A manhã debruça-se pela totalidade do céu, clara e cálida. Mas uma calidez gentil, de um dia que ainda está começando. As ondas, assim como as folhas dos coqueiros e algarobas da costa, são acariciadas suavemente pelo vento que sopra do mar. Da floresta, ecoam os ruídos estridentes de pássaros e de macacos.
Uma mulher avança ao longo da praia, o tênue limite entre a vegetação e a água. O vento faz dançar os seus longos cabelos castanhos, e as faixas de tecido que vagamente lembram um tipo mais revelador de saia. Nos tornozelos, pulsos e braços, há apetrechos cor de ouro. Reluzem ao sol.
Seus pés descalços deixam uma longa trilha de pegadas na areia, que parece partir dela até o horizonte. O vento, ou o mar, não as apagaram ainda. Além dela, não se veem sinais de quaisquer outras pessoas na paisagem.
Em dado momento, a mulher, que à primeira vista parece estar nos anos finais da juventude, desvia seu caminho em direção ao mar. Seu rosto belo e moreno se contorce em desconfiança, ao ver tais objetos encalhados na areia da praia. Tábuas grandes, pequenas, partidas, pedaços de corda e peixes mortos. E o corpo de um desconhecido estirado no chão.
A mulher se abaixa ao lado do desconhecido. É um rapaz erdaviano, percebe pelo cabelo vermelho e pele clara, e os traços faciais mais duros que o do seu povo. Rola-o de lado, enquanto o examina da cabeça aos pés. Está vivo, constata. Inconsciente, mas vivo. Nos bolsos dele, encontra uma algibeira com uma quantia considerável e dinheiro e um medalhão de admissão e embarque num navio.
Nenhuma das duas coisas tem utilidade para ela.
Volta-se, então, para o horizonte. Para o mar. Além daqueles objetos trazidos à costa – que a sua mente já supõe serem parte de alguma espécie de desastre marítimo –, há outros ainda flutuando no mar. Muitos mais. E também peixes, uma miríade de peixes mortos boiando ao sabor das ondas.
A mulher afunda o dedo indicador no mar, e depois o leva à boca. Faz uma careta. Não está mais tão forte, mas ela percebe que ainda há resquícios de veneno na água. E ela, apesar de tudo, sabe qual é exatamente esse veneno. Ainda que não saiba das minúcias do que aconteceu ali.
Encolhendo os ombros, volta a olhar para o rapaz desacordado aos seus pés. Pelo tamanho e musculatura, parece um homem já feito. Mas é ainda jovem, ela sabe. E o corpo dele está repleto de cortes que exigem o seu tratamento.
Sem pensar muito, a mulher o ergue pelo colarinho. Como se não fosse nada além de um saco de algodão naedi. Acomoda-o sob os braços, e o começa a levá-lo para o lugar que algum dia chamou de casa.
***
Tobbi acordou de repente, com a sensação de estar sufocando. Que sonho estranho era aquele que tivera? Primeiro, estava com os trabalhadores do annk do seu pai, tosando ovelhas no interior de um curral protegido do frio. Mas então a ovelha não era do seu pai, mas do avô de Nairu, obrigando-o a fugir com a ovelha tosada nos braços. E então terminara afundando no mar, sem conseguir chegar à praia...
Meneou a cabeça, agitado. Não, àquela altura o sonho não importava. Estava mesmo sufocando!
Tobbi balançou-se na escuridão, caindo de uma altura que nem sabia estar. Engatinhou, apalpando um chão de... aquilo era areia? O ar estava pesado, quase como se não fosse ar e sim um lodo quente e denso o que o rodeava. Apesar de que, ali perto do chão, admitia sentir a sua respiração um pouco mais livre.
O jovem sentia os seus braços dormentes, mas sabia que não adiantava perder muito tempo pensando nisso. Arrastou-se quase colado ao chão até encontrar a parede. E então, seguiu ao longo dela até encontrar a saída daquele lugar. O que não demorou em achar.
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KALKIALA - A gema da vida
FantasiaQuando os meteoros caem, ninguém nunca sabe o que haverá neles. Ao descobrir que um meteoro caiu nas proximidades da sua lavoura, um camponês decide que deve agir rápido para livrar-se dele. Noutra parte do arquipélago, um jovem tem o seu mais recen...