Raissa Romanov
Acordei desorientada, sentindo braços fortes envolvendo minha cintura. Lembrei‑me da noite anterior: Dimitri fora intenso, mas não havia sido rude - pelo contrário, teve momentos de carinho que me deixaram confusa. Mesmo assim, eu me sentia invadida; estar tão próxima de alguém que eu mal conhecia era desconcertante.
Estávamos de conchinha. Senti sua respiração no meu pescoço e tentei levantar devagar, mas ele apertou um pouco mais, como se quisesse manter aquele instante.
- Dimitri... acorde - sussurrei.
Ele abriu os olhos e resmungou, meio sonolento.
- O que foi, Raissa?
- Preciso ir ao banheiro - respondi. Ele fez uma careta, mas acabou soltando minha cintura.
Fui ao banheiro enrolada num robe e deixei‑o no chão. Tomei um banho demorado, tentando expulsar o nó no peito. Quando saí do box, senti as mãos dele na minha cintura e me assustei. Afastei‑me instintivamente; ele chamou‑me de volta, de um jeito firme, mas sem agressividade.
- Fique - disse ele. - Não me teste, entendeu?
Hesitei e apenas abaixei a cabeça. Ele segurou meu rosto com delicadeza e pediu que eu repetisse em voz alta, para que ficasse claro.
- Eu entendi - falei.
Com cuidado, passou uma esponja com sabonete e lavou meu cabelo; o gesto tinha algo de íntimo e, ao mesmo tempo, de posse. Depois pediu, educadamente, que eu o ajudasse com o mesmo - um pedido que cumpri, meio sem graça.
Saímos do banheiro e ele escolheu meu look entre as malas ainda fechadas. Pegou um vestido e uma sandália com naturalidade, e me indicou uma cadeira.
Enquanto penteava meu cabelo, deu uma ordem curta:
- Não prenda os cabelos sem me avisar.
Era mais uma regra do que um pedido. Senti como se não tivesse direito nem às pequenas escolhas do meu corpo.
Uma camareira entrou com um carrinho de café da manhã. Dimitri solicitou que eu arrumasse a mesa da sacada para tomarmos juntos. Fiz como me pedira, sem protestar, e levei o carrinho para o corredor após ajeitar tudo. Ele permaneceu mexendo no celular; eu sentei e comecei a comer devagar.
O silêncio entre nós era pesado. Ele parou de teclar e também pegou algo para si. A intimidade forçada daquele gesto simples - comer diante dele, partilhar o mesmo ar - era desconfortável. Eu imaginava se um dia me acostumaria com essa presença constante.
Queria ir ao Dubai Mall - sempre sonhei em ver aquilo de perto - mas não ousei pedir de início. Quando enfim reuni coragem, senti meu rosto corar; talvez por vergonha, talvez por medo de parecer infantil.
- O que quer? - perguntou ele, olhando direto para mim. Tive a impressão de que podia ouvir o som do meu próprio rosto corando.
- Eu... queria ir ao Dubai Mall - respondi, timidamente.
- Vou te levar - disse ele, surpreendendo‑me.
- Sério? - perguntei, descrente.
- Sim. Aproveite e compre uma roupa. À noite teremos um leilão - avisou. - Compre algo que goste.
Durante um instante, senti uma ponta de normalidade. Mesmo que tudo à minha volta fosse controle, ordens e expectativas, havia momentos em que ele oferecia pequenas concessões. Talvez fosse manipulação; talvez fosse a única gentileza que me era permitida. Ainda assim, prometi a mim mesma aproveitar aquele pequeno respiro.
