6. Jake

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Antes do alarme tocar, já estou desperto. Não consegui dormir muito bem ontem à noite, e o motivo é o meu pai. Quando ele bebe - o que é quase sempre -, fica descontrolado e quebra tudo ao seu redor, além de xingar até o Papa. Às vezes, minha mãe está aqui para tentar acalmá-lo. Às vezes, não. Ela é enfermeira, e por isso trabalha muito. Geralmente, tem plantão duas vezes na semana. Eu não guardo nenhum ressentimento dela por isso, pelo contrário, eu a amo e sei que ela precisa e gosta desse emprego. Afinal, só assim podemos pagar as contas, já que meu pai é um peso morto.

Esse é um dos motivos para eu me dedicar tanto ao futebol e aos meus estudos. Posso conseguir uma bolsa em uma faculdade e minha mãe não terá que se preocupar em pagar nada. E claro, também quero arranjar um trabalho de meio período para não ter que dar tantas despesas assim para ela. A verdade é que eu não vejo a hora de finalmente ir embora daqui. Sempre sonhei com o momento em que não teria mais que olhar para a cara do meu pai todos os dias, se é que eu posso chamá-lo assim.

Quando termino de guardar todas as minhas coisas dentro da mochila, vou para a cozinha e me surpreendo ao ver minha mãe cozinhando. Ela raramente está aqui pela manhã.

— Oi, querido. - Ela sorri, quando se dá conta da minha presença. — Fiz ovos, bacon e torradas para o café da manhã.

— Não posso comer bacon, mas aceito os ovos e as torradas. - Sem cerimônia, sento-me à mesa e tomo o café da manhã.

— Como vai na escola? - Ela pergunta, levando uma colher com ovos mexidos à boca.

— Bem. - Dou de ombros. — Depois do treino, vou fazer um trabalho na casa da minha dupla hoje. Vou chegar mais tarde.

— Claro, hoje eu chego só depois das sete mesmo. Então, quem é sua dupla?

— Hum, uma garota. Grace. - Respondo, e me arrependo no segundo seguinte.

— Uma garota? - Os olhos da minha mãe brilham sugestivos. — Vocês estão namorando?

— Meu Deus, mãe, não. Somos só... - Penso em dizer "amigos", mas tenho certeza que Grace não me vê assim. E bem, nós mal no conhecemos. Acho que seria demais chamá-la de minha amiga. — Parceiros. isso.

— Sei. - Ela reprime um sorriso, e leva uma xícara de café à boca.

— É melhor eu ir, se não quiser chegar atrasado. Tchau, dona Suzanna. - Beijo sua testa, pego minhas coisas e saio de casa.

Chego na escola em cima da hora. Tenho duas aulas seguidas de inglês, que são um saco. Definitivamente, essa é a aula que mais odeio. E nem é pela matéria, mas sim pelo professor, que é uma máquina ambulante de cuspe. Quando a segunda aula termina, corro para fora da sala como se estivesse prestes a marcar um touchdown, e entro na sala de química. O professor nos separou em trios e tivemos que fazer um tipo de experimento, que deu totalmente errado. Não sei como, mas um garoto de óculos e gravata borboleta conseguiu fazer uma nuvem de fumaça que se espalhou da sala até os corredores e o alarme de incêndio foi tocado. Em instantes, o corredor estava cheio de alunos correndo e gritando desesperados: "Fogo!", "Socorro!", "Salve-se quem puder!". Foi um verdadeiro caos. A situação só se estabilizou quando a diretora comunicou nos altos falantes que tudo não passou de um desentendido e decretou que o intervalo começasse mais cedo para que os alunos pudessem se acalmar.

Avisto Grace em seu armário, e ela parece feliz quando consegue abrir do modo como eu a ensinei. Decido me aproximar para conversar com ela.

— Hey, parceira. - Sorrio de lado, e me encosto de braços cruzados no armário ao lado do dela.

— Você tem uma mania de aparecer silenciosamente do nada. Parece até uma cobra. - Ela me encara.

— Uma cobra? - Dou uma risada. — Você realmente sabe como elogiar um cara, Henderson.

Mútuo BenefícioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora