LITERATURA CRISTÃ | TRILOGIA "ATÉ" Livro 2
"Uma das maiores verdades sobre o amor que eu provei e conheci é que ele é uma escolha."
As vidas de Maya e Caleb se cruzaram uma vez e o resultado não foi bom. Por causa dele, ela saiu da cidade com o cora...
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CALEB
O cheiro forte de café entrou pelas frestas das venezianas da biblioteca. Desde que chegara, Karen remexia de um lado para outro naquela cozinha e sempre trazia um bolo no final do dia para mim. Eu não gostava de bolo; ela sabia e, por isso, trazia. Mesmo assim, eu ainda conseguia lidar melhor com minha cunhada do que com meu meio-irmão. Karen vinha e me dava conselhos dos quais eu fazia pouco caso, mas pelo menos ela era uma boa companhia. O Caio, porém, era como uma cópia do papai; eu achava isso terrível. Todas as vezes que o via, parecia estar revivendo o passado... as brigas entre ele e a mamãe, as mentiras, as máscaras... Tudo isso me trazia um sentimento ruim. Obviamente, mamãe também não era nem um pouco fácil de lidar, mas não me restaram muitas lembranças vivas dela.
O embriãozinho que Karen e Caio geraram me enchia o saco, mas trazia uma agitação para aquela casa mórbida. Não estava sendo tão ruim hospedá-los por alguns dias. Eu sabia que eles não tinham vindo resolver nada na cidade e, sim, me vigiar para garantir que eu não atentaria contra minha própria vida de novo.
— Posso entrar? — ouvi as batidas na porta encostada. Pensei em fingir estar dormindo na poltrona para não ter que interagir, mas não deu tempo, pois meu irmão abriu a porta mais rápido do que eu cogitara. Levi veio atrás dele.
— Tio, toca aqui — o moleque veio em minha direção, com a mão estendida, pronto para me pregar uma peça.
— Deixa que eu toco só — enganei-o, fingindo que ia tocar, mas acabei gesticulando um violão a ser tocado.
— Vou mexer nos seus livros — ele me ameaçou, querendo me tirar do sério. Muito atribulada essa criança, pensei.
— Se quiser ganhar uns tabefes, pode ir — avisei. Caio riu.
— Ele dá mesmo — o pai garantiu ao filho travesso. O menino pensou e pensou e acabou saindo do cômodo sem aprontar suas traquinagens. Foi inteligente.
Depois disso, meti minha cara de volta nas páginas que estava lendo antes de ser interrompido.
— Prefere mesmo um livro do que uma companhia, irmão?
Olhei-o de sobrancelhas erguidas.
— Quer que eu seja sincero?
Caio riu. Risada idêntica à do nosso progenitor.
— Seria legal se a gente tivesse crescido junto.
Caio era fruto da infidelidade do meu pai, no início do casamento. Ele era um dos motivos principais das brigas em minha casa; todos os dias, sem exceção, eles se esgoelavam sobre o mesmo assunto. Meu pai mandava sua pensão e minha mãe detestava isso, de modo que, toda vez que eles falavam sobre dinheiro, ela soltava piadinhas, trazendo à tona sua traição. Mas o que mais me angustiava, de verdade, era que fora de casa eles mantinham a aparência de uma família perfeita; na igreja, por exemplo, ninguém poderia saber que nosso lar era repleto de problemas. Eu era incentivado a não comentar nada com ninguém e apenas a ser um menino bonzinho.
— Claro. Minha vida teria sido um inferno maior. — Sibilei.
— Quis dizer em outras circunstâncias, irmão... — ele tentou consertar.
— Quer ficar por aqui mesmo? Posso te deixar à vontade — sugeri, nem um pouco amistoso.
Caio puxou uma cadeira, com o semblante contrariado, e sentou-se.
— Só tenho uma pergunta e depois te deixarei em paz.
Eu assenti.
— Quem era aquela moça de dias atrás?
Droga. Lembrei-me que agora eles conheciam a Maya e isso dificultaria ainda mais que eu pudesse esquecê-la em paz.
Olhei para a parede sobre a qual eu havia feito o desenho do rosto dela. Aliviei-me em perceber que tinha tapado o tal com um tecido. Vi também, sobre minha mesa de estudos, a Bíblia desgastada que ela havia esquecido na sacada da mansão.
— Apenas uma garota.
— Mas ela foi sua noiva.
Meu corpo enrijeceu e minha respiração ficou irregular. Claro que ele estava me fazendo uma pergunta da qual já sabia a resposta.
— Nem por isso precisa ser especial.
Ele semicerrou os olhos, certamente desconfiando das minhas palavras.
— Se ela voltar, podemos recebê-la?
Lembrei da nossa última conversa e senti um leve remorso por não tê-la ajudado a se reerguer ou avisado com mais clareza. Maya pareceu ter machucado feio o tornozelo.
— Ela não vai voltar — engoli em seco, com tal afirmação.
Eu sabia que tinha executado com maestria o meu objetivo e que não a veria tão cedo. Afastá-la para o mais longe possível era a minha forma de manter segura a pessoa que mais magoei na vida.
— E você fez duas perguntas. Cota esgotada.
Caio suspirou, dando-se por vencido. Logo, ergueu-se e me estendeu sua mão, para que trocássemos um aperto.
— Não construa um muro tão alto ao seu redor, irmão. Ao fazer isso, não é só você quem sofre.
E, depois de mais esse sermão, eu fiquei sozinho como sempre.