Capítulo Dezessete - Um significado insignificante

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Nunca vi tanto dinheiro na minha vida.

Depois de algumas semanas produzindo e vendendo nossas 'balas', o retorno de todo nosso 'empreendendorismo' veio rápido e bastante lucrativo no final das contas. Olhando agora para o maço de dinheiro em minha mão, com nada menos que 5 mil verdinhas, — como diria Natasha — meus olhos brilham de felicidade, mas por dentro sinto uma incômoda sensação de receio e temor.

— Como vamos gastar tudo isso sem levantar suspeitas? — pergunto a minha amiga que está sentada no sofá de couro surrado do studio de tatuagem de Malcon. A nossas aulas acabaram a pouco tempo, e logo depois resolvemos nos reunir no lugar para dividirmos todo o dinheiro ganho ao longo daquela semana.

— Sei lá. Nem estou pensando nisso. Só estou pensando em como vou gastar essas belezuras. — ela dá uma tragada no cigarro e expele a fumaça devagar — Acho que vou comprar um carro.

— Nat, você não pode aparecer na escola, do nada, com um carro. As pessoas vão se perguntar da onde você tirou ele, sendo que você mal tinha dinheiro para  pagar a passagem do ônibus. — alego enquanto guardo o dinheiro no bolso da frente da mochila.

— A pirralha têm razão — concorda Malcon. — eu pelo menos tenho meu studio de tatuagem como fachada, mas e vocês?

Vejo o homem contando o maço de dinheiro de cédula em cédula, sendo que em eventuais vezes, ele lambe as pontas dos dedos a fim de passar para a nota seguinte. Não reprimo uma careta de nojo quando lembro dos incontáveis germes que ele deve estar ingerindo.

— Tá vendo? — digo a ela e depois a Malcon — e não me chame de pirralha.

— Ah, tanto faz vou pensar nisso depois.

Bufo de frustração.

— Valeu galera, mas tenho que ir antes que minha mãe fique preocupada. Ela anda desconfiada com meus sumiços. — informo me levantando e ponto a alça da bolsa no ombro.

— Por que tão cedo? — questiona a garota — Senta aí. Vamos comemorar. Estamos recebendo nossa primeira grana. Isso pede uma festa. — ela se levanta e puxa meu braço sem ser bruta e quando fala sinto o cheiro desagradável de cigarro em seu hálito — Já sei o que vamos fazer pra marcar esse momento.

— Ah, não, Nat. Você sabe que não gosto de festas. E eu realmente preciso ir para casa.

— Malcon — ela chama — prepara sua pistola aí. E onde é que tá o catálogo de imagens? A gente vai fazer uma tatuagem.

— O que?! Você vai, eu não. Se minha mãe souber vai me matar. — argumento.

Ela se vira de frente pra mim para parecer intimidante, olhando nos meus olhos. Também faz beicinho e põe as mãos sobre os meus ombros.

—  Qual é? Vai ser bem pequenininha, ela nem vai notar. Você faz em um lugar escondido.

— Mas... é uma marca permanente. E se eu me arrepender?

— Dã. Mas é claro que é permanente, essa é a graça. E encare ela uma uma nova fase da sua vida, rebelde e independente. Os gatos vão pirar quando verem a sua tatuagem. Vai ser muito irado e sexy. — ela comenta com um risinho malicioso.

— Não acho que é uma boa ideia...

— Você também não achava que produzir Ecstasy era uma boa ideia antes, mas mudou de ideia. E se arrependeu? Não. Então pronto.
Ela segura meu braço e me puxa para a maca ao atravessar a cortina de miçangas.

— Natasha...

— Para de ser mole. Vai amarelar só por causa de uma agulha? Porque usar a desculpa que a mamãezinha não deixa não cola e é coisa de criança covarde.

Me desvencilho de seu aperto com um puxão. Ela me olha surpresa.

— Não sou covarde. — afirmo.

— Será? — Ela levanta uma das mãos num gesto de dúvida.

Então se trata disso, fui desafiada a mostrar se sou corajosa o suficiente a me rebelar contra o sistema e à minha mãe. Avalio minhas alternativas e sei que eu poderia ir agora mesmo para casa. Ela não pode me forçar. Mas se eu fizesse isso seria uma prova de que sou fraca. Seria um tipo de coisa que a antiga Elize, submissa, reclusa e trouxa faria. Mas a nova Elize não é mais assim.

E novamente a emoção fala mais alto que a razão dentro de mim. Não meço esforços quando digo:

— Onde está o catálago?

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— Que tal uma borboleta? — Natasha sugere

— Muito simples — respondo

— E uma caveira?

— Muito gótico.

— E uma tatuagem tribal?

— Muito clichê

Ela revira os olhos e bufa irritada.

— Mas você não gosta de nada. Assim fica difícil. — retruca

— Eu quero algo que faça sentido pra mim. Que não seja apenas uma tatuagem, mas um símbolo com uma mensagem especial. — explico.

— Que baboseira mais filosófica. Todas essas tatuagens que fiz foi porque me deu vontade e porque eu achei o desenho maneiro. Nada de mensagem especial.

— Já que resolvemos fazer juntas e essa é a primeira tatuagem que faço então eu escolho. — alego

— Então escolhe logo, porque já estou perdendo a paciência.

Indecisa, eu sento e começo a pensar nas possibilidades de desenhos. Eu e minha amiga passamos quase uma hora folheando a revista com ilustrações a fim de começarmos o processo artístico. Mas agora, sem nada em mente depois de minutos pensando, resolvo fazer uma pesquisa no celular. Contudo, ao abrir a mochila para pega-lo, vejo um dos livros que peguei na biblioteca da escola naquela semana para ler. Trata-se de uma seleção de poemas épicos. Quando o abro, a primeira pagina que leio fala sobre Carpe Diem.

— Já sei o que vamos fazer. — anuncio — e como você disse, isso tem tudo a ver com a nova fase da minha vida, ou melhor como me sinto.

— Ótimo. Então é o que, uma barata? — provoca irônica.

Ignoro a piada e me levanto com o livro na mão.

— Não é um desenho, mas uma frase: Carpe diem.

Carpe o que? — questiona incrédula

Carpe diem. É uma expressão em latim utilizada na antiga Roma pelo poeta e filósofo Horácio que significa 'aproveite o dia'.

— Ah, tá. Legal. — comenta com indiferença — já escolheu o lugar?

— Aqui. — aponto em direção ao quadril, um pouco em cima da calcinha, mas estratégico o suficiente para ser coberto pelo cós da calça.

— Sua safadinha. Escolheu um lugar bem íntimo de propósito. Porque não faz logo na...

— Cala a boca. — repreendo com uma risada. — Quem vai ser a primeira?

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E aí pessoal, alguém aqui já passou por alguma situação parecida? Fez uma tatto por impulso ou escondida dos pais? Não há problema nenhum em tatuar seu corpo, mas claramente a Elize pode ter grandes problemas com sua família mais conservadora se ela for descoberta.

Se estiverem gostando deixem seu votinho e comentário e não esqueçam de acompanhar meu outro livro Incaendium: Entre Mundos. Bjão <3

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