Trinta e um

82 4 0
                                        

O tempo passa devagar quando você está sozinha num cativeiro, sem ter a menor noção do horário ou do que está acontecendo lá fora. Eu penso em como Hari e Paula aguentaram tanto tempo confinadas em uma casa sem celular, sem contato com ninguém além das mesmas pessoas desconhecidas.

É claro que não posso comparar esse lugar imundo e fedido com a casa do BBB, especialmente quando minha barriga ronca e minha única companhia são os batimentos do meu coração. Mesmo assim, não imagino como alguém consegue passar tanto tempo longe de tudo por conta própria.

A luz que passa pelos buracos das grades do portão é praticamente nula agora; em breve vou ficar na escuridão completa. As caixas ao meu redor estão reviradas: eu procurei a tal janela por todos os cantos possíveis, mas acho que Manoel estava errado quando disse que sempre há um lugar por onde olhar o céu.

Me deito na caminha furada e enferrujada que Paulo deixou para mim, rezando para não pegar tétano. Tento não pensar naquela maçã marrom que Sapo me ofereceu; agora ela parece o alimento mais saboroso do mundo.

Ele estava certo quando disse que eu me arrependeria de não comer.

Eu fecho os olhos e tento dormir um pouco. Penso no que deve estar acontecendo com as meninas. Será que elas já sabem que Manoel traiu todo mundo? Será que elas imaginam quem armou tudo isso?

Um som estranho vindo na direção do portão gradeado interrompe meus pensamentos. Eu abro os olhos para ver o que está acontecendo e me recomponho.

Não estou nem um pouco afim de olhar para a cara de Paulo de novo.

— Raíssa? — a pessoa do outro lado do portão me chama. É uma voz feminina, ligeiramente familiar.

Eu demoro um tempo pra responder. Pondero se isso pode ser outra armadilha.

— Raíssa? — a voz chama de novo. — Tá aí?

— Oi – eu digo, muito baixo.

— Ah, graças a Deus — ela fala do outro lado. — Graças a Deus.

Eu me afasto um pouco do portão e me ponho entre duas pilhas de caixas que tirei do lugar. Presto mais atenção no som que estou ouvindo e percebo que os cadeados estão se abrindo, um por um.

— Quem tá aí? — eu pergunto.

Não ouço respostas. Em vez disso, uma fresta mínima do portão se abre.

Me aproximo devagar. Um olho surge no vão que se abriu.

— Sou eu — a voz diz. — Lembra de mim, não lembra?

Eu preciso fazer um esforço para reconhecer o rosto na minha frente. A falta da luz e dos óculos dificulta um pouco, mas uma vaga lembrança de uma conversa na madrugada me faz perceber quem é ela.

A menina sem amigos que mora no hotel.

— Ah, oi — eu digo. — Claro que lembro.

Ela abre um sorriso tímido.

— Oi.

— Você também é cúmplice? — eu pergunto, sem esboçar muita reação. Não sei mais o que esperar das pessoas.

CosmosOnde histórias criam vida. Descubra agora