Pressentimento

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-Hélio é sério, juro que se me ligar novamente nem te atendo.- escutei pelo celular a ameaça de Bia.

-Se não atender irei correndo- rebati.

Estava no quartel, hoje voltaria a minha rotina de plantões, após muita insistência e algumas desavenças com Beatriz, minha vontade era de ficar trancado com ela em meu apartamento me certificando de sua segurança, a sensação de impotência e o pressentimento de que algo estava errado não me abandonava, principalmente hoje.

-Estamos à duas semanas sem ameaças, nada de preocupante aconteceu sem contar os dois brutamontes que você colocou pra me vigiar, sério estamos bem, se concentre no trabalho se algo acontecer te aviso, pare de exagero, tchau.- olhei incrédulo pro celular ao ver que ela desligou na minha cara, Bia não poderia entender o quanto as coisas estavam preocupantes ultimamente.

Claro que não entenderia, eu não estava sendo sincero com ela, tentava buscar algum alívio sabendo que não estava mentindo, apenas omitindo o necessário para a segurança dela e de meu filho.

Filho...não sei se existe um instinto paterno, mas se existir ele está apontando que eu seria um pai de um garotão.

Antes que conhecer Beatriz nunca tinha pensado na ideia de ser pai, nem mesmo de ter algo realmente sério com alguém, o medo de amar e a vida me tirar esse amor batia constantemente em minha porta, então por muitas vezes ficar sozinho era a atitude mais segura.

Pensava isso antes da minha vizinha furação esbarrar em minhas coisas e cair em cheio no meu coração.

E com isso as responsabilidades aumentaram, durante a minha infância cresci vendo o tratamento que mamão recebia de papai.

Mesmo no século XXI ela ainda era uma rainha, mesmo com a criação um pouco tradicional, minha mãe nunca perdeu sua autonomia e não era segredo para ninguém o quão apaixonado ele era por ela. Eu pretendia ser para meu filho o pai que o meu foi, e que ele sinta tanto orgulho quanto eu.

-Hey Hélio, você está com a cara mais feia que o normal.

-Muito obrigado Hulk, assim você só me ajuda.

-Sério irmão, estou agoniado de te ver assim, as coisas ficarão bem e pegaremos o lixo que está causando tanta dor de cabeça para vocês.

-A questão é quando, já não sei o que fazer e onde procurar, Beatriz está cada dia mais desconfiada de que eu possa estar escondendo algo.

-E não é pra menos né, talvez seja melhor você dizer e…

-Não posso Lucas, a imagem dela perturbada após a ameaça não me abandona e farei de tudo para que nunca fique daquele jeito de novo.

A verdade é que as ameaças começaram desde a morte do meu tio.  Em uma das vezes que busquei as nossas correspondências havia uma sem remetente, na qual havia apenas um bilhete a mandando se afastar de mim, sem contar as inúmeras vezes que seu telefone fixo tocava durante a noite e eu atendia apenas para escutar um chiado, tenho a certeza que a pessoa por trás estava esperando o momento de Bia atender, graças ao seu sono pesado, isso nunca aconteceu.

E temendo por ela, logo acionei o detetive Sérgio e tratei de colocar um segurança, mesmo sem ela saber. A realidade é que eu estava ficando obcecado por seu bem estar e mesmo que isso deixasse ela extremamente zangada comigo, continuaria a mantendo bem, custe o que custar.

-Tudo bem amigo, eu provavelmente faria o mesmo com Renata e provavelmente seria capado se descobrisse minha omissão.- ele arregalou os olhos e tampou suas partes fazendo piada, impossível estar perto dele e não rir. – E sobre a casa, vai contar pra ela?

-Sim, pelo menos uma notícia boa no meio de tudo isso, esperarei que fique tudo pronto, antes de fazer a surpresa.- sorri imaginando nossa casa.

Não daria para ficar no meu apartamento e nem no dia Bia quando o bebê nascer, quero que meu filho tenha todo o conforto possível em um lar para chamar de nosso.

Então com a ajuda de Zé, tratamos de correr atrás de uma espaçosa casa e conseguimos.

Só espero que seja do agrado de Bia e que ela não crie caso por conta desse segredinho.

-Pelo tanto que está gastando com a reforma, até eu gostaria de mudar pra lá, se quiser me adotar aceito.

-Hhahahaah! Crie vergonha nessa cara Lucas.

-O comandante está chamando todos para o treinamento.- um dos nossos colegas avisou.

A cada 3 meses, fazíamos no quartel um treinamento onde buscávamos inovar nossas técnicas.

Olhei novamente para meu celular, vendo que não havia se passado nem 10 min do telefonema e querendo falar novamente com ela, meu peito se apertando conforme o tempo passava, o pressentimento aumentando cada vez mais, me causando dor de cabeça e frio na barriga.

Cansado, irritado e preocupado corri até o alojamento em busca do meu celular.

Era noite, quase 3 horas haviam passado desde o treino, sorri ao ver uma mensagem de Bia de hrs antes.

‘’Obrigada por ter mandado o lanche, estávamos mesmo famintos, bjos <3 ’’

Lanche? Eu não mandei nada. Estranhando aquilo, tentei ligar para ela, o celular apenas chamava até cair. Inferno, pensei quando escutei o som do alerta indicando uma emergência.

No caminho tentaria ligar novamente.

Eu e os outros colegas corremos para o caminhão que já estava em movimento a caminho do incêndio.

Durante a minha fase de treinamento antes de ser aceito, nós aprendíamos que mesmo querendo salvar a tudo e a todos, também era necessário ser racional e buscar nossa segurança, de nada adiantaria agir impulsivamente e arriscar ainda mais a nós e a equipe.

Há anos eu seguia isso a risco, há anos eu tenho obtido resgates satisfatórios e salvando vidas, sem nenhum tipo de incidente mais grave comigo, há anos eu agia racionalmente no trabalho, o que me levou a chegar em um alto cargo em pouco tempo... mas eu soube que todo o esforço e progresso de anos, acabou ali, quando o caminhão estacionou na frente do meu prédio, não precisei de muito para ver de onde vinha a fumaça.

Naquele momento entendi as sensações que senti durante o dia, entendi o meu pressentimento.

Ignorei os gritos de Lucas, ignorei os protocolos, sentia meu coração saltando do peito, minhas pernas corriam numa velocidade nunca alcançada antes.

Sentia a adrenalina correndo em minhas veias, meu único pensamento era alcançar Bia, e por Deus, que nada de pior tenha acontecido.

Por quantas tragédias um ser humano é capaz de aguentar antes de sucumbir ao desespero? Por quantas vezes somos capazes de se reerguer após uma grande perda? Eu tive uma grande dose de despedidas em minha vida e sabia que se algo acontecesse a ela, dessa vez eu não suportaria.

Tive a certeza de que meu coração parou no momento em que a vi caída no chão do quarto. Eu nem sequer soube como passe em meio ao fogo e fumaça, só sabia que precisava tirá-la dali.

Medo, angustia, me sufocavam enquanto eu me aproximava dela. Por favor meu Deus, que ela esteja viva, por favor... eu suplicava em pensamento, me abaixei ao seu lado e sentido sua pulsação. Fraca, mas viva. As lágrimas desciam por meu rosto quando a peguei em meus braços e tentei a tirar dali o mais rápido possível.

-Héelioooo.- escutei baixinho seu clamor por mim, mas vi que não passava de um delírio pois seus olhos continuavam fechados.

E então duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

Ao alcançar a batente da porta vi Lucas correndo em minha direção, seu olhar de puro temor, sua boca emitiu alguma palavra que meus ouvidos não puderam entender, seus gestos apontaram para algo por cima de mim.

Não deu tempo de ver, só senti a pancada forte de algo caindo direto em minha cabeça, me amolecendo instantaneamente e só deu tempo de ver Lucas tomando Beatriz de meus braços antes de cair e tudo desaparecer ao meu redor.

Meu Vizinho BombeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora