Capítulo 11: Maior que a lua

466 65 448
                                        

Durante boa parte da noite, eu e Marinette nos sentamos no chão de madeira com dois de seus amigos, Nino e Alya, para jogar baralho. Claro que a brincadeira em si não era o foco, aquilo era só uma forma de distrair enquanto a gente conversava.

Descobri histórias interessantíssimas a respeito do passado dela. Por exemplo, Marinette era representante de turma e uma ótima aluna (não fiquei surpreso), só que tinha o péssimo hábito de chegar atrasada (fiquei chocado. Aquela era mesmo a chefinha?).

Mas então aconteceu uma coisa muita estranha: certa hora, quando Marinette estava prestes a lançar uma carta no jogo, ela hesitou com a mão suspensa no ar, a um palmo do piso. E Jess começou a cantar.

"The day we met. Frozen, I held my breath"*

Marinette deixou a carta no montinho e o jogo seguiu adiante; era a vez do Nino. Ela ainda fingia normalidade, mas eu tinha certeza de que algo estava errado. Os amigos dela pareciam alheios ao que acontecia.

— Você tá bem? — perguntei.

Ela levantou os olhos e me fitou diretamente. Como éramos uma dupla no jogo, estávamos sentados um de frente para o outro. Ela meneou a cabeça sutilmente em afirmativa. No entanto, algo de fato havia abalado seu coração, pois Marinette não mais sorria.

Não era a primeira música que ouvia Jess cantar naquela noite, mas a voz dela parecia diferente; estava mais romântica e densa ao mesmo tempo; mais sentimental. Como se já tivessem feito aquilo inúmeras vezes, Luka cantou sozinho toda a segunda parte e Jess focou no violão. Depois eles entraram juntos no refrão, olhando somente um para o outro, formando um uníssono perfeito.

Eles não cantavam para uma plateia ou para seus amigos. Jess e Luka cantavam um para o outro a mais sincera declaração de amor que eu já havia testemunhado. Ela pedia para ele não ter medo, e ele dizia que seria corajoso.

— Ei, é a sua vez — Alya me apressou com gentileza.

— Foi mal — desculpei-me e segui a brincadeira.

Então a música acabou e ficamos todos mergulhados em silêncio, e eu entendi de vez por que Mari estava tão ausente. Ela não estava abalada por nenhum motivo pessoal, estava preocupada com o Luka e a Jess.

Marinette pediu licença e se levantou do chão, caminhou até ele e retirou o violão preto das mãos do músico. Luka estava chorando. Mesmo distante, fui capaz de sentir sua angústia no meu próprio peito.

Brinquei com as cartas nas minhas mãos para disfarçar e olhei para lá novamente. Jess limpava as lágrimas do rosto do namorado. Logo em seguida ela se ajeitou no banco, repousando seu instrumento musical ao lado e sentando-se se virada para o rapaz.

Enquanto isso Marinette seguia até Juleka para lhe entregar o violão do irmão, num pedido silencioso para distrair a todos nós (e dar ao casal tempo e alguma privacidade). Tive a impressão de que não era a primeira vez que isso ocorria. Mesmo se fosse, Marinete, como sempre, parecia saber exatamente o que fazer para ajudar.

Quando Marinette retornou ao seu lugar no jogo, lhe ofereci um olhar de compreensão. Ela parecia entender e ficou agradecida pela minha gentileza.

— É a música deles — ela explicou. — Eles vão ficar bem.

Marinette falou aquilo para se tranquilizar e para me tranquilizar também, mas ambos sabíamos que era mentira. Jess iria embora no final do mês, e isso era na próxima semana. Eles só teriam mais alguns dias pela frente antes da despedida.

Luka também se ajeitou no banco de madeira, se virando de lado, e Jess encaixou suas pernas sobre as coxas dele, praticamente se sentando no colo do namorado, porém com o quadril sobre o assento.

Passion FruitHistórias para pegar e não largar. Descubra agora