Capítulo 4

1.6K 222 18
                                        

CALEB

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

CALEB

Minha cabeça doía quase todos os dias. Às vezes eram latejos, em outras uma dor contínua. O resto do meu corpo também trazia sequelas do acidente, mas apenas na forma de cicatrizes. O pior de tudo era que nenhum sofrimento físico parecia tomar o lugar da agonia que pairava em minha mente.

Eu sentia que estava prestes a enlouquecer.

Sem nenhum ânimo, me levantei da cama e fui até o banheiro tomar um banho. Até aquela atividade simples me demandava um esforço redobrado, visto que há tempos eu não via motivação alguma para nada na vida. Ao passar pela entrada do cômodo, virei o rosto e contemplei o espelho manchado. Observei-me bem. Várias marcas de feridas visíveis preenchiam a pele parda, desde uma extremidade à outra do rosto. O acidente tinha acabado com uma das únicas coisas que me sobraram: minha vaidade.

Dei um soco no espelho e vi os cacos distribuírem-se pelo chão, além do sangue que escorreu entre meus dedos.

Entrei no box e sentei-me no chão úmido, enquanto um pingo de água do chuveiro, descompassadamente, caía sobre a minha cabeça. Fechei os olhos por um instante e relembrei-me do dia em que eu pensei que conseguiria mandar toda dor da minha alma ir embora.

***

Encaixei a chave para ligar o carro. Ouvi o motor começar a trabalhar e usei esse tempo para pensar seriamente no que estava prestes a fazer. Eu não conseguia achar outra maneira de lidar com a culpa que pesava em meus ombros. Pedir perdão a quem magoei não adiantaria de nada se eu mesmo não conseguisse me perdoar.

Como curar uma ferida aberta? O tempo passou e ela nunca cicatrizou. Não ia curar. Eu não iria conseguir conviver mais um segundo sequer com aquela dor.

Por isso, criei coragem e apertei o botão para a porta da garagem abrir. Dando ré, retirei-me da minha casa e, decidido, dirigi a todo vapor pela cidade de Porto do Céu na intenção de dar um fim à minha história.

***

— Por que você não me deixou morrer? — Abri os olhos. Olhei para o teto do banheiro com o intuito de fitar o céu e, de certa maneira, encarar o ser supremo que lá morava. Queria uma resposta de alguém que eu sabia que existia, mas nunca se manifestou a mim. Receberia o silêncio como sempre.

Eu não era digno mesmo. Nem tinha porque continuar tentando chamar sua atenção. Ele parecia inalcançável.

Respirei fundo. O banho ficaria para depois; levantei-me e somente higienizei o punho machucado. Queria evitar motivos para mais visitas da enfermeira interesseira do hospital.

Depois disso, subi às escadas e fui até minha biblioteca particular. Ali eu passava o maior tempo do meu dia à procura de respostas para tudo aquilo que eu contestava. Com um acervo de quase mil livros, dos quais mais da metade eram bíblias com todas as linguagens possíveis e diversas obras teológicas, eu estudava página por página sem pressa alguma, incansavelmente. Era a minha forma de ter as respostas que não me eram dadas.

Joguei-me sobre uma poltrona antiga encostada à primeira prateleira e, absorto, fitei a parede vazia adiante de mim. As manchas aleatórias nela, juntamente da minha mania de ver traços em todos os lugares, por ter o hábito de desenhar, me trouxeram à memória uma imagem. De uma garota.

Parecia que ela estava ali em minha frente. Os olhos doces, a expressão facial gentil, o cabelo trançado...

Perdi o ar.

Fiquei enraivecido. Não podia pensar em Maya. Não devia. Não.

Queria que ela nunca tivesse voltado. Devia ter dito isso no dia em que ela veio aqui.

***

Um estrondo me desconcentrou; alguma coisa tinha acontecido no meu jardim. Levantei depressa e direcionei-me à sala de estar, na tentativa de entender de onde vinha o barulho. Através da porta de vidro da entrada, contemplei, de longe, a sombra de uma figura feminina. Me aproximei da porta e fui mal-humorado o suficiente para afastar quem quer que lá estivesse .

Quem está aí?!

Porém, fiquei impressionado com a voz dócil de uma moça. Aquele timbre me era familiar, mas não era possível. Não podia ser dela...

Foi nesse dado momento que Maya se aproximou e eu me esquivei. Afastei-me da porta. Mandei-a embora. Não podia me aproximar de novo. Nunca mais.

***

Abri os olhos e suspirei, fatigado. Parecia que eu estava delirando a cada lembrança que me vinha à mente. Para liberar aquela sensação horrorosa, peguei um lápis qualquer por ali e fui até a parede manchada na intenção de tirar a imagem daquela garota da minha cabeça.

Comecei a rabiscar seus olhos arredondados, colocando cada cílio em seu devido lugar; o nariz levemente empinado, que lhe conferia um ar de graciosidade; a boca com um sorriso de canto à canto e uma leve curvinha no lábio inferior. Por fim, as orelhas quase sumiram debaixo dos cabelos volumosos contidos pelas tranças.

Olhei o esboço de longe, um pouco mais aliviado. Tudo pareceu mais leve. E eu tinha ganhado uma nova arte para a decoração.

Até que te ameiOnde histórias criam vida. Descubra agora