessoa.
       Por conta disso, após o show, enquanto a banda guardava os instrumentos na van, o único animado com o próximo show era o Jagged, que diz com um sorriso no rosto enquanto guarda a guitarra no case com um sorriso no rosto.
-Amanhã é no Les Trois Baudets. Aquela acústica é muito melhor. Vai ser a nossa noite, galera.
        Os outros integrantes da banda só trocaram olhares cansados. Um deles, o baterista, deu de ombros antes de acender um cigarro e se afastar sem dizer nada. Então o Baixista diz enquanto acende um cigarro.
-Você viu o público de hoje? Nem pareciam vivos.
       Jagged não se deixou abalar. Fechou o case da guitarra com firmeza, apoiando-se nele como se fosse um pedestal improvisado para mais um discurso otimista.
-É só o começo. Toda banda começa assim. Os Sex Pistols tocaram pra meia dúzia antes de explodir.
       O baixista bufou e soltou a fumaça do cigarro.
-A diferença é que os Sex Pistols sabiam tocar. Aliás, você está fora da banda, Jagged.
       Jagged piscou, sem entender de imediato.
-O quê?
       O baixista falou sem encará-lo, tragando o cigarro com uma calma cruel.
-Você ouviu. Sua energia de "estrela do rock" não cola mais. A gente quer fazer música, não teatro.
       Jagged rebateu dando um passo à frente, a voz oscilando entre indignação e incredulidade.
-Mas eu sou a alma da banda! Fui eu que consegui o show de amanhã, fui eu que escrevi três das cinco músicas novas!
       O baterista acrescentou com um riso sarcástico.
-E também foi você que espantou metade da plateia berrando como se estivesse no Wembley. Cara, você é bom, mas não é isso tudo.
         Jagged ficou parado por um momento processando aquilo. Ele respirou fundo, pegou o case com a guitarra, jogou a alça no ombro e encarou os dois.
-Vocês vão se arrepender. Eu vou ser maior que todos vocês juntos. E vocês vão se lembrar que me chutaram bem no começo.
Baixista
-Boa sorte, estrela.
        Então o baixista entrou na van, deixando Jagged pra fora, e o baterista fala para Jagged enquanto liga a van.
-Você não é Alice Cooper. E boa sorte com a carreira solo.
       Quando a van se afasta, Jagged entrou novamente no bar, agora bem mais vazio e na Jukebox tocava "Call Me" da Blondie. Pediu uma cerveja no balcão e deixou o case encostado ao lado do banco alto. Estava irritado, frustrado, mas por algum motivo não derrotado.
       Então uma mulher, dançando no ritmo da música. Ela tinha cabelos longos pretos e usava uma jaqueta de couro preta com espinhos e uma camiseta rasgada, cheia de manchas de tinta e sujeira, como se tivesse passado o dia inteiro em alguma luta ou protesto.
       Ela se aproximou do balcão e falou pro barista.
-Me vê o de sempre.
        Jagged Stone observava a mulher enquanto ela falava com o barista. A jaqueta com espinhos, as manchas na camiseta, o jeito dela se mover, tudo ali exalava uma energia crua e desafiadora. Ele sentiu uma faísca de curiosidade se acender dentro da frustração que o dominava.
       A mulher virou-se para o bar, pegou o copo e, sem cerimônia, deu um gole longo e firme. Então, olhando para o chão, quase para si mesma, murmurou.
-Parece que esse lugar não mudou nada desde a última vez que estive aqui.
Jagged
-Ei. Você foi a única pessoa que prestou atenção no show.
        Ela virou o rosto para ele devagar, os olhos o examinando da cabeça aos pés.
-Você era o que gritava como se o mundo fosse acabar?
       Jagged riu, sem saber se era elogio ou insulto.
-Talvez. E você era a que encarava como se o mundo já tivesse acabado.
         Ela sorriu, um sorriso torto, quase desafiador, enquanto os olhos azuis brilhavam com uma intensidade difícil de decifrar.
-Sou Anarka Couffaine. E você?
Jagged
-Jagged Stone. Ex-vocalista e ex-guitarrista da... bom, aparentemente de nenhuma banda agora.
Anarka
-Então, Jagged Stone, ex-vocalista e ex-guitarrista... você parece estrangeiro, não é daqui, né?
        Jagged assentiu, girando levemente o copo de cerveja na mão.
-Americano. Georgia. Vim tentar a sorte aqui… Paris parecia ter mais alma. E menos gente me dizendo como cantar.
Anarka
-Paris tem alma, sim. Mas também tem dentes. Se você não morde de volta, ela te engole.
         Jagged sorriu de canto, achando a frase tão poética quanto punk. Ele virou um pouco a cabeça, observando melhor a mulher à sua frente.
-Gosto disso. Parece o tipo de letra que eu escreveria.
       Anarka levantou uma sobrancelha, divertindo-se com a resposta.
-É? Então talvez você devesse escrever. Quem sabe vire algo melhor que aquele grito de Serpente Marinha que ouvi no palco.
Jagged
-Serpente Marinha?
Anarka
-Parece que você não controla muito bem a voz, mas tem fogo. Isso é raro. A maioria só quer cantarolar, não rasgar a garganta.
        Jagged deu um sorriso torto, meio desafiador, meio divertido.
-Pode ser. Mas às vezes, gritar é a única maneira de ser ouvido. Se a gente cantar baixo, ninguém escuta nada.
       Anarka apoiou os cotovelos no balcão, inclinando-se um pouco para frente.
-E o que você faz quando a garganta começa a doer? Continua gritando até perder a voz?
Jagged
-Eu canto até a voz sumir, Anarka. Porque é melhor do que calar.
        Ela sorriu, dessa vez mais sincera, um brilho travesso nos olhos.
-Gosto disso. Você é feito de fogo, não de água morna. Paris precisa de gente assim.
Jagged
-Você parece entender de música, você toca?
         Anarka deu uma risada baixa, quase um ronronar de desafio.
-Toco sim. Eu toco guitarra. Já fui de umas bandas por aí, nada que tenha ido muito longe, mas a gente fazia barulho o suficiente pra incomodar.
Jagged
-Amanhã eu ia fazer uma apresentação com a minha antiga banda no Les Trois Baudets, mas infelizmente vou ter que cancelar depois de semanas tentando me inscrever.
Anarka
-Não vai cancelar nada. Vai tocar sim.
Jagged
-Com quem? A banda me chutou. Parece que minha energia “exagerada” era demais pra eles.
Anarka
-Então monta outra. Duas guitarras já fazem uma revolução.
Jagged
-Você tá me chamando pra montar uma banda com você, uma desconhecida que me chamou de serpente marinha?
Anarka
-Você prefere os que te chutaram da banda?
           Ele soltou uma risada surpresa, sincera, pela primeira vez naquela noite. O jeito dela era direto, um soco e um abraço ao mesmo tempo. Aquilo o animava.
-Tá. E se a gente for um desastre? Se ninguém aparecer, se a gente for vaiado, se a polícia mandar parar?
Anarka
-Então a gente vai ter histórias pra contar.
Jagged
-Sabe de uma coisa? Vamos fazer isso. Montar uma banda juntos. Quero ver quem vai mandar parar.
        Anarka sorriu, um brilho travesso e decidido no olhar.
-Então amanhã, no Les Trois Baudets, a gente mostra pra Paris o que é fogo de verdade.
Jagged
-Alias, eu toco Keytar também.
        Anarka arqueou uma sobrancelha, surpresa e divertida.
-Keytar? Você não para de me surpreender, Jagged Stone.
        Ele deu de ombros, pegando o case da guitarra com uma expressão desafiadora.
-Às vezes é bom misturar o clássico com o inesperado. Isso vai dar um tempero diferente pra nossa revolução.
        Anarka deu um leve sorriso.
-Então, amanhã a gente se encontra no Les Trois Baudets. Quero ver se você tem mais fogo do que só gritaria.
        Em seguida ela pega um guardanapo e anota alguma coisa e entrega pra Jagged.
-Meu número. Nos vemos amanhã Serpente Marinha.
       Então ela sai do bar e quando o barista percebeu que ela saiu sem pagar, ele ficou bravo.
-Ei, você tem que...
Jagged
-Eu pago pra ela.
        O barista viu o jeito que Jagged olhava para Anarka enquanto ela saia do bar e deu uma risadinha.
-Pode esquecer. Ninguém consegue conquistar o coração dela.
         Jagged tirou algumas moedas do bolso e colocou no balcão, ainda com o olhar preso na porta por onde Anarka havia saído.
-Eu não quero conquistar o coração dela...
        Ele faz uma pausa na fala, e então ele sorri de canto.
-Quero tocar ao lado dela.
         No dia seguinte, Jagged e Anarka estavam fazendo um show no Les Trois Baudets e a plateia tinha reações mistas, alguns gostavam, outros não e outros estavam indiferentes. Quando o show acabou, os dois estavam guardando seus instrumentos, Jagged a sua Keytar e Anarka a sua guitarra, até que um homem se aproximou deles, um produtor musical.
-Jagged Stone e Anarka Couffaine, não é?
        Ambos se entreolharam, surpresos. Jagged ajeitou a alça da keytar no ombro.
-Depende. Você é da polícia?
       O homem ergueu uma sobrancelha e soltou uma risada curta, debochada, enquanto tirava do bolso um cartão de uma gravadora e entrega para Jagged.
-Muito pelo contrário. Sou dono e produtor da gravadora Bob Roth Records. E vocês dois chamaram a minha atenção. Eu já vi muita banda tentando parecer ousada… mas vocês dois? Vocês são ousadia. Tem algo cru aí. Caótico. E isso... vende. Quero que vocês gravem como são. Autênticos. Selvagens. Do jeito que fizeram hoje. Só... com menos microfone chiando.
         Anarka cruzou os braços, desconfiada.
-E o que a gente ganha com isso?
        Bob Roth deu um sorriso satisfeito, claramente acostumado com esse tipo de reação.
-Eu ganho um contrato com dois diamantes brutos antes de virarem moda. E vocês ganham um estúdio, um álbum, e talvez… a chance de explodirem.
       Jagged encarou o cartão por um momento, girando-o entre os dedos.
-A gente nem tem nome de banda ainda.
Bob
-Isso nunca impediu ninguém. O que importa é o som, e o som de vocês é barulho com propósito.
        Anarka olhou para Jagged, depois para o cartão. Ela ainda estava com os braços cruzados, mas havia um brilho pensativo nos olhos.
-E se a gente quiser manter o controle criativo?
Bob
-Vocês vão ter. Desde que venda.
Jagged
-A gente não vai vender a alma por um estúdio, Roth.
Bob Roth
-Ótimo. Só vendam o som. O resto a gente acerta depois.
      Anarka fala em tom seco.
-Vamos pensar.
Bob Roth
-Façam isso. Mas não demorem muito. O mundo gira rápido. E vocês têm algo que não pode esperar muito ou desaparece.
        Ele sumiu pela multidão com a naturalidade de quem já estava acostumado a caçar talentos em cada buraco de Paris. Jagged olhou para Anarka, que guardava a guitarra no estojo, os olhos mostrando aquela mistura de desafio e dúvida que só quem vive da música conhece. Ele podia sentir que aquele momento era uma encruzilhada, uma chance de virar o jogo, ou de afundar de vez.
-Você acha que a gente deve aceitar?
Anarka
-Se a gente quer ser ouvido, essa é a chance. Mas eu não quero virar só mais uma promessa descartável. Quero que a gente faça do nosso jeito.
         Jagged assentiu, fechando o estojo com firmeza.
-Nem mais, nem menos. Do nosso jeito. Se a gente vender algo, que seja o que a gente é. Sem enfeites, sem concessões.
       Então os dois saem do bar e andam pelas ruas de Paris conversando sobre o contrato até Jagged mudar de assunto.
-Onde você mora?
Anarka
-Eu moro em um barco. Atracado no Sena.
       Jagged arregalou os olhos, surpreso e... impressionado.
-Um barco? Tipo... de verdade? Um navio pirata ou uma dessas coisas flutuantes que fingem ser casa?
       Anarka sorrindo com aquele ar debochado.
-Uma coisa flutuante que é casa. Mas também é o meu navio pirata.
Jagged
-Um navio pirata… claro que é. Tinha que ser algo à altura da capitã Couffaine.
Anarka
-Se você subir a bordo, não tem volta. Não dou colete salva-vidas pra quem não sabe nadar.
Jagged
-Ótimo. Eu não planejo pular fora tão cedo.
       Ela apenas sorriu e seguiu andando, como se já tivesse esperado aquela resposta. Quando chegaram perto da margem, Anarka apontou para um barco atracado, simples.
-Bem-vindo ao 'Liberdade' Não tem luxo, mas tem alma.
       Jagged sorri de canto.
-Nada mal. Tem mais personalidade do que muito hotel de cinco estrelas por aí.
Anarka
-E dá menos trabalho do que lidar com recepcionista. Sobe aí, Serpente Marinha. Só cuidado pra não escorregar. Eu ainda estou reformando ele.
          Jagged subiu pela pequena rampa improvisada, o barco balançou levemente sob seus pés, mas ele manteve o equilíbrio com um sorriso. Quando chegou no convés, Jagged olhou ao redor, o convés era uma mistura de caos e charme, latas de tinta abertas de um lado, pôsteres jogados pelo convés. O lugar tinha cheiro de maresia, tinta fresca e liberdade.
-Isso aqui parece mais um manifesto do que uma casa. Eu gostei.
Anarka
-Porque é. Todo canto que você vive vira um pedaço de quem você é. Além disso, eu acredito que a criação nasce do caos.
          Jagged deu uma risada baixa, apreciando o cheiro da tinta e o som suave da água batendo contra o casco do barco.
-Caos é combustível, Anarky.
Anarka
-Anarky?
          Jagged sorriu, inclinando a cabeça com um olhar malicioso.
-Anarky é meu apelido pra você, meio punk, meio promessa de revolução. Se é caos que você acredita, esse nome cai bem.
          De repente, começa a trovejar ao longe.
-É melhor a gente ir pra dentro.
         Anarka empurrou a porta de metal meio emperrada com o ombro e acenou para que Jagged entrasse primeiro. O interior do barco era pequeno, mas tinha uma energia única, paredes cobertas com colagens de jornais, letras de músicas escritas à mão, fios pendurados, equipamentos velhos de som empilhados em um canto e um colchão jogado no chão com cobertores coloridos.
-Isso aqui é tipo... um estúdio, uma casa e uma barricada revolucionária tudo em um.
           Anarka fecha a porta atrás dela.
-Isso aqui é liberdade. Sem vizinhos pra bater na parede por causa do volume, sem regras, sem máscaras.
         Ela jogou a jaqueta numa cadeira e foi direto procurar alguma coisa para beber.
-Você realmente vive o que prega, hein, Anarky?
Anarka
-Eu sou o que prego. E se você vai fazer parte disso, vai ter que se acostumar com o barulho, o improviso... e com dias sem água quente.
          Jagged riu, balançando a cabeça em aprovação.
-Já estou acostumado com o improviso. A água quente, se vier, será bônus.
        Anarka voltou com duas garrafas de cerveja, entregando uma a ele. Do lado de fora, o trovão estourou mais perto, a chuva começando a bater contra o teto do barco com ritmo crescente.
-Sabe... se você quiser mesmo gravar com o Roth, eu topo. Mas só se a gente puder fazer algo que ainda seja nosso. Nada de transformar nossa raiva em produto enlatado.
Jagged
-Prometo. Se tiver que vender alguma coisa, vai ser autêntico, não mentira.
          Anarka ergueu a garrafa para um brinde silencioso, e Jagged a acompanhou.
-Ao caos.
Jagged
-E à liberdade.
         As garrafas se tocaram com um leve tilintar abafado pela chuva cada vez mais intensa. Por um momento, ficaram em silêncio, apenas escutando a tempestade lá fora e o som abafado da água contra o casco. A luz dentro do barco era fraca, mas suficiente para mostrar a expressão determinada no rosto dela e o brilho incontrolável nos olhos dele.
-Ainda precisamos de um nome pra nossa dupla, se formos mesmo assinar esse contrato.
          Jagged pensa um pouco e sugere 'Croco Duo'. Anarka arregalou uma sobrancelha, visivelmente cética, com um meio sorriso brincando nos lábios enquanto repetia em voz baixa.
-Croco Duo?
Jagged
-Sim! É ousado, estranho... um pouco ridículo até. Mas gruda. Crocodilos são selvagens, imprevisíveis... tipo a gente. E "Duo" porque... bom, somos nós dois. Simples, direto. E ainda soa como nome de banda excêntrica que os críticos odeiam, mas o público ama.
           Anarka olhou para a cerveja, pensativa por um segundo, e então riu.
-Croco Duo... isso é tão ruim que talvez funcione. Pelo menos ninguém vai esquecer.
Jagged
-Isso! Tá vendo? Já tem alma. Já tem história. Quando perguntarem de onde veio, a gente diz: de um trovão, uma cerveja quente e um barco.
Anarka
-Mas tem uma condição. Se esse nome virar piada, você assume a culpa.
          Jagged dá um sorriso de canto.
-Com orgulho. Se for pra ser piada, que seja a melhor piada que o mundo já ouviu.
Anarka
-Acho melhor compormos pelo menos uma música original nossa para apresentar na gravadora.
           Eles ficaram a tarde e a noite toda compondo, querendo montar a própria identidade, nada de covers. No dia seguinte, na gravadora, os dois estavam no estúdio de gravação da Bob Roth Records e terminaram sua apresentação para Bob, que via tudo pelo outro lado do vidro do estúdio.
-E aí, o que achou, Bob?
         Bob Roth ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para os dois jovens pelo vidro do estúdio com um misto de surpresa e cálculo. Ele não esperava algo tão... autêntico. A música que eles apresentaram era crua, cheia de falhas técnicas, mas ao mesmo tempo carregada de emoção bruta. Tinha garra. Tinha alma. E isso, para alguém como Bob, significava lucro, se soubesse lapidar do jeito certo.
        Ele apertou um botão do interfone, a voz soando metálica dentro da sala.
-É... vocês não são convencionais. Essa faixa... tem uma energia perigosa. E isso vende. Vocês dois têm uma presença que incomoda. A voz do Jagged é como um soco no estômago, e a guitarra da Anarka parece uma sirene de guerra.
Anarka
-Isso é um elogio ou uma crítica?
      Bob sorriu com cinismo.
-Os dois. Mas, no fim, é o tipo de barulho que o mundo precisa ouvir. Parabéns. Croco Duo está oficialmente no radar. Vamos gravar um EP com três músicas. Se vender bem, vocês ganham um álbum completo.
       Jagged trocou um olhar com Anarka, ambos com aquela expressão de "não acredito que isso tá mesmo acontecendo", mas sem perder o ar desafiador.
-Só queremos uma coisa garantida.
Bob
-Mais controle criativo?
Anarka
-E liberdade de imagem. Nada de nos vestir como marionetes do marketing.
Bob
-Vocês são os Croco Duo. Ninguém pode vestir um crocodilo com terno. Só... não me tragam músicas sobre “libertar galinhas” ou “anti-shampoo”, e a gente se dá bem.
Jagged
-Não prometo nada.
Anarka
-Liberdade criativa, lembra?
         Bob bufou, mas estava animado por dentro. Ele já podia imaginar o buzz. O novo duo do rock alternativo francês, meio grunge, meio punk, com alma revolucionária e zero papas na língua. Ele sabia: podia fazer isso estourar.
-Vocês começam a gravar na próxima semana. Aproveitem essa chance. Estão na beira do salto... ou da queda. E sobre o figurino, eu tenho um amigo que pode fazer elas pra vocês. Acho que vocês conhecem o Gabriel Agreste.
Jagged
-Gabriel Agreste? O cara que veste umas pessoas que parecem saídas de revista de moda? Isso vai ser uma piada. Nós não somos esse tipo de banda.
Bob
-Relaxem, o Gabriel sabe respeitar estilo. Ele pode até dar um toque, mas não vai tirar a alma de vocês. Afinal, vocês são o futuro do rock.
        Jagged e Anarka se entreolharam, uma mistura de ceticismo e curiosidade brilhando nos olhos de ambos.
-O futuro do rock? Vamos ver se a gente não acaba sendo só mais uma moda passageira.
Jagged
-Pois é, o que importa é que, por enquanto, a gente tem uma chance. E eu não vou desperdiçar.
        Bob acenou com a cabeça, satisfeito, antes de se afastar.
-Ok, Croco Duo. Vocês vão me fazer acreditar que o rock ainda tem fôlego. Mas lembrem-se: o que vende é o que toca o coração das pessoas. Autenticidade é ouro.
         No dia seguinte, eles voltam para a gravadora onde são recebidos por Bob.
-Olhem quem chegou. Apresento-lhes Gabriel Agreste. Ele vai cuidar do estilo de vocês. Pode ser mais leve do que parece, mas o que ele faz é importante.
        Pouco depois, Gabriel entrou na sala. Diferente do que eles imaginavam, ele tinha um jeito tranquilo, quase tímido, com um sorriso educado e roupas simples, mas com um toque de elegância discreta.
-Prazer em conhecê-los. Soube que vocês são a nova aposta da gravadora. Vamos conversar sobre como vocês querem se apresentar ao mundo.
        Jagged trocou um olhar rápido com Anarka, desconfiados, mas dispostos a ouvir. Gabriel tira o seu caderno de desenhos da bolsa.
-Sei que vocês querem autenticidade e liberdade e isso é ótimo. Meu trabalho não é mudar quem vocês são, e sim destacar o que já existe. Cada corte, cada cor, cada detalhe vai ser pensado para que o público sinta a essência de vocês antes mesmo de ouvir uma nota.
          Anarka cruzou os braços, ainda um pouco cética, mas interessada.
-Então não vai ser um uniforme de boyband ou algo comercial demais, certo?
        Gabriel sorriu.
-Nem pensar. Quero algo que faça vocês se sentirem invencíveis no palco, que transpareça o fogo de vocês. Sem máscaras, sem truques baratos.
       Jagged se aproximou.
-Pode ser que eu não tenha muito estilo, mas sei o que quero: roupas que aguentem o tranco, que acompanhem o ritmo e a energia do show.
         Gabriel assentiu, folheando o caderno.
-Tenho algumas ideias.
        Eles ficaram horas discutindo sobre isso, nada que Gabriel mostrava parecia bom para os dois, até que Gabriel mostra o esboço de dois trajes. O feminino tinha um terno prateado com listras roxas e o masculino tinha uma camisa preta cortada ao meio e ombreiras verdes em formato de círculo. Suas mangas e calças são pretas com listras verdes. Ambos os trajes com máscaras robóticas.
        Anarka franziu a testa ao ver o traje prateado com listras roxas.
-Isso aí... parece que eu escapei de uma rave intergaláctica.
        Jagged encarou o próprio figurino.
-E eu pareço um vilão de desenho dos anos 80. Cadê o meu lança-fogo de ombro?
         Gabriel manteve a postura tranquila, como se já esperasse resistência.
-Entendo. Mas escutem: a ideia não é só estética. Essas máscaras, por exemplo, criam mistério. Elas vão fazer o público focar mais na música e nos movimentos de vocês no palco. E os cortes e cores intensas destacam o contraste entre vocês. O "caos harmônico", como o Bob chamou.
Anarka
-E se o caos não quiser ser domesticado?
Gabriel
-Então vamos usar o caos como base. Podemos adaptar. Tirar a máscara no meio do show? Beleza. Trocamos o prateado por couro tingido? Sem problemas. Meu trabalho não é domar vocês, é amplificar.
            Jagged olhou de novo para o croqui e, pela primeira vez, pensou em como seria estar no palco com algo assim, algo que, mesmo estranho, virasse símbolo. Algo que, assim como sua música, ninguém esquecesse.
-Eu topo... se o traje aguentar um solo de Keytar pulando em cima do amplificador.
          Gabriel deu um leve sorriso.
-Eu faço roupa pra supermodelos que encaram desfiles como campos de batalha. Você vai ficar bem.
           Anarka suspirou, pegando novamente o desenho nas mãos.
-Se vamos ser lembrados, que seja por sermos absurdamente a nossa versão mais insana.
Jagged
-Exato. Se for pra ser Croco Duo... então que sejamos ferozes, barulhentos e inconfundíveis.
Gabriel
-Ótimo. Deixem o resto comigo. Em uma semana vocês terão os trajes.
Bob
-E até lá, pensem em qual vai ser a primeira música do EP. Porque se vocês querem quebrar tudo... tem que começar com uma explosão.
          E na semana seguinte eles receberam os figurinos de Gabriel, a única mudança que eles fizeram no seu visual foi Jagged pintar as pontas do cabelo de verde e Anarka pintou o cabelo de rosa. E gravaram as três primeiras músicas pro EP e ao mesmo tempo Jagged ajudava Anarka com a reforma do barco, o que os tornava mais próximos com o decorrer do tempo. Dois anos depois, em 1997, Jagged levou Anarka para um show que Alice Cooper fez em Paris.
           O palco estava iluminado por holofotes que cortavam a escuridão como facas afiadas. Alice Cooper dominava o espetáculo, sua presença teatral hipnotizava a plateia que gritava cada palavra de 'Poison'. Jagged e Anarka estavam no meio da multidão, empolgados e ao mesmo tempo absorvendo cada detalhe da performance do mestre.
            Anarka, com o cabelo rosa vibrante refletindo as luzes do palco, olhou para Jagged e sorriu.
-Isso é o que eu chamo de show. É isso que a gente tem que fazer, não só tocar música, mas criar um espetáculo. Algo que ninguém esquece.
           Jagged assentiu, o brilho verde nas pontas do cabelo combinando com a intensidade do momento.
-É disso que eu sempre falei. A música precisa ser fogo, mas o fogo tem que iluminar tudo ao redor. A gente ainda tem um caminho longo, mas tô sentindo que a gente tá no rumo certo.
           Enquanto o refrão ecoava, Jagged segurou o braço de Anarka.
-E olha que a gente ainda vai aprender com o melhor. O cara ali sabe como dominar o palco e o público.
           Anarka deu um riso, inclinando a cabeça. Eles trocaram um olhar cúmplice e o show continuou, cada acorde e grito alimentando a ambição que crescia entre os dois. Mais tarde, quando o show acabou, Jagged e Anarka caminharam pelas ruas de Paris, iluminadas por postes amarelos e o brilho ocasional dos letreiros neon.
-Sabe, Anarky. A gente já tem uma história pra contar. Tem fogo, caos, mas também um pouco de alma. Acho que Paris vai lembrar da gente.
             Ela sorriu, meio cansada, meio sonhadora.
-E se não lembrar, a gente vai fazer barulho até lembrar.
Jagged
-Anarky, tenho uma pergunta.
Anarka
-O que é?
Jagged
-Você... Você quer namorar comigo?
             Anarka parou por um instante, olhando para Jagged sob a luz amarelada dos postes. O sorriso no rosto dela suavizou, e por um momento a máscara de rebeldia deu lugar a uma vulnerabilidade sutil, quase imperceptível.
-Namorar? Você tá falando sério, ou é só o efeito do show do Alice Cooper?
            Jagged riu, meio sem jeito, mas com os olhos fixos nela.
-Estou falando sério. Não precisa ser agora, não precisa ser perfeito... só quero saber se você toparia tentar. A gente já tá nessa loucura juntos, quem sabe pode ser mais do que só música.
           Anarka ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para as luzes tremeluzentes da rua e depois para Jagged.
-Eu não sou muito boa com essas coisas de "tentar"... mas, talvez... a gente possa tentar.
           Jagged sorriu aliviado, estendendo a mão devagar para segurar a dela.
-Então é um começo.
           E no ano seguinte, 1998, eles finalmente terminaram o primeiro álbum e decidiu dar o nome da banda pra ele. O som dos alto-falantes da Bob Roth Records ecoava pela pequena sala de audição. Era o momento final da masterização. A última faixa do álbum tocava, uma mistura crua de guitarras distorcidas, sintetizadores intensos, gritos e melodia. Era o caos perfeitamente calculado.
            Bob Roth, com um charuto apagado entre os dedos, sorriu satisfeito.
-Isso aqui... é imprevisível. É raiva embalada em poesia. É tudo que o mercado não sabe que precisa. Vamos lançar na próxima sexta. Com uma boa turnê, vocês vão virar lenda.
Jagged
-E quanto ao controle criativo?
            Bob suspira.
-Já falamos disso. Tá tudo no contrato. Vocês compõem, vocês assinam. Eu só boto no mundo.
Anarka
-Então é isso… nosso primeiro álbum.
            Bob Roth se levantou e apagou o charuto num cinzeiro prateado.
-Eu vou cuidar da turnê. A gente começa por Marselha, depois Lyon, depois Lille… E quando Paris ouvir vocês de novo, vão estar prontos pra encarar qualquer palco. De baladas a festivais.
            A notícia do lançamento do álbum começou a circular em Paris e, pouco a pouco, o nome Croco Duo foi ganhando força entre os amantes do rock alternativo. A mistura de atitude crua, som agressivo e a estética marcante desenhada por Gabriel Agreste causava divisão, alguns criticavam, outros adoravam, mas ninguém ficava indiferente.
             Enquanto isso, Jagged e Anarka continuavam dividindo os dias entre a reforma do barco Liberdade, os ensaios intensos para a turnê que se aproximava. Porém no Ano Novo de 1998 para 1999 Bob decidiu agendar um show pros dois em Paris.
-O que? Mas assim, de repente?
Bob Roth
-Oportunidades não batem duas vezes. O réveillon em Paris é um estouro de mídia. Todo mundo importante vai estar lá. Celebridades, imprensa, gravadoras internacionais. Vocês querem ser lendas ou só mais uma banda de bar?
Jagged
-Você quer que a gente suba num palco gigante, no meio de Paris, com câmeras ao vivo e empresários no meio da multidão... sem nem três semanas de lançamento do álbum?
Bob
-Eu quero que vocês explodam. E isso não acontece devagar. A oportunidade está aqui, Croco Duo. É aceitar ou continuar tocando em bares sujos por anos, esperando um milagre.
Anarka
-A gente não pediu por fama instantânea. A gente pediu voz. E isso aqui... é muita exposição de uma vez só.
Bob
-Vocês fizeram um álbum honesto. Vocês têm identidade. Eu só estou colocando um megafone na frente. A escolha é de vocês... mas se recusarem isso, não esperem que outra oportunidade assim apareça tão cedo.
              Silêncio tenso. Jagged e Anarka trocam olhares. É aquele tipo de momento onde o mundo parece parar por um segundo.
-Tá bom, Roth. Vamos fazer esse show. Mas do nosso jeito. Sem playback, sem coreografia ensaiada. Só a gente. Cru. Vivo.
Bob
-Desde que entreguem o caos que prometeram... o palco é todo de vocês.
              E no dia 31 de dezembro de 1998. O palco estava montado na frente da Torre Eiffel, cercado por telões, luzes coloridas, fogos prontos para estourar à meia-noite. A multidão lotava as ruas, uma mistura de fãs, curiosos, turistas e imprensa.
             Nos bastidores, Jagged ajustava as alças da keytar enquanto Anarka afinava a guitarra. Ambos estavam com seus trajes criados por Gabriel, ligeiramente desgastados pelo uso.
-Nervosa?
Anarka
-Como um gato prestes a saltar de um telhado. E você?
Jagged
-Como se fosse meu primeiro show… de novo.
Anarka
-É. Mas dessa vez, a gente não tá sozinho. É você e eu. Como sempre foi.
Jagged
-Você e eu contra Paris. De novo.
Anarka
-Contra o mundo, se for preciso.
           1999, após o show de ano novo que os dois participaram, Bob apenas os chamou para passar os dias da turnê.
-Parabéns, estrelas! Isso foi barulho puro! Quebra de padrão! Um soco na programação da televisão francesa!
Jagged
-A gente quase caiu do palco com a fumaça mal posicionada, Anarka quebrou uma corda da guitarra na terceira música e eu errei o segundo refrão de uma das músicas.
Bob
-E ninguém se importou! Porque vocês foram reais! Vocês incendiaram Paris na virada do ano.
           Então Bob estendeu uma folha para eles.
-Aqui está o roteiro da turnê. Quinze cidades. Começando por Marselha, depois Lyon, Lille, Toulouse, Nice… e, se tudo correr bem, Londres. Talvez até Berlim. Tá tudo aí. As datas estão ao lado no nome da cidade.
Jagged
-Londres… Berlim… Isso aqui é maior do que qualquer coisa que eu imaginei em 1995.
Anarka
-“Show em Marselha dia 8 - 12 de Janeiro, depois Lyon no dia 16 - 20 de Janeiro, Lille 25 - 31 de Janeiro, Toulouse 12 - 16 de Fevereiro, Nice 20 - 25 de Fevereiro...”
           No dia seguinte, eles começaram a turnê, passando por quinze cidades francesas antes de voltar seguirem para Londres. Quando chegaram a Londres, o frio de outono e o público diferente foram um choque, mas não para o Croco Duo. Jagged e Anarka, com seus trajes icônicos, conquistaram a atenção desde o primeiro acorde. A crítica foi dividida, como sempre, mas o público estava fascinado.
          Na volta para Paris, em Novembro, o barco Liberdade esperava, quase como um porto seguro. Lá, enquanto desmontavam equipamentos e descansavam.
-A gente está só começando, e quando a gente voltar ao estúdio, essa vai ser a primeira faixa do segundo álbum.
Anarka
-Sobre isso... Eu não vou pra Berlim. Na verdade, eu vou me aposentar da banda.
           Jagged parou de desmontar o equipamento e olhou para Anarka, os olhos arregalados, quase sem acreditar no que acabara de ouvir.
-Espera, o que? Você vai se aposentar? Agora? Por quê? Se é por causa do seu enjôo enquanto voltámos de Londres, era só falar que eu comprava passagens pra um cruzeiro no lugar de pra um avião.
Anarka
-Eu não estou enjoada por causa do avião. Eu... Eu estou grávida.
          Jagged congelou.
-Você... tá grávida?
Anarka
-Sim. Eu descobri quando voltamos de Londres na semana passada.
           Jagged deu um passo para trás, como se precisasse de espaço para processar aquilo.
-Grávida... De quanto tempo?
           Anarka respirou fundo, tentando manter a calma diante da tempestade que ela sabia que viria.
-Pelo exame... umas cinco semanas.
          Jagged passou a mão pelos cabelos tingidos de verde, visivelmente abalado. Mas não de raiva, era o tipo de choque que vem quando o mundo muda de rumo sem aviso.
-E... é meu?
          Anarka o olhou nos olhos, firme.
-Claro que é seu, idiota!
           Ele balançou a cabeça, quase rindo pelo absurdo da própria pergunta.
-Desculpa. Eu só... isso é grande. Isso muda tudo.
Anarka
-Por isso eu tô me aposentando. Eu amo o Croco Duo, Jagged. Amo tudo que a gente construiu. Mas eu não posso subir num palco com um bebê crescendo dentro de mim. Não com luzes piscando, fumaça, viagens malucas.
Jagged
-Eu entendo, Anarka. Se você precisa disso, eu apoio.
Anarka
-E quando for falar pro Bob que eu tô me aposentando da carreira, inventa qualquer outra desculpa. Eu tenho a sensação de que ele com certeza vai usar a minha gravidez pra marketing.
              Jagged deu um sorriso meio torto, quase um suspiro de alívio.
-Pode deixar. Vou inventar uma desculpa qualquer. Algo do tipo “explorando novos caminhos musicais” ou “focando em projetos pessoais”. Ninguém vai saber da verdade, a não ser a gente.
Anarka
-Obrigada.
Jagged
-Mas eu... eu não sei como ser pai. Mal sei como ser adulto e eu tenho 29 anos.
Anarka
-Eu também não sei como ser mãe. Mas a gente vai aprender junto. Não vai ser fácil, não vai ser perfeito, mas a gente vai fazer do nosso jeito.
           No dia seguinte, Jagged conta sobre a decisão da Anarka, com a desculpa que ela está se aposentando para focar em projetos pessoais, ao Bob Roth, que não fica nenhum pouco feliz com a decisão da Anarka, mas não queria perder um artista, e dinheiro.
-Vocês estavam ganhando espaço rápido demais. Mas, olha... não quero perder você, Jagged. Nem o talento que você tem.
           Jagged levantou a sobrancelha, curioso.
-E o que você sugere?
Bob
-Você tem uma voz única, uma presença forte. Por que não começar uma carreira solo? Você já tem um público, uma base. Pode explorar novos sons, novas histórias. E claro, sem perder a essência que te fez chegar até aqui.
          Jagged ponderou, olhando pela janela o movimento da cidade lá fora.
-Mas e o Croco Duo? A gente tinha um estilo, uma identidade forte. Começar sozinho é arriscar tudo.
          Bob sorriu,confiante.
-Arriscar faz parte do jogo. Mas você não vai começar do zero. Eu vou estar aqui pra apoiar. E você ainda pode colaborar com a Anarka quando ela quiser, sem pressão. A ideia é seguir em frente, não parar no tempo.
            Jagged soltou um suspiro, o peso da decisão crescendo.
-Vou pensar no que você falou. Mas se for pra começar solo, vai ser do meu jeito; autêntico, cru, como sempre.
           Bob sorriu satisfeito.
-Isso é tudo o que eu quero ouvir.
           Durante os últimos dois meses de 1999 e começo de 2000, Jagged e Anarka fizeram uma pausa dos shows para focar na reforma do Liberdade. E Anarka ainda tinha que fazer consultas médicas para ver se estava tudo bem com o bebê. E um dia, após o último ultrassom, em junho, Anarka volta pro Liberdade animada pra dar a boa notícia ao Jagged.
           Jagged estava no convés do Liberdade, afinando a sua guitarra. Até que Anarka chegou, com o rosto iluminado por um sorriso que quase fazia esquecer as preocupações, Jagged largou a guitarra e virou-se para ela, curioso.
-Então?
Anarka
-É um menino. E o médico disse que está tudo bem. Forte, saudável. Acho que ele vai ter a energia dos dois.
Jagged
-A gente vai precisar de muita energia mesmo, então. Aposto que vai ser um guitarrista.
         Anarka riu.
-Seja o que for, ele vai crescer nesse barco, com essa bagunça e essa loucura que a gente chama de vida. Eu até pensei em um nome para ele, ele vai se chamar Luka.
Jagged
-Luka... Luka Couffaine. Gosto disso. Tem um som forte. Já tô imaginando ele no palco, guitarra na mão, e você gritando no microfone do lado.
Anarka
-Falta um mês pra ele nascer e você já está planejando o futuro dele? Acho melhor deixar ele escolher o que quer ser. Já tô até imaginando ele pulando pelo convés, fazendo bagunça.
      Anarka faz uma pausa.
-Sabe, mesmo com toda essa bagunça, eu quero que ele cresça sabendo o que é lutar pelo que acredita. Que ele tenha a coragem de ser ele mesmo, sem se importar com o que os outros vão pensar.
Jagged
-A gente vai ensinar isso a ele.
         E um ano após o nascimento do Luka, Jagged Stone foi chamado pelo Bob Roth para ir na gravadora.
-Já faz dois anos desde que Anarka se afastou da banda. Tem certeza que ela não quer retornar?
Jagged
-Então... O meu filho acabou de fazer um ano e ela já está esperando o segundo. Então não vai dar.
Bob
-Filhos... Sei como é. O meu filho tem 11 anos e só faz bagunça.
Jagged
-Você tem filho?
         Bob tira uma foto da carteira e mostra para Jagged.
-O nome dele é Xavier Yves. Esse moleque vai me dar mais trabalho que todas as bandas da gravadora juntas. Ainda bem que eu e minha esposa tivemos apenas um e não dois.
Jagged
-É tão difícil assim?
Bob
-É um trabalho em tempo integral. Quando ele era bebê estava tudo bem, ele dormia, chorava, comia. Agora ele fala, pensa que é esperto, sobe nos móveis pra imitar super-herói, rabisca as paredes. E isso foi só a terça-feira da semana passada.
            Jagged riu com a sinceridade inesperada de Bob Roth, recostando-se na cadeira do escritório e cruzando os braços.
-Você falando assim me dá até medo do que me espera com o meu filho… e o segundo que vem aí.
Bob
-Eu vou ser sincero com você. Ser pai é um trabalho difícil. Você vai precisar de paciência, jogo de cintura, e uma boa dose de café. Principalmente pra você que vai ter dois.
Jagged
-Eu sempre pensei que ser músico era o maior desafio da minha vida. Mas acho que ser pai vai ser uma guerra diferente.
Bob
-E é. Eu inaugurei a gravadora alguns anos antes do Xavier nascer. E quando ele nasceu, o meu pai me deu um conselho que o meu avô deu a ele quando eu nasci. Eu não entendi na época, mas agora entendo. "Ou você é um bom pai, ou segue seu sonho".
            Jagged franziu o cenho, o peso daquelas palavras caindo como chumbo sobre seus ombros.
-E você? O que escolheu?
            Bob ficou em silêncio por um instante.
-Tentei fazer os dois. Mas sempre tem alguém que paga o preço. Minha esposa segurou muita coisa pra mim. E meu filho... bom, ele me chama de “o cara que vem no fim de semana com presentes”, e isso diz bastante.
            Então ele guardou a foto de Xavier na carteira.
-Não tô dizendo que não dá pra ter os dois. Só tô dizendo que é preciso saber o que é prioridade em cada momento. E às vezes, a música pode esperar. Outras vezes... não.
            Jagged ficou pensativo. As palavras de Bob não vinham como conselho vazio, mas como um aviso honesto de quem viveu o dilema. Ele respirou fundo, o som abafado do ar condicionado da gravadora preenchendo o silêncio.
-O problema é que... a música sempre foi a minha alma. E não sei se consigo imaginar um mundo onde ela não seja o centro de tudo.
Bob
-Então, eu tenho um prédio da gravadora nos Estados Unidos, o que acha de fazermos um acordo? Você vai para Los Angeles recomeçar sua carreira como cantor solo, apenas Jagged Stone. E eu pago uma remuneração para a Anarka por cada disco que a banda de vocês vendeu.
            Jagged levantou o olhar para Bob, surpreso com a proposta.
-Los Angeles?
           Bob assentiu.
-Sim. Lá eu tenho estúdios de ponta, produtores bons, e você vai ter um público novo. A indústria americana adora um artista com história, ainda mais um rockeiro com visual marcante e som autêntico. Você teria liberdade criativa e, com o nome “Jagged Stone”, a sua imagem solo teria um recomeço limpo. Nada de sombra da Croco Duo te seguindo.
               Jagged permaneceu em silêncio, absorvendo cada palavra.
-E a Anarka?
             Bob deu de ombros.
-Como eu disse, ela receberá parte dos lucros de tudo o que o Croco Duo vendeu. Pelos direitos. É justo. Mesmo que ela não esteja mais ativa, ela ajudou a criar o que vocês foram. E claro, se um dia quiser voltar, a porta tá aberta.
Jagged
-E se isso me levar pra longe demais deles?
Bob
-De quem? Dos seus filhos? Se a Anarka permitir, eu mesmo os levo pra te visitar em Los Angeles. Crianças adoram viajar.
           Ele entrega um contrato pro Jagged.
-O que me diz. Quer seguir seu sonho e voltar a ser a estrela em ascensão ou quer ser esquecido?
            Jagged segurou o contrato por alguns segundos.
-E se eu me arrepender?
          Bob o encarou, firme.
-Todo mundo se arrepende de alguma coisa, Jagged. A questão é do que você quer se arrepender menos. De ter tentado e dado certo... ou de ter ficado parado e se apagado?
           O músico ficou em silêncio por alguns instantes.
-Você tem razão. Eu não consigo deixar de ser quem sou. Mesmo que eu quisesse. A música... é o que me mantém inteiro.
         Jagged assinou o contrato. Rápido, sem hesitar. Bob soltou um assobio baixo e pegou os papéis de volta.
-Boa escolha, Stone. Vai pra casa hoje, arruma as malas. Amanhã mesmo você embarca pra Los Angeles. A imprensa vai enlouquecer com isso.
         Jagged se levantou, guardando as mãos nos bolsos da jaqueta.
-Preciso contar pra Anarka. Ela merece ouvir isso de mim.
          Bob apenas assentiu.
-E seja honesto. Ela vai respeitar isso. Mesmo que não goste.
         Mais tarde, Jagged voltou pro Liberdade, onde enquanto a Anarka preparava uma papinha para Luka, Luka brincava com alguns animais de pelúcia: um gato preto, uma cobra, um tigre e uma raposa. Anarka sorri para Luka.
-Ele está começando a reconhecer os animais... e já tem preferência pelo gato. Ele chama de 'Miau'.
          Mas Jagged ficou em silêncio e Anarka olhou para ele, desconfiada pelo silêncio dele.
-Aconteceu alguma coisa?
          Jagged assentiu, devagar.
-O Bob quer que eu vá gravar em Los Angeles. Solo. Como “Jagged Stone”.
          Ela ficou quieta.
-E você aceitou?
         Jagged abaixou os olhos, então respondeu.
-Aceitei. Eu... eu preciso disso. Preciso continuar sendo eu, mesmo que isso me afaste daqui.
            Anarka olhou para Luka por um momento e depois de volta para Jagged.
-Não vou impedir. Nunca fui do tipo que prende ninguém. Mas você tem que saber de uma coisa. Ele vai crescer. E vai sentir sua ausência. Se você for, vá sabendo que uma parte da sua vida vai continuar aqui... sem você.
          Ele engoliu seco.
-Eu sei. Mas, por favor... não deixe ele esquecer de mim.
          Anarka respirou fundo.
-Eu não deixaria. Se ele crescer e quiser ser seu fã, eu não vou proibir.
Jagged
-Você não está brava?
Anarka
-Eu não vou discutir na frente do Luka.
           Jagged ficou parado por um momento, mas seu silêncio parecia pesar no ar.
-Você vai ficar bem com tudo isso?
          Anarka parou o que estava fazendo e olhou para ele, o olhar firme e cansado.
-Vou ter que ficar. Porque alguém precisa segurar a barra aqui. Você vai estar em Los Angeles, fazendo seu sonho, sua música, sua carreira. E eu vou estar aqui, criando nossos filhos. Não é um papel que eu escolhi, mas é o que é.
         Jagged sentiu a irritação que transbordava nas palavras dela, não só por ele ir embora, mas por todo o peso que ela carregava.
-Eu sei que não é fácil. E eu queria que fosse diferente. Mas eu não posso abandonar o que me faz viver.
         Anarka retrucou, quase como uma acusação.
-Não é abandono, é escolha. Só que a sua vai te levar longe daqui... e a minha, bem, é ficar.
            Jagged deu um passo à frente, tentando buscar um entendimento.
-Anarky, eu quero que a gente seja mais do que isso. Mesmo que longe, eu quero estar presente pra vocês.
           Ela balançou a cabeça, um sorriso meio amargo.
-Presente do jeito que você puder. Mas não espere que eu fique esperando. Não quando eu já tô aqui dando conta de tudo sozinha.
           Luka, distraído, continuou brincando com os seus animais de pelúcia, e Anarka se virou para ele, uma expressão suave no rosto.
-Eu não vou te impedir, Jagged. Se quiser ir, vá. E lembra do que eu falei anos atrás 'Se você subir a bordo, não tem volta. Não dou colete salva-vidas pra quem não sabe nadar.'
         Jagged permaneceu ali, encarando Anarka, sentindo o peso daquelas palavras como um soco no estômago. Ele sabia que não era só uma despedida, era uma divisão definitiva, um momento que mudaria tudo.
-Eu não quero que seja assim. Eu queria que a gente pudesse fazer isso funcionar... sem quebrar.
          Anarka se aproximou devagar, evitando os olhos dele.
-A gente já quebrou, Jagged. Não do jeito que eu queria, mas quebrou. O que vem agora é se reconstruir, cada um do seu jeito.
Jagged
-Mas promete que vai cuidar bem deles. Do Luka e do bebê. Que vai ser forte quando eu não estiver aqui.
Anarka
-Eu já sou forte, Jagged. Sempre fui. E agora… agora vai ser igual. Só que com dois pequenos piratas a bordo.

           No dia seguinte, após 12 horas de viagem, Jagged chegou no aeroporto de Los Angeles, e desce do avião, cansado e meio perdido

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           No dia seguinte, após 12 horas de viagem, Jagged chegou no aeroporto de Los Angeles, e desce do avião, cansado e meio perdido. Então uma mulher se aproxima com um sorriso confiante.
-Você deve ser o Jagged Stone, né? O Bob Roth falou tanto de você que eu quase senti que já te conhecia. Eu sou Penny Rolling, sua nova assistente.
           Jagged piscou algumas vezes, surpreso com a recepção. Estava esperando alguém mais... genérico. Mas Penny era diferente. Cabelos castanhos em um corte undercut, óculos escuros pendurados na gola da camiseta, jaqueta de couro e tinha um estilo próprio, ela já está com uma prancheta na mão como se estivesse pronta para resolver três problemas ao mesmo tempo.
           Jagged fala ainda meio grogue da viagem.
-Certo... Penny. Nova assistente? O Bob não comentou isso antes.
          Penny sorriu com um toque de sarcasmo leve.
-Claro que não. Ele adora surpresas. Eu fui contratada ontem à noite, já revisei seu contrato, separei a agenda da próxima semana e organizei uma visita ao estúdio às 14h de amanhã. O que nos dá tempo de ir reservar um quarto no hotel e tomar um café decente antes do caos começar.
          Jagged arqueou uma sobrancelha.
-Você sempre trabalha nesse ritmo?
         Penny deu de ombros, já virando de costas.
-Essa é a versão leve. Vamos, o carro está esperando.
         Ele a seguiu, meio em choque, meio curioso. Penny não fazia rodeios. E talvez, depois de tudo que deixara para trás, isso fosse exatamente o que ele precisava. Enquanto caminhavam pelo aeroporto em direção à saída, Penny virou-se um instante.
-Ei, só pra constar. Eu sei que você é mais do tipo “caótico criativo”, então não se preocupa. Eu sei lidar com rockstars. Só não me faça procurar você em telhados de hotel ou em cada bar da cidade, e a gente vai se dar bem.
          Jagged riu pela primeira vez em dias.
-Você vai ter trabalho, Rolling.
Penny:
-Ótimo. Eu gosto de trabalho difícil.

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