Rolo de um lado para o outro na cama, apertando o travesseiro contra meus ouvidos. É sábado à noite, e como já era de se esperar, meu pai está bêbado. Consigo ouvir tudo que ele faz, todos os seus passos e tudo o que ele diz. Como sempre, ele está jogando as garrafas vazias de whisky nas paredes, enquanto grita e xinga todo mundo. De repente, ouço um estrondo, e me sento, alerta. Um silêncio ensurdecedor se instala, e eu desço correndo para saber o que aconteceu. Robert é um péssimo marido e definitivamente, um péssimo pai. Mas, mesmo assim, me sentiria culpado se algo acontecesse e eu não fosse socorrê-lo.
Quando chego na sala, encontro nossa TV no chão, totalmente destruída. Meu pai está sentado ao lado dos destroços, juntamente com os estilhaços de suas garrafas de whisky. Ao me ver, levanta cambaleando e aponta para mim.
— A culpa é sua! Seu moleque inútil! - Berra, tropeçando nos próprios pés e caindo novamente.
— Claro. - Rio amargo. — E você é um santo.
Giro nos calcanhares para subir para o meu quarto novamente e não ter que lidar com essa merda, mas não chego a dar um passo, pois ele me chama. Mesmo assim, não me viro.
— Sabe de uma coisa? Suzanna deveria ter abortado você!
Engulo em seco. Suas palavras me atingem como um tiro no peito. Lentamente, viro-me para olhar para ele, e não vejo nenhum resquício de arrependimento em seus olhos. Ele quis dizer isso. E realmente queria que eu nunca tivesse nascido. Sinto meus olhos arderem e as lágrimas os inundarem, mas não permito que elas caiam.
Saio de casa no segundo seguinte. Não consigo ficar no mesmo lugar que ele agora. Suas palavras ecoam em meus ouvidos duas, três, quatro vezes. Fecho os punhos e cerro os dentes, obrigando meu subconsciente a parar, mas de nada adianta. Então, decido correr sem destino. Penso na minha mãe, no futebol, no time, em David, Brittany e mesmo assim, a maldita frase dita por meu pai continua aqui. Impregnada, marcada, tatuada em meu cérebro. Corro ainda mais. Corro até os meus ouvidos zunirem. Corro até meus pulmões ameaçarem falhar. Corro até meu coração disparar. Corro até minhas pernas ficarem bambas. Corro até ficar cansado. Corro, corro, corro e finalmente, paro.
Ofegante, percebo onde estou: em frente a casa de Grace. Tento mover-me para longe, mas minhas pernas não obedecem ao meu comando. Pelo contrário, elas só aproximam-se cada vez mais da varanda, e quando dou por mim, já estou tocando a campanhia.
— Jake? - Grace pergunta, surpresa. Ela veste uma calça moletom cinza e uma blusa preta, de alças finas. Nos pés, pantufas de pinguins. Guardo esse detalhe mentalmente para poder zoá-la depois. — O que você está fazendo aqui?
— Eu, hum, estava caminhando. Achei que talvez você quisesse vir comigo. É bom para a saúde, sabe. - Enfio as mãos dentro dos bolsos laterais do meu moletom.
— Já são quase dez e meia. - Ela estreita os olhos, e franze às sobrancelhas.
— Eu sei, mas é um bom horário, não tem muita gente.
— Bom, eu estava indo dormir, mas... tudo bem. Vou pegar um casaco, já volto.
Enquanto espero Grace, cogito a hipótese de ir embora, mas não tenho coragem. Não sei se sou uma boa companhia agora, mas a culpa não é dela, e sim minha. Que diabos eu estava pensando quando toquei em sua campanhia? Na verdade, eu nem ao menos estava pensando! Foi tudo tão rápido que nem tive tempo de pesar os prós e os contras. Porém, agora não adianta mais. O que está feito, está feito. Resta-me fingir que está tudo bem.
Quando ela volta, já agasalhada, não deixo de notar que ainda está usando suas pantufas de pinguins, e isso me arranca um breve sorriso.
— Por que está sorrindo? - Ela pergunta intrigada, parando em minha frente.
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Mútuo Benefício
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