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QUANDO A CIDADE RESPIRA DIFERENTE

Derry acordou como sempre.
Ou quase.
As pessoas saíam de casa, carros passavam, a escola abria os portões. Nada gritava perigo. Nada parecia errado o bastante para chamar atenção.
Mas s/n sentia.
Cada passo pela calçada trazia uma pressão sutil, como se a cidade testasse seu peso. Não rejeitava. Não acolhia. Observava.
— Então é assim… — ela murmurou.
Um arrepio percorreu sua nuca.
Não medo.
Antecipação.
Ao passar por uma vitrine, viu seu reflexo — o mesmo rosto, o mesmo corpo. Mas os olhos… havia algo diferente neles. Não brilho sobrenatural. Profundidade.
Ela piscou, e o reflexo piscou de volta, perfeitamente sincronizado.
— Bom sinal — disse para si mesma.
Um som seco ecoou à direita.
splash.
s/n parou.
O bueiro da esquina estava aberto.
Não escancarado. Apenas o suficiente.
O ar ali era mais frio.
Ela se aproximou devagar, sentindo aquela familiar pressão no peito — não pânico, não curiosidade cega. Atenção consciente.
— Não vou descer — disse em voz alta. — Se for falar comigo, pode subir.
Silêncio.
Por alguns segundos longos demais.
Então, uma voz ecoou — não de dentro do bueiro, mas ao redor.
— Você voltou diferente.
s/n virou lentamente.
Uma mulher estava parada do outro lado da rua. Roupas comuns. Expressão neutra. Mas os olhos… vazios demais.
— Você não é daqui — s/n disse, com certeza calma.
A mulher sorriu.
— Sou de onde você passou.
O ar pareceu se comprimir.
— Pennywise falou de vocês — s/n respondeu. — Os que não escolhem.
A mulher inclinou a cabeça.
— Ele sempre foi dramático.
s/n sentiu algo se mover dentro de si — não raiva, não medo. Limite.
— O que você quer? — perguntou.
A mulher deu alguns passos à frente. Cada passo parecia… mal encaixado na rua.
— Você não deveria existir — disse simplesmente. — Pontos de equilíbrio quebram sistemas.
— Ou impedem que eles colapsem — s/n rebateu.
A mulher parou.
Por um segundo, algo antigo atravessou seu rosto.
— Você ainda não entende o custo.
— Talvez não — s/n respondeu. — Mas eu estou aqui pra aprender. Não pra ser apagada.
O vento soprou forte entre elas. Jornais rodopiaram. Uma janela bateu.
— Ele mudou por sua causa — a entidade disse. — Isso é… inaceitável.
s/n sentiu o nome dele ecoar dentro de si, como uma presença distante, atenta.
— Ele mudou porque quis — disse. — Eu só vi.
O sorriso da mulher desapareceu.
— Ver é interferir.
— Então vocês deviam ter fechado os olhos há muito tempo — s/n respondeu, firme.
O chão vibrou levemente.
Não abriu.
Não atacou.
Respondeu.
A entidade deu um passo para trás.
— Interessante — murmurou. — Você ancora sem dominar.
s/n respirou fundo, sentindo o coração acelerar — não por medo, mas pelo peso da responsabilidade.
— Se veio me ameaçar, não funcionou — disse. — Se veio me testar… terminou.
O silêncio caiu pesado.
Então, a mulher começou a se desfazer — não em luz, não em sombra. Em irrelevância. Como alguém que deixa de ser lembrado.
Antes de desaparecer completamente, a voz ecoou uma última vez:
— Isso não acabou.
s/n assentiu lentamente.
— Eu sei.
O bueiro fechou com um som suave.
A rua voltou ao normal.
Pessoas passaram sem notar nada.
Mas algo havia sido registrado.
s/n soltou o ar que prendia.
— Primeiro teste — murmurou.
Uma presença familiar se aproximou, não fisicamente, mas como um peso conhecido ao lado dela.
— “Você foi bem,” — a voz de Pennywise ecoou em sua mente.
— “Melhor do que eu teria sido.”
Ela sorriu de canto.
— Não destrui nada.
— “E isso,” — ele respondeu, — “é exatamente o que os assusta.”
Ela continuou andando pela rua, sentindo a cidade reagir — não com medo, mas com cautela crescente.
Derry não tinha um novo monstro.
Tinha algo pior.
Alguém que escolhia.
E, à distância, algo antigo começou a se mover.
Algo que não pretendia apenas observar.
.
.
.

Pennywise O Palhaço AssassinoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora