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AQUILO QUE OBSERVA

O som que subia do bueiro não era exatamente uma risada.
Era… eco.
Como se algo tentasse imitar uma lembrança feliz sem jamais tê-la compreendido. Um som falho, arrastado, errado.
s/n sentiu o corpo inteiro enrijecer.
— Isso… não é você — ela murmurou.
Pennywise não respondeu de imediato. Seu olhar estava fixo na escuridão do bueiro, os músculos do rosto tensos, a expressão tomada por algo raro nele: alerta real.
— “Não,” — ele disse por fim.
— “Isso é o que veio antes.”
A tampa do bueiro tremeu.
Uma mão surgiu primeiro. Pequena demais. Pálida demais. Os dedos eram longos, finos, dobravam-se em ângulos impossíveis.
s/n deu um passo para trás instintivamente.
— Pennywise…
Ele se levantou lentamente, colocando-se à frente dela sem sequer olhar para trás. O gesto foi automático. Protetor.
— “Não deixe que te reconheça,” — ele sussurrou.
— “Se fizer isso… ele vai lembrar.”
A criatura começou a emergir, revelando um rosto que parecia incompleto — como se alguém tivesse tentado criar uma criança a partir de sombras e fracassado. Os olhos eram vazios, mas se moveram diretamente para s/n.
— Ela… voltou… — a coisa sussurrou, a voz ecoando como várias ao mesmo tempo.
s/n sentiu um aperto violento no peito.
— Do que ele está falando? — ela perguntou, a voz falhando.
Pennywise fechou as mãos em punhos.
— “Ele sente o que você é,” — respondeu.
— “Assim como eu senti.”
A criatura inclinou a cabeça, um sorriso torto se abrindo.
— Você escolheu errado — disse, apontando para Pennywise. — Ele só consome. Eu… observo.
O ar ficou pesado.
— O que você é? — s/n perguntou, reunindo coragem.
A coisa pareceu satisfeita.
— Sou o primeiro medo que te viu — respondeu.
— Antes do nome. Antes da forma.
s/n sentiu flashes atravessarem sua mente:
uma rua vazia,
a sensação de ser observada,
um frio que não vinha do vento.
— Eu… eu lembro disso — ela sussurrou.
Pennywise virou a cabeça abruptamente para ela.
— “Não,” — disse com firmeza. — “Não lembre.”
Mas era tarde.
A criatura abriu os braços, e o cenário ao redor se distorceu. A rua começou a se dobrar, transformando-se naquela mesma noite — a noite em que s/n era apenas uma criança parada perto do bueiro.
— Você me viu — a coisa continuou. — E não gritou.
s/n sentiu o corpo tremer.
— Eu não conseguia me mexer…
— Porque você sentiu curiosidade — ele respondeu. — Não só medo.
O silêncio caiu como uma lâmina.
Pennywise avançou um passo.
— “Ela era uma criança,” — rosnou.
— “Você não tinha direito.”
A criatura riu, um som seco.
— E você tinha?
O olhar de Pennywise escureceu.
— “Eu escolhi não tocá-la.”
s/n arregalou os olhos.
— O quê…?
Ele não desviou o olhar da criatura.
— “Eu te vi,” — disse, finalmente para ela.
— “E decidi esperar.”
A revelação atingiu s/n com força.
— Você… me poupou?
— “Eu esperei que você crescesse.”
A voz dele estava carregada de algo que não era orgulho — era conflito.
— “E mesmo assim… não deveria ter te trazido até aqui.”
A criatura avançou um passo.
— Ela é minha lembrança — disse. — Você a distorceu.
O chão começou a rachar.
s/n respirou fundo.
E então fez algo que ninguém ali esperava.
Ela passou por Pennywise.
— s/n! — ele chamou, tenso.
Ela ficou de frente para a criatura, o coração quase saltando pela garganta.
— Eu não sou sua lembrança — disse, com a voz trêmula, mas firme.
— Nem dele.
A criatura hesitou.
— Você sente medo — respondeu.
— Sinto — ela admitiu. — Mas não sou só isso.
O ar vibrou.
Pennywise a observava como se estivesse vendo algo impossível acontecer.
A criatura começou a recuar.
— Você não deveria ter voltado — sibilou.
s/n deu mais um passo à frente.
— Eu voltei porque quero escolher agora.
O bueiro começou a se fechar, como se a própria memória estivesse sendo apagada.
A criatura gritou — não de dor, mas de perda — e foi engolida pela escuridão.
O mundo ao redor se dissolveu.
Quando tudo parou, s/n caiu de joelhos.
Pennywise apareceu ao lado dela imediatamente, segurando seus ombros.
— “Você está bem?”
Ela assentiu, respirando com dificuldade.
— Eu… enfrentei.
Ele a encarou, profundamente.
— “Você fez o que nem eu consegui.”
O silêncio caiu entre eles.
Denso. Carregado.
— Pennywise… — ela começou. — O que acontece agora?
Ele tocou o rosto dela com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la.
— “Agora,” — disse em voz baixa, — “você não pertence mais ao passado.”
Os olhos dele brilharam suavemente.
— “E eu vou ter que aprender… o que isso significa.”
Ao longe, algo se moveu novamente.
Mas dessa vez…
Não era uma ameaça.
Era uma consequência.

.
.
.

O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era atento.
s/n ainda estava ajoelhada quando sentiu o chão vibrar levemente, como se algo — ou alguém — tivesse percebido a mudança. Pennywise continuava com as mãos em seus ombros, mas agora o toque estava diferente. Não era apenas proteção.
Era… ancoragem.
— “O lugar sentiu você,” — ele disse em voz baixa.
— “E isso nunca aconteceu antes.”
s/n levantou o rosto.
— O que eu fiz exatamente?
Pennywise não respondeu de imediato. Ele se levantou, observando o espaço ao redor. O salão azul não era mais o mesmo: o lago no centro estava mais calmo, quase transparente, e as paredes pulsavam em um ritmo mais lento.
— “Você quebrou um ciclo,” — respondeu por fim.
— “Algo que existia antes de mim… e continuaria depois.”
Ela se levantou com dificuldade.
— Então por que parece que piorou?
Antes que ele pudesse responder, vozes ecoaram.
— Tem alguém aqui.
— Eu ouvi alguma coisa!
— s/n?!
O ar ficou mais pesado instantaneamente.
Os meninos.
Pennywise virou o rosto na direção do som, os olhos brilhando com fúria contida.
— “Eles não deveriam conseguir atravessar.”
— Mas atravessaram — s/n disse. — Por minha causa?
Ele a encarou.
— “Por sua escolha.”
O chão à frente deles se abriu como uma ferida, revelando a rua de Derry — distorcida, pálida, quase morta. Três silhuetas surgiram, cautelosas, segurando lanternas que piscavam sem parar.
— s/n! — uma voz chamou, aliviada. — Graças a Deus!
Ela deu um passo à frente por reflexo.
Pennywise segurou seu braço.
— “Cuidado,” — murmurou. — “Eles não veem o que você vê agora.”
— Eu não posso simplesmente ignorar eles — s/n respondeu. — Eles vieram por mim.
— “Eles vieram pelo medo,” — ele corrigiu. — “E ele ainda está em você.”
Os meninos se aproximaram mais, até que um deles finalmente a viu.
— s/n! Sai daí! — gritou. — Ele está com você!
O olhar deles caiu sobre Pennywise.
O ambiente reagiu imediatamente: as paredes se contraíram, o chão rangeu, o lago começou a borbulhar.
— Pennywise… — s/n sussurrou. — Se eles ficarem aqui…
— “Eles morrem,” — ele disse, sem rodeios.
O coração dela disparou.
— Não!
Ela se soltou dele e deu alguns passos à frente, colocando-se entre Pennywise e os meninos.
— s/n, sai daí! — insistiram.
Ela respirou fundo.
— Vocês precisam ir embora — disse, com firmeza. — Agora.
— O quê?! — um deles respondeu. — Ele fez alguma coisa com você!
— Não — ela respondeu. — Ele não fez.
O choque nos rostos deles foi evidente.
— Você está… protegendo ele?
O silêncio se espalhou.
Pennywise observava tudo sem se mover. Pela primeira vez, ele não interferia.
Era a escolha dela.
— Vocês não pertencem a este lugar — s/n continuou. — E quanto mais tempo ficarem… pior vai ser.
O chão começou a tremer de novo, mais forte.
— s/n, a gente não vai te deixar aqui!
Ela virou o rosto por um segundo, olhando para Pennywise.
— Eles não entendem — sussurrou.
— “E nunca vão,” — ele respondeu. — “Mas isso não precisa acabar em sangue.”
Ela voltou-se para os meninos.
— Corram — disse, agora mais alto. — Antes que seja tarde.
Um dos meninos deu um passo para trás quando uma rachadura se abriu aos seus pés.
— Isso… isso não é normal.
— NÃO É — ela gritou. — VÃO!
O lugar reagiu violentamente. As lanternas explodiram em faíscas, o vento soprou de lugar nenhum, empurrando-os para trás.
— s/n! — foi a última coisa que gritaram antes de serem engolidos pela fenda que se fechou logo em seguida.
O silêncio voltou.
Pesado.
s/n sentiu as pernas falharem. Pennywise a segurou antes que ela caísse.
— “Você os salvou,” — ele disse.
Ela respirava com dificuldade.
— E agora eles vão achar que eu enlouqueci.
Ele inclinou o rosto, encarando-a de perto.
— “Agora você é algo que eles não podem explicar.”
Ela riu fraco, nervosa.
— Ótimo.
O sorriso dele surgiu lentamente — pequeno, contido, quase triste.
— “Eles vão esquecer,” — disse. — “O mundo sempre esquece o que não consegue suportar.”
Ela ficou séria.
— E eu?
Pennywise não respondeu de imediato.
O lago atrás deles começou a brilhar mais forte, revelando algo novo: não rostos, não memórias… mas possibilidades.
— “Você não vai esquecer,” — disse por fim.
— “E eu… não sei mais o que sou sem você aqui.”
s/n sentiu o peito apertar.
— Isso te assusta?
Ele assentiu, lentamente.
— “Mais do que qualquer coisa.”
O lugar começou a se transformar outra vez.
Não em ameaça.
Mas em mudança.
— Pennywise… — ela perguntou baixinho. — O que acontece comigo agora?
Ele segurou a mão dela.
— “Agora,” — disse, com a voz estranhamente calma, — “você vai decidir se volta… ou se atravessa.”
À frente deles, dois caminhos surgiram.
Um levava de volta à superfície.
O outro… mergulhava ainda mais fundo.
Ele a encarou.
— “E eu juro,” — disse, — “que não vou te puxar.”

Pennywise O Palhaço AssassinoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora