Os Henderson's tinham razão, eu deveria ter ficado em casa. Ou melhor dizendo, na casa deles. Mas é claro que eu discordei e resolvi vir para escola, mesmo após os acontecimentos de ontem à noite. Afinal, eu sempre consegui dar conta de tudo, então dessa vez não seria diferente, certo? Errado.
Não prestei atenção a uma aula sequer, e tenho certeza que fui muito mal no teste surpresa de biologia. Já no treino de futebol, as coisas não foram muito melhores. Hoje fizemos a simulação de um jogo e eu transferi todos os meu sentimentos para o campo e para cada jogador do time "adversário". Resultado: machuquei grande parte dos meus colegas de time e um deles até deslocou o pulso. Aos berros, o treinador me deu um sermão e perguntou que diabos tinha acontecido comigo. Se ele soubesse... Como punição, Dixon me mandou para o chuveiro e me suspendeu do treino de amanhã.
Ainda me sentindo frustrado, caminho até o meu carro. Sento no banco do motorista e jogo minha mochila no banco de trás. Meu telefone vibra freneticamente no meu bolso e eu o pego para saber quem está me ligando. Quando leio seu nome no visor, meu estômago embrulha. Encaro a tela do celular por longos segundos sem conseguir reagir, até que a chamada cai. Solto a respiração que nem sabia que estava prendendo e a ligação se inicia novamente. Respiro fundo e atendo.
— Oi, mãe. - Digo com dificuldade.
— Jake?! Você está bem? Onde você está? Por que metade das suas coisas sumiram? - Ela pergunta nervosa, e posso visualizá-la andando de um lado para o outro no meio da sala.
— Eu... estou na casa dos Henderson's.
— Henderson's? Quem são esses?
— Uma amiga e o pai dela. O policial que foi ontem aí em casa. - Respondo, e só a menção da noite anterior me faz ficar perturbado.
— Jake, você precisa voltar para casa. Eu não conheço essas pessoas, e...
— Elas são mais confiáveis do que seu marido. - Rebato, a interrompendo.
— Ele não é só meu marido, também é seu pai, e...
Rio amargurado.
— Robert nunca foi um pai para mim.
— Eu sei que nos últimos anos as coisas estão difíceis, mas vão melhorar! Eu sei que vão! Só precisamos ter paciência e um pouco de fé também.
— Você não vai denunciá-lo, não é? - Pergunto, e apesar de já saber a resposta, parte de mim fica esperançosa.
— Eu não posso. - Ela sussurra. — Ele é meu marido, seu pai, e eu... eu simplesmente não posso.
— Sendo assim, eu também não posso voltar para casa. Não quero ver o que aconteceu ontem à noite se repetir. - E desligo.
Jogo meu celular no banco de trás e soco o volante, me arrependendo no mesmo instante, já que minhas mãos ainda estão feridas e agora só piorei tudo. Respiro fundo, fecho os olhos e encosto a cabeça no banco, tentando me acalmar. Não consigo acreditar que minha mãe não vai mesmo denunciar meu pai. Ou melhor, Robert. É assim que irei me referir a ele a partir de agora. Simplesmente não entra na minha cabeça. Como ela ainda pode acobertá-lo depois de tudo? Ele deveria estar preso, pagando por tudo que fez! Talvez eu não deveria ter deixado-a sozinha, mas realmente não consigo mais lidar com toda essa merda. Não sei o que sou capaz de fazer se ver aquele homem novamente, ainda mais batendo na minha mãe. Só de imaginar, já me sinto enfurecido, e toda essa raiva me deixa cego. Tenho medo do que posso fazer com ele. Tenho medo de me tornar igual a ele.
Três batidas na janela do meu carro me tiram dos meus devaneios. Abro os olhos pronto para xingar quem ousa bater com tanta força no vidro do meu bebê mas relaxo ao ver que se trata de Grace. Então, desço o vidro.
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Mútuo Benefício
Romance🏆 VENCEDOR DO WATTYS 2021 NA CATEGORIA NEW ADULT Grace Henderson, apesar de jovem e de seu humor sarcástico, é independente e responsável, tendo como algumas de suas preocupações um armário constantemente emperrado e uma paixão repentina por um gar...
