Capítulo Vinte e Dois - Cai o pano

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      Chegando na loja de departamentos, vou para a sessão de roupas básicas do dia a dia, apesar de estarmos aqui para comprar vestidos de festas por causa do aniversário de 85 anos da vovó Mafalda. Pego em uma calça jeans da promoção de malha grosseira, mas com uma costura boa, contudo logo a largo e me agrado de outra com o dobro do valor. Não penso duas vezes antes de colocar a peça na cestinha já que minha carteira está recheada de dinheiro da última venda de Ecstasy.
— Mas o que você está fazendo aí escolhendo calças? — questiona minha mãe aparecendo atrás de mim. Ela está com varias roupas de festa nos braços e já sei que são todas para minha pessoa. — Tá pensando que eu vou deixar você ir ao aniversário da mamãe vestindo jeans?
Recuo instantaneamente para longe da peça e ponho as mãos entrelaçadas atrás das costas, abrindo um sorriso amarelo.
— Mas tá na promoção. — justifico.
Minha mãe se aproxima da arara de roupas e confere o preço da etiqueta da calça que me interessou, sua testa franze e ela solta a calça como se ela queimasse sua mão.
— Essas calças aqui não estão na promoção coisa nenhuma. Elas são caríssimas. E você não precisa de calça nenhuma porque já tem várias, aliás até parece que essa é a única roupa que você tem no seu guarda roupa. Tá na hora de comprar umas sainhas, uns vestidinhos e mostrar essas pernas bonitas que você tem.
Incomodada, olho para os lados para ver se ninguém ouviu seu comentário.
— Calça jeans é uma roupa muito confortável e eu não gosto de usar saias porque quando eu sento fico com a impressão de que tá aparecendo meus fundos. — respondo.
— Não seja besta. — ela pega meu ombro e me leva até o provador — aproveite enquanto suas pernas não são cheias de celulite ou varizes como as minhas. Quem dera eu ter o seu corpinho de 16 anos, eu nunca usaria calças. Agora pega esses vestidos aqui e prova, que eu vou buscar outros. — ela me solta e me entrega os vestidos — Essa loja já vendeu roupas mais bonitas e mais baratas, agora é difícil achar alguma coisa que preste com um preço bom.
Seguro a montanha de roupas desajeitadamente enquanto ela se afasta. Essa é a minha mãe, com ou sem dinheiro, ela sempre reclama do preço das coisas e tem esse mal hábito de ser um pouco mão de vaca. É um tanto desgastante e irritante sair com ela para comprar alguma coisa porque geralmente rodamos horas pelas lojas analisando os preços e provando as coisas, mas no final ela muda de ideia e acaba não levando nada. Por isso desisti de sair com ela todas as vezes em que resolve comprar alguma coisa. A menos que seja algo estritamente necessário, prefiro ficar em casa e não perder meu tempo.
Ao entrar no provador, penduro num gancho o cartão da loja, aonde há um sete bem grande escrito em azul e as roupas em outros dois. Rapidamente me dispo e provo as roupas que minha mãe me entregou. Algumas peças acabam ficando grandes, outras apertadas, algumas curtas demais, e outras bastante decotadas e decido que não gosto de nenhuma no fim das contas.
Por um momento, pensando no que minha mãe disse sobre minhas pernas serem bonitas, paro e analiso meu corpo só de calcinha e sutiã no espelho. Não é exatamente esbelto, a ponto de dar inveja em garotas ou fazer os rapazes babarem. Eu tenho algumas marquinhas finas de estrias despontando na minha pele lisa interna entre as coxas e algumas gordurinhas sobrando na barriga. Até aí tudo bem para uma menina da minha idade que não faz academia como as da escola ou não faz nada na vida além de comer, se não fosse pelas pequenas letrinhas grafadas recentemente na lateral esquerda do meu quadril. 
     Ainda lembro da dor de sentir a agulha perfurando minha pele no dia em que perdi temporariamente minha insanidade e resolvi grafar essa marca permanente no corpo. Não que tenha ficado feio, ou chamativo, mas não parece eu. É estranho, e ainda não me acostumei, não parece certo te-la ali. As vezes quando estou tomando banho, esfrego tanto a minha pele para que ela saia com água e sabão como se fosse uma daquelas tatuagens de chiclete da Barbie até que fique muito vermelho e ardido, e então eu me dou conta de que ela não sai. Nunca mais ela vai sair e sempre vai estar ali, me lembrando dessa decisão estupida que tive de me tatuar aos 16 anos por influência, de fabricar Ecstasy, de vender respostas da prova, de fazer coisas erradas e viver constantemente atormentada pela duvida de que se fazer tudo isso realmente vale a pena.
    Além de Natasha e de Malcon, ninguém mais sabe que fiz essa tatuagem. Nas últimas semanas tenho tomado muito cuidado para não deixar que ninguém mais veja, principalmente meus pais. Se eles descobrissem, isso seria mais um grande problema para mim, e de problemas minha já vida está saturada com corpo de fundo.
Passo o polegar suavemente sobre ela, sentindo a minúscula elevação que ela deixou na pele. Suspiro, inconsolável.
Quando estou pendurando o último vestido no gancho da parede, ouço uma voz familiar me chamar pelo outro lado.
— Liz, escolhi outros vestidos pra você. Algum dos que eu peguei deu certo?
— Não, mãe. — digo alarmada pela possibilidade de ela entrar e ver o que estou tentando esconder há dias. Mas antes que eu possa alcançar minhas roupas jogadas no banquinho, ela irrompe na cabine. — Mãe! — falo aflita tentando inutilmente me cobrir com as mãos . — eu tô trocando de roupa!
— Deixa disso menina, o que eu tenho você também t...— subitamente ela para. Congela, estática. As palavras não ditas morrem em sua boca e pelo olhar que ela me lança eu sei que ela viu. Acho que é agora que vou morrer.
Não demora muito tempo até que sua expressão passe de surpresa, para confusão e fúria.
— Elize Reynolds! — ela grita sem se importar em controlar o tom de voz e deixa cair todas as roupas em seus braços no chão — O que é isso na sua barriga?!
— Não é isso o que você tá pensando! — tento me explicar e quase acrescento que não é na barriga e sim no quadril. Quase.
— Isso é uma tatuagem! — acusa — Você fez uma tatuagem, sua filha da mãe!
Me encolho no canto da parede antes que ela resolva me atingir com um tapa. Eu já sou bem grandinha para receber esse tipo de punição, mas talvez ela queira relembrar os velhos tempos — como se isso fosse resolver o problema e magicamente fazer a tatuagem sumir de mim.
— Mãe, fala baixo. Pelo amor de Deus. — imploro. Aqui não. Aqui não.
— Cala essa boca! Eu ainda não tô acreditando que você maculou o seu corpo desse jeito!
— Eu fiz uma tatuagem sim, mas é de Henna. — minto — vai sair depois.
Mas ela não se deixar enganar. Minha mãe tem o dom de farejar mentiras de longe.
— Sua garota burra! Eu aposto que foi aquela menina estranha que te disse pra fazer isso, não foi? Eu sabia que ela era uma má influencia pra você. Eu te avisei!
Inevitavelmente, a menção a minha amiga como 'garota estranha' me enche de raiva. A fúria toma conta de mim e tomo coragem para rebater.
— Essa garota tem um nome e se chama Natasha! — desencosto da parede que me sustentou como um ratinho encurralado e dou um passo a frente, me aproximando do gato faminto — E não foi culpa dela. Eu decidi fazer isso, foi minha escolha. E o corpo é meu, então eu faço o que eu quiser. — esbravejo.
Ela estende a mão para cima, e pressentindo um tapa me encolho e ponho as mãos a frente do corpo a fim de evitar ser atingida. Mas, surpreendentemente, ele não vem.
A cabine apertada fica imersa em silêncio e pura raiva estala no ar.
— Senhoras — ouvimos uma voz feminina chamar do lado de fora — está tudo bem por aí? Vocês precisam de ajuda?
Ninguém responde à funcionária. Ao invés disso, eu abaixo os braços e nós nos encaramos. Sua mão permanece estática sobre a cabeça como se estivesse presa por alguma força invisível. Seu rosto está vermelho como um tomate e ela arfa efusivamente. Em seguida, ela começa a descer o membro devagar, se recompondo. Passa as mãos sobre o rosto e depois sobre os cabelos, ajeitando-os e depois se abaixa pegando as roupas no chão. Não digo nada. Não ouso. Prendo a respiração.
Ao terminar de apanhar a última peça de roupa, ela se levanta. E olha pra mim. Me lança um olhar horrível de pura magoa e decepção que me atinge como um soco. O soco que eu não levei e que teria doído bem menos que isso.
— Você tem razão — ela fala por fim — o corpo é seu, a vida é sua, então faça o que quiser. Só depois não venha chorando pra mim.
Dito isso, ela se vai. Deixando me ali, imóvel, desmascarada, exposta, nua, com a alma e o coração despedaçados.
O pesadelo começou.

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