A chama esta vívida

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Dylan partiu já quase um dia e meio e não obtive nenhuma notícia, a única coisa que recebi foi a carta de Greta em resposta a da minha mãe sobre o nascimento de Charles.
Agora que Carrye nos contou ela estava retornando a sua vida habitual, foi a casa de Simon depois de muito tempo reclusa.
Minha mãe perguntou sobre Dylan, mas eu desconversei não querendo contar.
Agora sem saber o que fazer e temendo pelas atitudes que meu marido tomaria estava preocupada encarando nossa fotografia, desde quando partiu uma dor em meu coração se acomodou e ali estaguinou. Era persistente e eu não sabia identificar o real motivo, só pedia a Deus para que trouxesse ele de volta o mais rápido possível. Charles estava nos meus braços, sobre o divã no escritório, e eu ali encarando a fotografia na parede. Era um dia lindo, estávamos sorrindo, no jardim, tínhamos acabo de nos casar.
Por favor, Dylan, volte para casa. Chorei por tudo o que vivi e deixei de viver, com Charles nos braços me levantei e andei até o capataz que estava cuidando dos cavalos.
- Senhora Lewistown. - Ele me cumprimentou. Era um homem de meia idade, bonito, olhos castanhos, e cabelos claros.
- Boa tarde.
- Posso ajuda-la?
- Sim, vamos partir.
- Hoje senhora?
- Imediatamente.
- Sim, senhora. - Me retirei para dentro parando na cozinha onde a copeira estava mexendo no fogão.
- Por favor, me ajude à arrumar alguns baús.
- A senhora irá viajar?
- Sim. - Voltei ao meu quarto com ela, coloquei Charles sobre a cama e puxamos o baú que estava em baixo. Pegamos as roupas o mais rápido que conseguimos, objetos, dinheiro. Fomos ao quarto do bebê e preparamos um pequeno baú, quando os baús estavam prontos o capataz veio e os levou para a charrete. No meu quarto coloquei um vestido longo, azul escuro, e botas. Peguei Charles e comecei a andar para a rua, mas minha mãe estava na sala e me interrompeu.
- Freya, onde está indo? - Perguntou.
- Eu vou à Cambridge.
- Não, não pode viajar. - Ela se colocou no meu caminho.
- Estou bem, é importante. - Se ela soubesse também iria comigo.
- Mas e Carrye?
- A Sra. pode cuidar dela para mim.
- Não vai se despedir?
- Não quero que me veja saindo. - Ela se sentiria abandonada.
- Por que esta indo?
- Não posso dizer agora. Preciso ir. Adeus. - Caminhei para a rua onde o capataz me ajudou a subir e fechou a porta. Dentro da charrete lamentei por não leva-las comigo, mas não podia submeter a Carrye reviver aqueles momentos e minha mãe era a pessoa perfeita para cuidar dela. Senti o baque de quando começamos a andar, Charles que estava junto a mim abriu seus olhos e deu um sorriso, eu o abracei e inspirei o cheiro doce que emanava dele.
                                ***
Já algum tempo na charrete, Charles começou a chorar e eu o amamentei, lágrimas corriam pelas minhas bochechas após sentir uma pontada no peito como se algo tivesse se partido. Inquieta eu olhava pela janela enquanto a brisa quente entrava e, me deitei encolhida no banco com o bebê e adormecemos.
                              ***
Acordei pela manhã já em Cambridge, dentro de algumas horas estaria na fazenda. O sol entrava pela abertura da cortina, e o aroma reconhecível da cidade pacata se espalhava, o cheiro de terra molhada e floresta.
                                ***
E assim a charrete parou. Sentada no banco fiquei com medo de sair, mas o capataz abriu a porta e me ajudou a descer com o bebê no colo.
Ao pisar no chão meu coração recebeu uma fisgada, olhei ao redor e havia duas charretes na frente da casa, subi os degraus enquanto o capataz ficou para retirar os baús. Ali na varanda exitei, porém segui em frente e abri a porta, segui pelo corredor com os olhos arregalados e assustada. Ao passar pelos cômodos estavam vazios, até que a copeira me viu.
- Senhora, Freya. - Ela me cumprimentou, era uma empregada feliz nas outras vezes que estive aqui, porém agora não sorria.
- Onde estão todos?
- Na sala, me acompanhe. - Segui ela observando o local, ao chegar na sala vi Greta sentada no sofá com a Senhora Lewistown, Dylan perto da lareira.
- Com licença. - Disse a copeira e todos olharam em nossa direção.
- Freya. - Disse a senhora Ashley andando em minha direção.
- Olá, senhora. - Ela andou até mim e me beijou, passou a mão na cabeça de Charles e perguntou:
- Este é o seu filho?
- Sim. - Disse sorrido.
- Posso segura-lo?
- Claro. - Com cuidado ela tomou ele dos meus braços e voltou para o sofá.
- Greta... - Chamei, mas ela virou o rosto.
- Greta, tudo bem? - Ela me olhou, se levantou e falou:
- Não precisa mais ser minha irmã. - E saiu.
- O que houve? - Perguntei, não era um comportamento típico de quando eu vinha visitar.
- Freya... - Dylan que estava calado veio a mim e me abraçou.
- Dylan, o que aconteceu?
- Não era para você estar aqui. - Ele alisava meus cabelos.
- Precisava saber como você estava.
- Freya... -  Gaguejou.
- O que? Me conte logo. - Ele exitou em responder.
- O que? - Ele não me respondeu então me afastei.
- Dylan...
- Sinto muito.
- O que aconteceu?
- Clarkston está morto. - Falou a senhora Lewistown sem tirar os olhos do bebê, com uma serenidade surpreendente, não parecia que tinha perdido o marido.
- Querido, sinto muito. - Fiz menção de me aproximar, mas ele recuou. Eu sabia que esse era seu objetivo de princípio. Mas também sabia que fizera a coisa errada, pois se fosse o certo agora estaria se sentindo melhor.
- Não é tudo. - Disse levantando as mãos.
- O que mais?
- Eu sinto muito, ele se jogou. - Estranhei sua declaração.
- Quem?
- Eu pedi para que se afastasse, mas ele insistiu.
- Dylan... - Fiquei com medo do que fosse dizer.
- Johnathan... - O que tem ele? O que aconteceu? Por que Johnathan não estava aqui?
- O que tem ele?
- Ele se jogou na frente do tiro. - Recuei para trás até me encostar na parede com o ar faltando. Meu primeiro amor havia morrido.
- Você matou ele?! - Vociferei agressiva.
- Não, Freya. - Ele não devia ter matado Johnathan, era para somente matar Clarkston.
- Ele morreu? - Lágrimas vieram.
- Não, não morreu.
- Onde está?
- Está no seu quarto.
- Senhora Lewistown posso vê-lo?
- Claro. - Assim que recebi a permissão fui correndo, mas Dylan segurou meu braço.
- Sinto muito. - Ele falou com a voz embargada. Me soltei e voltei a andar, pelo corredor. Parei em frente a porta do seu quarto e inspirei enxugando as lágrimas e entrei, tranquei a porta assim que passei.
Johnathan estava deitado com um lençol até a cintura, uma faixa cobria um pedaço do peito e do ombro. Vagarosamente andei até a cama e me sentei em uma cadeira que havia ali perto. O quarto era iluminado por dois abajures, as cortinas fechadas.
Me inclinei para a frente e acariciei seu rosto. Então ele abriu seus olhos.
- Fre... - Pedi para que ficasse quieto e me sentei na cama pegando sua mão. Ele sorriu e eu sorri enquanto lágrimas escorriam.
- Sinto muito, Johnathan. - Pousei um beijo em sua palma.
- É verdade o que ele fez?
- Infelizmente sim.
- Sinto muito.
- Tudo bem. Fique quieto. - O meu melhor amigo, meu único amigo da minha infância e adolescência.
- Você vai melhorar, não vai?
- Não sei.
- Está com dor?
- Um pouco.
- Pensei que tivesse morrido. - Falei me engasgando com essa hipótese.
- Freya, preciso dizer que sua irmã sabe sobre o que tivemos.
- Como? - Agora sua atitude fazia sentido.
- Meu pai contou.
- Por isso ela me ignorou.
- Eu vou resolver isso.
- Está tudo bem, você deve se concentrar em melhorar. - Ele segurou minha outra mão e levou ao seu peito.
- Freya, tenho um presente para você.
- O que?
- Sua fazenda, ela sua. Agora que meu pai morreu, ela é minha e você é a melhor escolha. - Se não fosse por esse meio talvez ficasse mais feliz, mas mesmo assim fiquei radiante.
- Obrigada, muito obrigada.
- Mas as partes que já foram vendidas você terá que me ajudar a recuperar.
- Sem problemas.
- Onde está seu filho? - Sorri.
- Na sala, sua mãe esta com ele.
- Qual o nome dele?
- Charles.
- É muito bonito. - Ele sorriu e uma crise de tosse veio. Me aproximei mais da sua cabeça e peguei um copo de água que estava sobre a cômoda e o ajudei a beber, assim que acabou coloquei de volta.
- Vou cuidar de você. - Ele levantou sua mão andando pelo meu braço e me puxou, ficando próximo do meu rosto.
- Freya... pensei que não a veria novamente.
- Jamais me negaria a vir vê-lo sabendo que estava assim. - Ele segurou uma mexa de cabelo minha que estava solta e colocou atrás da minha orelha, e segurou minha cabeça.
- Eu amo você, Freya. Você me disse que não poderia me amar por quê pra você eu ja estava morto. Mas continuo te amando... Eu me casei com Greta só pra tentar esquecer você, e posso passar o resto da vida com ela, posso dizer o quanto ela é perfeita, mas ela nunca será você. - Encarei aqueles olhos que achei que minha paixão a muito ja tivesse morrido, mas que no fundo do coração estava vívida, pronta para ser acessa.
- Eu também o amo. - Ele me puxou mais e assim nossos lábios se tocaram.
Um amor que muito já estava apagado retornou, a pequena chama se tornou em uma grande fogueira que estremeceu todo o meu corpo, o arrepio que só sentia sobre o seu toque passou pela minha espinha. Agora entendia como Johnathan não parou de amar, no fundo eu sabia que não havia parado de ama-lo, somente tinha mascarado esse maravilhoso sentimento.
As lembranças de uma época que jamais voltariam passaram pela minha cabeça, as borboletas no estômago retornaram como em minha adolescência. Seus braços fortes que não perderam a leveza e a maciez que me faziam sentir a tranquilidade e conforto ainda eram os mesmos. Onde ele me tocava era como se minha pele estivesse aquecendo, era um formigamento. O beijo quente e prazeroso que somente ele me proporcionava estava junto com o meu coração gritando por mais, mas minha cabeça ainda sabia que eu era uma mulher casada. Então recuei.

Freya & JohnathanHistórias para pegar e não largar. Descubra agora