- Sabe, meu filho, eu não o repreendo pelo que quer alcançar. Se não sonhássemos, estaríamos mortos em vida. Ainda assim, deve pensar: aonde tais ambições o levarão?
Três anos depois, Tobbi ainda não sabia a resposta para a pergunta do seu pai. Aonde terminaria, no fim? Esse questionamento tornava a reaparecer de tempos em tempos, incitado por sabe-se lá quais motivos além da sua compreensão.
Levantou as costas da cama improvisada, varrendo com as mãos a palha que grudara na sua pele. Estava nu, e com frio. Os montículos de feno no estábulo talvez tivessem parecido o melhor lugar para cair no sono, ontem à noite, mas agora não eram tão acolhedores como pensara. Do alto de uma fresta, entre a parede e o teto, entrava ar frio e o som de galos cantando.
Tobbi se levantou do amontoado de feno, indo buscar as roupas que deixara na mureta que separava os cavalos. Um dos animais, que estava em pé como se à espera de algo, resfolegou sobre o rosto do jovem.
- Desculpe decepcioná-lo, amigo - disse Tobbi, enquanto vestia as roupas uma a uma -, mas ainda não chegou o momento da sua limpeza diária. Sou apenas um invasor em sua casa - Por fim, prendeu o gibão verde à cintura com uma faixa. - Não conte ao dono nada do que viu aqui, certo?
O cavalo grunhiu baixinho.
Do mesmo lugar que usara de cama na noite passada, emanava a suave respiração de Alina adormecida. Cobriu o corpo dela com um manto velho e remendado, mas que ainda devia servir ao propósito de esquentar as pessoas. Viu-a aconchegar-se nele, recebendo-o com alegria.
- Eu ouvi o que aconteceu. Sobre o seu empreendimento - dissera Alina, apenas poucas horas antes. No limiar entre o amor e o descanso. - Me desculpe, não deveria ter tocado nesse assunto.
- Nunca foi nenhum segredo.
- Tobbi, por que não pede ajuda para o meu pai? Apesar de não sermos os mais ricos do mundo, temos o suficiente para cobrir emergências como essa. Quanto foi que tomou daqueles mercadores? Cinquenta, cem ghods de prata?
A verdade viera com o peso de uma bala de canhão.
- Meio milhar - Alina arregalara os olhos.
- Bem... é uma quantia bastante... considerável, eu admito - Logo depois se recompusera. - Mas não é como se estivesse além das nossas capacidades - Nossas, lembrou de ter pensado, naquele momento. Estaria ela se referindo a eles dois, ou a ela e o velho Dárand? - Se conversar com o meu pai, esclarecer direito as coisas, tenho certeza de que ele ajudará. Não foi ele que te emprestou aquele lote, no topo do vulcão? Não lembro dele ter dito alguma vez que se arrependia disso.
Era uma situação complicada, podia dizer. Talvez Dárand Maitaec emprestasse mesmo o suficiente para cobrir a sua dívida. Mas isso significaria, muito provavelmente, que o estava aceitando como seu genro. Teria que se casar com Alina. Embora não achasse a ideia desagradável, isso significaria abrir mão das suas ambições. E da sua liberdade. Seria admitir que deixara a casa do seu pai por um mero capricho de adolescente.
Por outro lado, o dinheiro de Dárand era o único que poderia salvá-lo das dívidas com os mercadores de Urt'oux. Eles, sabia por histórias, eram implacáveis com aqueles que descumpriam a sua parte nos acordos. Podia terminar como alguém sem liberdade nenhuma, um escravo. Isso também seria bem ruim.
Alina continuava dormindo no montículo de palha, coberta pelo manto velho. Mechas de cabelo no seu rosto subiam e desciam ao som da sua respiração. Vendo-a dessa forma, serena e bela, uma parte de Tobbi não podia deixar de pensar que seria um desperdício não tê-la como esposa.
Mas, bem, isso era algo que não podia fazer.
***
Não havia camponeses na trilha que subia pelo vulcão. Normalmente, via-se ao menos dois ou três deles nos lotes terraformados que bordeavam a encosta, semeando ou arando a terra. Talvez porque fosse o primeiro dos três dias de Minguado.
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KALKIALA - A gema da vida
FantasyQuando os meteoros caem, ninguém nunca sabe o que haverá neles. Ao descobrir que um meteoro caiu nas proximidades da sua lavoura, um camponês decide que deve agir rápido para livrar-se dele. Noutra parte do arquipélago, um jovem tem o seu mais recen...