MAYA
Cápsula do tempo
Era feriado nacional e, numa tradição de família, fomos visitar meus avós paternos na capital. Kevin ficou tomando de conta da clínica, mas me fez garantir que eu mandaria aos seus pais de criação um grande e caloroso abraço.
Mary estava apreensiva, pois ainda não tinha contado nada sobre sua gravidez; falei para ela que aquele poderia ser um bom momento, mas deixei-a em paz para decidir. Eu, todavia, continuava com o coração na mão. Tinha medo do pai da criança não querer assumi-la, tinha medo dos olhares que Mary receberia, tinha medo também da reação da mami... Estava aflita, óbvio que não como minha irmã, mas ainda assim, angustiada. Por um lado, eu também me culpava por não ter admoestado aquelas idas e vindas das minhas irmãs... talvez eu tivesse impedido alguma coisa.
Quanto ao que Caleb me revelara, eu estava em paz. No entanto, Mel me importunava desde que eu contara para todas elas:
— Como conseguiu ouvi-lo sem querer cobri-lo de tapas? — ela parecia impassível, olhando a paisagem pela janela do carro. — Eu não engoliria essas desculpas nunca!
— Mana... — encostei meu rosto em seu braço. — Ele foi sincero. Seria pior se tivesse mentido.
— Melissa, a verdade sempre é preferível. Principalmente quando estamos falando de um trauma; como alguém pode se curar com um remédio falso? — Mamãe conseguiu expressar sua opinião, mesmo atenta ao trânsito lotado.
— O que acha? — minha irmã mais velha notou o silêncio da outra.
Mary deu de ombros.
— Acho que eles são maduros o suficiente para esquecerem isso. — ela segurou em minha mão e sorriu. — Eu não seria... — e riu. Mel e ela bateram as mãos, concordando entre si.
Chegando lá, fomos recebidas com muito carinho pelo vovô José, que vestia sua camisa de sempre abotoada apenas até o quarto botão para refrescar e entrar um ventinho, segundo ele. O aroma tentador das iguarias da vovó Martina também chamou atenção assim que entramos na casa.
— A abelhinha voltou ao seu jardim... — Mel me anunciou sarcasticamente, quando fui abraçada por nosso avô. Mami lançou-lhe um olhar de repreensão e eu só ri.
— Estava com saudades mesmo dessa menina.
— Só dela vô Zé? — Mary ficou emburrada de braços cruzados.
— Não, minha filha, venha cá — e puxou a bichinha para um abraço.
Fui correndo até a cozinha, guiada pelo cheiro inesquecível dos bolinhos de chuva. Lá estava ela, numa pose de chef, experimentando sua comida. Eu sabia que papai tinha tanto apreço por gastronomia por influência de sua mãe. Cutuquei-a. Ela se virou e eu pude contemplar seu semblante assustado a se transformar em um vibrante sorriso.
Vovó Martina carregava olhos brilhantes como estrelas, os quais transmitiam uma alegria genuína pela vida. Seu cabelo, uma mistura prateada de fios finos, era bem penteado e ela sempre amarrava um lenço colorido ao redor da cabeça, dando-lhe um toque de elegância adorável.
— Minha querida Maya, parecia que eu não te via há um eternidade! — ela agarrou-me e não me soltou mais, enquanto íamos até a sala de estar.
— Foram menos de 4 meses, vozinha.
— Uma eternidade — repetiu.
Organizamos nossas malas num quartinho só, já que íamos ficar apenas por dois dias. Minhas irmãs, mamãe e eu sabíamos em qualquer canto que nos colocássemos. Dormíamos grudadinhas sem problema nenhum.
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Até que te amei
SpiritualLITERATURA CRISTÃ | TRILOGIA "ATÉ" Livro 2 "Uma das maiores verdades sobre o amor que eu provei e conheci é que ele é uma escolha." As vidas de Maya e Caleb se cruzaram uma vez e o resultado não foi bom. Por causa dele, ela saiu da cidade com o cora...
