LXIV - Sola de sapato, esmalte descascado

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Sola de sapato, esmalte descascado




Pandora não estava preparada para isso, e nem mesmo se alguém a tivesse avisado dos acasos da vida, ou mesmo das armadilhas que a esperavam, ela jamais conseguiria se preparar psicologicamente para o momento em que teria que escolher entre sua magia e Frederico.

Antes, um mês ou mais atrás, ela não hesitaria em clamar amar sua magia acima de qualquer coisa, pois aquilo fazia parte dela. Ela era sua magia e sua magia a fez ser quem ela era.

E agora, quando eu estava começando a entender...

Parecia que uma válvula de lágrimas havia sido aberta e ninguém lhe ensinou a combinação para fechá-la.

Ela estava hesitando, mas por quê?

— Não temos todo o tempo do eterno — Caronte a chamou, sem piedade.

— Eu preciso de um momento — ela pediu, limpando suas lágrimas enquanto olhava para o motivo delas: parado a sua frente estava Frederico tão desvivo quanto um boneco de cera.

Por um momento, um simples e único momento, Pandora odiou a existência de Frederico com todas as suas forças, desejando que ele simplesmente desaparecesse de sua vida, pois desde que ele havia entrado em sua história, a vida dela ficou apenas mais e mais complicada.

— Minha magia? — ela sussurrou as palavras como se aquilo fosse algo tão profano, que falar um pouco mais alto faria um raio cair em cima da cabeça dela, fazendo-a desaparecer da face da terra. Ou do próprio Inferno.

— Tua magia ou ele fica — ela conseguia ouvir a risada de Virgílio caçoando dela, vendo sua fraqueza e seu ponto fraco, pressionando-o como um sadista a espera de sua escolha, de sua miséria.

Frederico era sua fraqueza e sua magia era o ponto fraco.

— Por que eu tenho que escolher? — lágrimas mornas pingavam de seu queixo.

— Dizem que o amor é a solução de todos os problemas. Prove-me — o sussurro dele no ouvido dela apenas a deixou mais desestabilizada.

Ela virou seu rosto para ver a expressão pacífica de Frederico, pois ele não fazia ideia do que estava acontecendo — e o pior? Ele nem se importava. Jamais se importaria e ela sabia que nunca teria coragem de contar isso para ele.

Contar isso a ele? Contar que eu o amei mais do que minha magia? Contar que eu me tornei aquilo que eu mais abominei nos últimos dezoito anos por amor? Contar que eu o amo?

E, com aquele pensamento, ela soube que não havia uma escolha a ser feita.

— Diga-me, Virgílio, quantas Viajantes falharam em amar alguém mais do que elas...? — ela não conseguiu terminar a sua frase por um soluço, contudo ela não limparia suas lágrimas na frente dele. Não daria a satisfação de ele percebê-las.

— Viajantes são criaturas egoístas por natureza. Tu tens a tendência de escolher aquilo que te fará bem, não importando quantas pessoas tu derrubes no meio do caminho — ele se materializou do lado dela — tu descobrires a magia na hora certa, estares grávida, teu amado morrer... sempre foi um padrão e todas elas se escolheram.

— Então elas não os amaram — ela sussurrou, fechando sua mão em punho — elas não sentiram seus sonhos se despedaçando bem em sua frente quando eles morreram. Elas não viram que não havia vida após estar com eles e... Oh meu Deus! Ele nunca encostou um dedo em mim, Virgílio — ela se virou para o funcionário do Inferno — e eu o amo. Eu o amo com cada suspiro de minha alma amaldiçoada e não é pelo corpo — ela apontou para o manequim ao seu lado — é por quem ele é. É pelo que ele faz comigo quando eu estou com ele.

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