Quinze

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Manoel toca a campainha de um casebre improvisado em uma região distante de Aruba, sentindo um incômodo meio inexplicável no fundo da garganta. Apesar de viajar para o Caribe há anos, ele nunca tinha entrado naquela rua, e não imagina um motivo plausível para alguém querer se hospedar ali. No entanto, foi esse o endereço dado pelos funcionários do aeroporto. O dono da mala já havia entrado em contato com eles antes mesmo de Stefani se dar conta de que estava sem sua mala.

A porta se abre após o terceiro toque, revelando um homem de meia idade com roupas de banho e um chapéu de palha. Um cigarro fedorento pende entre seus dentes da frente.

— Bom dia — Manoel diz. — Vim trazer sua mala.

O homem sorri e tira o cigarro da boca. Seus dentes se sobrepõem uns por cima dos outros.

— Bom dia. Um belo dia, não acha? Não vejo uma nuvem no céu.

Manoel concorda com a cabeça.

— Está mesmo um dia lindo. — Ele estende a mala ao homem. — Aqui está. Desculpe o incômodo.

O homem tira a mala das mãos de Manoel sem nenhuma delicadeza.

— Obrigado por vir até aqui. Sabe, ainda não me acostumei com a cidade.

— Você veio sozinho para cá? — Manoel pergunta.

Ele nega com a cabeça, e volta a enfiar o cigarro na boca. Um silêncio desconfortável cai sobre dois, e o incômodo de Manoel aumenta.

— Então... — Manoel pigarreia. — Cadê a mala da Stefani?

O homem se aproxima de Manoel, e ele consegue sentir seu hálito de bebida alcoólica e cigarro.

— Você sabe que não foi um engano — ele diz, de um modo sombrio.

— Do que está falando? — Manoel pergunta.

— A mala. Não foi um engano. Achei que você entenderia melhor os sinais, depois de tantos anos de profissão.

— Sinais? — Manoel volta a interrogar, querendo sair dali o mais rápido possível.

— Os sinais — o homem repete num sussurro rouco. — Eles estão em toda parte.

— Não sei do que está falando.

— Claro que não sabe. Escuta, por quanto dinheiro você trairia sua honra?

A conversa está tomando um rumo esquisito demais. Manoel não gosta do modo como o homem o encara, seus olhos têm um brilho irônico e a sobrancelha se curva debochadamente nos cantos.

— Olha, eu tenho que ir. As meninas estão esperando e...

— Claro. Você tem toda razão. — Ele tamborila os dedos no batente da porta. — Cosmos é um nome bonito, não acha? Pode significar qualquer coisa.

— Como você sabe...? — Manoel começa.

— Não importa — o homem interrompe. — Tenho uma coisa para você.

— Me dê a mala e me deixe ir — Manoel pede, num fio de voz.

— Você vai querer aceitar, Manoel. Conheço seu passado. Sei o que aconteceu em 2006.

— Mas o que...

O homem dá uma risada.

— Eu disse que nada era por acaso. É por isso que vai querer levar o que vou te dar. — Ele estende um envelope de papel pardo. — Está tudo aí. Tudo o que você precisa saber.

Manoel pega o papel com mãos trêmulas.

— Quem é você?

— E isso importa? — o homem retruca. — Sou o turista que trocou as malas por engano. É só isso o que você deve saber. Agora vá.

Manoel concorda com a cabeça.

— E a mala? — pergunta ele. — Stefani precisa dela.

— Claro que precisa — o homem diz, e sai para pegar a mala, deixando Manoel sozinho na frente da casa.

Ele volta um minuto depois. Manoel pega a mala e deixa o casebre sem se despedir. O envelope pesa em sua mão direita muito mais do que qualquer mala poderia pesar.

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