"Podeis enganar toda gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente."
Abraham Lincoln.
As semanas passaram rápido, já havia feito, com exatidão, vinte e um dias desde que Margot havia prestado depoimento na delegacia, e desde então, Nicolas negou qualquer tipo de palavra à ela. Todas tentativas de mensagens e ligações haviam sido ignoradas, até que Margot apenas conformou-se e parou de tentar entrar em contato. Às vezes era inevitável ver ele pelo campus, conversando com os alunos, sempre demonstrando animação, parecendo até mesmo ser um deles, com seu jeito brincalhão e seu humor desmedido. Em sua cabeça aferravam-se pensamentos que havia apenas sido utilizada por ele. Uma noite e nada mais.
— Não sinta-se idiota por ter dormido com ele. A maior parte das alunas fariam o mesmo. — Mikaylla confortou, observando com amargura a amiga, que novamente estava em profundos pensamentos no meio da aula de Filosofia e ética.
— Esse é o problema. A maioria teria feito o mesmo. Ele não precisa de mais alguém para abastecer aquele ego enorme. — A jovem suspirou, fechando o seu caderno com brutalidade.
— Acho que você está gostando dele. — A amiga pronunciou, desconfiada.
— Eu e Nicolas? Seria o acontecimento mais improvável do século. — Riu em voz baixa, tentando não atrapalhar a aula.
— Olha como você está ao receber o desprezo dele. Mais afetada do que quando chorou por tirar nota baixa na matéria da professora Emma.
— Eu não chorei.
— Eu jurava que eram lágrimas. Deve ter sido engano. — Ela disse, com ironia. — De qualquer forma, não é muito bom para você ficar com essa cara de ódio na aula. — Zombou. — Se você encontrasse uma assombração, a assombração sairia correndo.
— É minha cara de sempre. — Respondeu, sem ânimo.
— Está um pouco pior do que a de sempre. — A amiga riu, oferecendo um pequeno espelho para ela. — Cada pessoa que você olha fica assustada pensando que vai comê-la viva.
A jovem, com o pequeno espelho que sua amiga havia lhe oferecido em mãos, encarou sua própria imagem e constatou que não era mentira. Não por causa de sua aparência em si, mas sim, por conta do seu olhar cansado e boca incapaz de abrir um sorriso sincero. Ela nunca lidou muito bem com sorrisos. Em sua família, o membro mais simpático sempre era Marcus, o seu irmão mais velho. Em várias ocasiões o rapaz cativava todos ao redor, tanto aos familiares que raramente compareciam para visitá-los, como amigos mais próximos. Elisa, sua mãe, contemplava a diferença de ambos os filhos, e ressaltava que cada um tinha a sua peculiaridade. Porém, o seu pai sempre a julgou por não ser igual ao seu irmão.
Ela, no fundo, acreditava nas convicções do pai, pois Marcus sempre havia sido o garoto prodígio. A criança que aprendeu a falar mais rápido, se tornou o adolescente que conseguia amigos com mais facilidade, e o adulto mais propenso a ser bem sucedido. E como irmã mais nova, tudo o que ela iria fazer seu pai diminuía de alguma forma, falando o quanto o filho mais velho havia conquistas mais significativas. No fundo, a jovem mulher sabia que não existia nada que ela soubesse fazer que seu irmão não conseguisse fazer dez vezes melhor.
— Por que você não força um sorriso para garantir sua próxima nota? — Mikaylla sugeriu. — Faça igual eu, sorria e concorde com a cabeça, como se estivesse entendendo tudo. — Esbanjou um sorriso gracioso no rosto. — Quando ela contar uma piada, mesmo que você não entenda, solte uma risada, mas não muito alta, porque ela pode entender que você está rindo dela e não com ela. — Suspirou. — Agora, se você continuar com essa cara de quem acabou de beber leite azedo, vai ser difícil. Não sei o porquê não se esforça uma pessoa mais sociável.
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A Morte Te Segue
Mystère / ThrillerNa Universidade do Colorado em Boulder, após o caos ser orquestrado, há paz. Após uma semana intensa de provas, há férias. Após um semestre de recuperação, há festas de fim de ano. Porém, ninguém esperava que os tão esperados jogos universitários se...
