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O PREÇO DE PERMANECER

Naquela noite, s/n não sonhou.
E isso foi o primeiro sinal de que algo estava errado.
Ela acordou com o coração calmo demais, como se parte de si estivesse… distante. O quarto era o mesmo. A janela, o mesmo rangido leve. Mas o ar parecia menos denso.
Menos atento.
Ela se sentou na cama devagar.
— Pennywise? — chamou em voz baixa.
Nada.
Não havia eco.
Não havia presença lateral.
Não havia aquele peso familiar que agora ela reconhecia como companhia.
O peito apertou.
Não era medo.
Era ausência.
s/n se levantou e foi até a janela. Derry estava quieta demais para uma manhã comum. Pessoas andavam, carros passavam, mas havia algo automático nos movimentos. Como se a cidade estivesse funcionando… sem sentir.
— Eles estão esquecendo — ela murmurou.
A resposta veio atrasada, fraca, como uma voz atravessando água.
— “Não eles.”
Ela sentiu.
Virou-se lentamente.
A presença de Pennywise estava ali — mas diferente. Mais distante. Como se estivesse do outro lado de um vidro espesso.
— O que aconteceu com você? — ela perguntou, tentando manter a voz firme.
— “Eu fiquei,” — ele respondeu.
— “Então o mundo me empurrou.”
s/n sentiu um nó se formar na garganta.
— Empurrou pra onde?
Silêncio.
Depois:
— “Para mais fundo.”
Ela fechou os olhos por um instante.
— É isso o preço?
— “Parte dele.”
Ela respirou fundo, sentindo algo dentro de si se ajustar — como se tivesse que sustentar agora não só a si mesma, mas o espaço entre eles.
— Então agora sou eu que tenho que te alcançar — disse.
A presença dele oscilou.
— “Não faça isso por mim.”
Ela abriu os olhos.
— Não estou.
Ela hesitou um segundo.
— Estou fazendo porque se eu não fizer… tudo isso vira só sobrevivência. E eu não atravessei mundos pra apenas sobreviver.
O silêncio que se seguiu não foi negação.
Foi concordância cansada.
Ao sair de casa, s/n sentiu algo estranho: as ruas já não respondiam como antes. Não observavam. Não testavam.
Estavam… fechadas.
— Eles estão se defendendo — ela murmurou.
— “A cidade,” — Pennywise confirmou. — “Ela aprendeu a endurecer.”
No caminho para a escola, algo aconteceu.
Uma criança parou no meio da calçada, olhando fixamente para um bueiro fechado. Os olhos arregalados. O corpo imóvel.
s/n sentiu o impacto imediatamente.
Não medo.
Eco.
Ela se aproximou com cuidado e se agachou ao lado da criança.
— Ei — disse suavemente. — Você tá bem?
A criança piscou, como se despertasse de um transe.
— Eu… ouvi alguém me chamar — disse, confusa.
s/n sentiu o estômago revirar.
— Quem?
A criança franziu a testa.
— Não lembro.
Mas s/n lembrava.
Não como antes.
Não como ameaça.
Como resto.
— Pennywise… — ela sussurrou, levantando-se.
— “Não fui eu.”
Ela acreditou.
O problema era outro.
— Então quem foi?
A resposta veio de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo:
— Aquilo que sobra quando o medo perde o rosto.
O ar ficou pesado.
A criança correu para longe, já esquecendo.
s/n permaneceu imóvel.
— Eles estão usando sobras — disse. — Fragmentos.
— “Sim,” — Pennywise respondeu. — “E isso é mais perigoso.”
Ela sentiu algo novo dentro de si.
Não poder bruto.
Não autoridade.
Chamado.
— Então eu não sou só equilíbrio — ela disse. — Sou contenção.
— “E isso cobra,” — ele respondeu, baixo.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, havia decisão ali.
— Então chega de reagir.
O vento soprou forte pela rua.
— O que você vai fazer? — Pennywise perguntou.
Ela olhou para Derry — não como vítima, não como guardiã absoluta.
Mas como alguém que escolhe ficar.
— Vou descer — disse. — Não como antes.
— Vou descer pra fechar o que ficou aberto.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— “Se você fizer isso,” — Pennywise disse lentamente, — “vai ter que ir onde nem eu permaneço por muito tempo.”
Ela assentiu.
— Então é lá que termina — ou começa.
Um bueiro, três ruas adiante, estalou suavemente.
Aberto.
Esperando.
s/n respirou fundo.
E deu o primeiro passo.
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Pennywise O Palhaço AssassinoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora