Durante boa parte da noite, eu e Marinette nos sentamos no chão de madeira com dois de seus amigos, Nino e Alya, para jogar baralho. Claro que a brincadeira em si não era o foco, aquilo era só uma forma de distrair enquanto a gente conversava.
Descobri histórias interessantíssimas a respeito do passado dela. Por exemplo, Marinette era representante de turma e uma ótima aluna (não fiquei surpreso), só que tinha o péssimo hábito de chegar atrasada (fiquei chocado. Aquela era mesmo a chefinha?).
Mas então aconteceu uma coisa muita estranha: certa hora, quando Marinette estava prestes a lançar uma carta no jogo, ela hesitou com a mão suspensa no ar, a um palmo do piso. E Jess começou a cantar.
"The day we met. Frozen, I held my breath"*
Marinette deixou a carta no montinho e o jogo seguiu adiante; era a vez do Nino. Ela ainda fingia normalidade, mas eu tinha certeza de que algo estava errado. Os amigos dela pareciam alheios ao que acontecia.
— Você tá bem? — perguntei.
Ela levantou os olhos e me fitou diretamente. Como éramos uma dupla no jogo, estávamos sentados um de frente para o outro. Ela meneou a cabeça sutilmente em afirmativa. No entanto, algo de fato havia abalado seu coração, pois Marinette não mais sorria.
Não era a primeira música que ouvia Jess cantar naquela noite, mas a voz dela parecia diferente; estava mais romântica e densa ao mesmo tempo; mais sentimental. Como se já tivessem feito aquilo inúmeras vezes, Luka cantou sozinho toda a segunda parte e Jess focou no violão. Depois eles entraram juntos no refrão, olhando somente um para o outro, formando um uníssono perfeito.
Eles não cantavam para uma plateia ou para seus amigos. Jess e Luka cantavam um para o outro a mais sincera declaração de amor que eu já havia testemunhado. Ela pedia para ele não ter medo, e ele dizia que seria corajoso.
— Ei, é a sua vez — Alya me apressou com gentileza.
— Foi mal — desculpei-me e segui a brincadeira.
Então a música acabou e ficamos todos mergulhados em silêncio, e eu entendi de vez por que Mari estava tão ausente. Ela não estava abalada por nenhum motivo pessoal, estava preocupada com o Luka e a Jess.
Marinette pediu licença e se levantou do chão, caminhou até ele e retirou o violão preto das mãos do músico. Luka estava chorando. Mesmo distante, fui capaz de sentir sua angústia no meu próprio peito.
Brinquei com as cartas nas minhas mãos para disfarçar e olhei para lá novamente. Jess limpava as lágrimas do rosto do namorado. Logo em seguida ela se ajeitou no banco, repousando seu instrumento musical ao lado e sentando-se se virada para o rapaz.
Enquanto isso Marinette seguia até Juleka para lhe entregar o violão do irmão, num pedido silencioso para distrair a todos nós (e dar ao casal tempo e alguma privacidade). Tive a impressão de que não era a primeira vez que isso ocorria. Mesmo se fosse, Marinete, como sempre, parecia saber exatamente o que fazer para ajudar.
Quando Marinette retornou ao seu lugar no jogo, lhe ofereci um olhar de compreensão. Ela parecia entender e ficou agradecida pela minha gentileza.
— É a música deles — ela explicou. — Eles vão ficar bem.
Marinette falou aquilo para se tranquilizar e para me tranquilizar também, mas ambos sabíamos que era mentira. Jess iria embora no final do mês, e isso era na próxima semana. Eles só teriam mais alguns dias pela frente antes da despedida.
Luka também se ajeitou no banco de madeira, se virando de lado, e Jess encaixou suas pernas sobre as coxas dele, praticamente se sentando no colo do namorado, porém com o quadril sobre o assento.
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Passion Fruit
Hayran KurguQue mal haveria em ficar de castigo logo no início das férias de verão...? Bem, era terrível. E a pior parte era viver sem meu cartão de crédito. Então fiz a única coisa que estava ao meu alcance: arrumei um emprego. Acontece que não era tão ruim as...
