Capítulo 4 - Pesadelo e olhos amarelos

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Duas semanas se passaram e nada de diferente aconteceu. Sinceramente esperei pelos tais novatos e nada também, eles não aparecerão. Esqueça isso, Mer.

- E aí, Vai mesmo fechar amanhã no unpr? Último ano e tal, conhecer os novatos melhor - Anne diz empolgada - essas semanas passaram em um piscar de olhos.

Ir no unpr quer dizer, cuidar dos meus amigos bêbados, noite incrível com certeza. Não lemos nada do livro nessas duas semanas e orgulhosamente culpo Anne, suas preocupações com essa tal festa ocupou todo seu tempo. Se algo sair errado, minha melhor amiga no mínimo morre de tristeza.

- Claro, sexta-feira, dia de cuidar das peças raras depois de uma madrugada no Unpr - reviro os olhos sorrindo.

- Conto com você e Henri - ela corre - eu e Shatt estaremos ocupados - ela grita com um olhar malicioso.

Eu mereço. Olho para trás, a praça está calma, na verdade nós estamos no lado calmo, daqui escuto os gritos afastados das crianças. Henri volta com dois sorvetes e me olha confuso "cadê Anne?". Faço um sinal de "se mandou".

- Deixa eu adivinhar? Ela nos colocou como babás?

- Exato. O Unpr nos aguarda.

Ficamos andando pela praça por bastante tempo.

**********

Acordei duas da manhã com a garganta seca. Um pesadelo. Meus pés tocam o piso gelado, saio do quarto sem medo do escuro intenso, mas me lembro das mãos em carne viva que seguravam meu pescoço no pesadelo. Ao andar pelo corredor sinto os calafrios me seguindo, como pequenas mãos que querem puxar meu vestido  azul claro. Enquanto desço as escadas, flashs de sangue vão e voltam. Sangue roxo, sangue que fede a podre, queima como ácido. Já na cozinha o ar fica gelado, é como um congelador, a linda escuridão da madrugada, o frio que arrepia qualquer pêlo.

Pego água na pia para beber, a janela reflete minha aparência, nada anormal e nada atrás de mim ou algo do tipo como nos filmes. Mas então olhos amarelos se encaixam perfeitamente nos meus, no reflexo, como se fossem os meus próprios. Bebo a água e forço a visão para alcançar algo além do vidro, que está indo pela floresta a dentro.

Sem pensar muito, abro da janela e saio por ela. Mais uma vez meus pés tocam o chão gelado, mas dessa vez é úmido, a grama e a terra gelada. Rastros amarelos vão embora pelo escuro. Quero ir atrás, mas isso seria hipocrisia, depois de tanto xingar os personagens que seguem o possível perigo. Rystton  Hergreely já é estranha demais para eu me envolver em qualquer coisa, prefiro distância de situações que sei que talvez me arrependa.

Recuo e entro em casa de novo. Volto a cama e fico pensando nos olhos amarelos. Não quero entrar nessas coisas, mas não é como se eu fosse me esquecer daquilo. Era tão brilhante, imagino que irei sonhar com eles por noites. Não seria coincidência eles aparecerem e isso acontecer. Eu posso estar delirando, ou pode ser algo a mais... Não sou trouxa, já li livros demais sobre detetives e investigações perfeitas, não caio nessa. Aprendi a confiar no meu instinto e na minha  mente aberta.

*************

- Ah Anne, não enche o saco de manhã. Não dormi a noite inteira - na escola não falei com ninguém, até agora.

- Nem é de manha cedo e não dormiu por quê? A senhora fazia coisas que-

- Anne, Mer não é você, relaxa - Henri morde seu sanduíche gororoba.

Nos primeiros tempos não fiz nada além de pensar nos olhos amarelos, é uma idiotice. Eu penso e me repreendo automaticamente. Penso neles e me repreendo automaticamente. Era um ciclo sem fim. Estou fazendo isso a toa, já disse, e essa será a última. Hoje serei uma babá, preciso esquecer isso.

- Não vou furar a festa, não se preocupa - digo um pouco mais calma.

- Esperamos que não, Anne estará incontrolável - Susan diz suspirando.

- Nem me fale, ela só escuta vocês dois e Shatt nesses momentos - Susen também suspira.

Na saída todos nós passamos uma última vez na loja para comprar algumas besteiras; salgados, doces, e misturas horríveis para as bebidas. No bar do Unpr já estava tudo pronto, copos vermelhos e verdes empilhados pelo balcão, o som da música que a maioria das pessoas escutam, os doces e salgados já bem distribuídos e por fim as luzes LED que enfeitam tudo. Uma boate perfeita, especiaria de Anne e Shatt.

Sem me despedir só saio do Unpr, quer dizer, esse era o plano, mas Anne me para.

- Você está menos animada que sempre esses dias, tem alguma coisa a ver com a volta as aulas, você está estressada ou está com algum problema? - sinto uma pontada de tristeza por preocupar Anne assim, ela irá me ajudar sempre, sei que posso contar com ela, só
não gosto de pensar que ela esteja se sentido mal também por mim.

- Não Anne, não é isso...eu apenas preciso refrescar. Tive tento uns pesadelos, umas coisas estranhas-

- Estamos em Rystton Hergreely, o que não poderia ser estranho? - ela ri, de uma forma isso me faz sorrir também.

- Está certa. Vou para casa, mas a noite volto para cuidar dos bebês - lhe dou uma piscadela.

- É assim que se fala, não demora - ela gargalha e me sinto em paz por isso.

Ando pela floresta, o cominho mais rápido. Não ligo muito para as paisagens naturais que me seguem, só ando reto sempre. Quando finalmente me vejo livre de pensamentos peculiares, vejo um tronco preto, está torrado. Procuro melhor e... um telescópio destruído.

Uma dor lateja pelo meu peito.

Meu corpo pesa, minha visão se turva. Conheço essa sensação. Apoio no chão para tentar recuperar o equilíbrio, o ar que sai pela minha boca é seco e curto, ralo. Puxo a respiração com dificuldade e dor, fecho os punhos no chão fazendo com que a areia preta entre debaixo das minha unhas. Mas com toda a intensidade que a dor me invadiu ela se vai, como algo sendo puxado do meu corpo. Fico em pé, nervosa, os olhos amarelos voltam aos meus pensamentos e sigo para casa. Me arrumo pensando na sensação, foi diferente de tudo que já senti, apesar da dor e da agonia, um lado foi bom. Me senti bem em algum momento naquela agonia, mas jogo esses pensamentos fora. Preciso estar bem. Preciso voltar a mim.

RYSTTON HERGREELY: O Livro LunarOnde histórias criam vida. Descubra agora