Capítulo 2

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"A chama mais brilhante projeta
a sombra mais escura"
George R. R. Martin

— Não tenho nada contra você. — Nicolas sentou no chão, já cansado de bater na porta e pedir por ajuda.

Faziam duas horas desde que Leonora havia deixado Nicolas e Margot no depósito de materiais, e os dois, após muita briga, enfim resolveram pensar em uma melhor alternativa para saírem daquele lugar.

— Assim que o jogo acabar, os jogadores entrarão no vestuário, pediremos socorro, e saíremos daqui. — Margot alegou, se recostando na parede.

— Linda...

— Meu nome é Margot. Só Margot. — Afirmou com destreza.

— Tudo bem, Margot. — O homem bufou. — Seguinte, se os meus alunos nos virem aqui, vai ficar complicado para nós dois. Vão pensar coisa errada, sem falar que eu deixei eles em campo falando que iria resolver algo importante.

— E foi transar. — Emitiu um riso debochado. — No depósito de materiais. Que decadência.

— Decadência ou não, aqui estamos nós, e se não quiser parecer decadente junto comigo, ouça meu conselho. — Nicolas gritou. Já estava cansado das insinuações de Margot.

— E o que sugere? — A garota questionou, cruzando os braços de maneira furiosa.

— Amanhã o faxineiro vem tirar o pó de todo local, inclusive, do banheiro. Ele pode nos ajudar. — disse, deslizando suas mãos pelo rosto, e em seguida, pelos cabelos, demonstrando toda impaciência que estava sentindo no momento.

— E por qual motivo o faxineiro nos ajudaria sem falar para ninguém, Nicolas?

— Porque é meu pai.

Margot, por sua vez, soltou um suspiro longo, deixando seu corpo escorregar pela parede cujo estava encostada, até que ficasse sentada no chão. Seu olhar era fixo na pequena janela que havia no depósito de materiais, aonde dava para captar diversas pessoas passando por lá, pela quantidade de vultos e barulhos que saiam daquele pequeno quadrado na parede.

— Vamos ter que passar a noite aqui? — Ela questionou, com esperança de ouvir da boca de Nicolas um "não".

— É a única alternativa sem nos prejudicar.

As mãos de Nicolas estavam apoiadas em sua cabeça, e seus cotovelos apoiados em seus joelhos. Em pensamentos, ele estava se perguntando como uma mulher conseguia ser tão bonita e tão irritante ao mesmo tempo, e como seria uma tarefa extremamente difícil passar a noite no depósito do tamanho de um cubículo com ela. Para um homem, que estava acostumado a ser paparicado, desejado e admirado, ouvir palavras como "decadente" sendo desferidas em sua direção, era humilhante.

Nicolas se perguntava o que fez Margot tirar essas conclusões absurdas sobre ele. Ela era uma aluna caloura na Universidade. Fazia mais ou menos um ano em que havia se mudado para lá, sempre foi muito quieta, e nunca havia trocado uma única palavra com ele, até aquele momento. Na verdade, ele só sabia quem a jovem era pelo fato dela ser amiga de Leonora.

Conforme o tempo passou, o jogo acabou, e os Boulders voltaram para o vestuário. A conversa incessante deles era sobre a vitória recente, e também insultavam Nicolas, o instrutor que os abandonou no meio da partida para resolver assuntos familiares. Margot se sentiu incitada em denúnciar a presença do decadente professor no depósito, mas se conteve, pois sabia que assim iria se prejudicar também. Após um tempo, o time saiu, deixando o banheiro vazio, quieto e escuro. O mesmo aconteceu com a janela cheia de movimento do lado de fora. Aos poucos, o número de pessoas passando por ela diminuíram cada vez mais, até que cessaram totalmente.

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