Duas semanas depois
Voltamos para a Rússia ontem.
Essas semanas foram, de certa forma, boas. Dimitri não foi rude - pelo menos não como eu imaginava. Era atencioso à maneira dele, sempre controlado, sempre intenso. Nada era simples ao lado de Dimitri, mas também não era brutal o tempo todo.
Conheci toda a mansão. É enorme, quase sufocante. Os corredores parecem não ter fim, e cada sala carrega uma sensação de poder e silêncio. A biblioteca foi, sem dúvida, o lugar que mais me encantou. Era o único espaço onde eu conseguia respirar.
Dimitri trabalhava demais. Passava o dia inteiro na empresa, mas fazia questão de mandar o motorista me levar até lá só para me "ver". Não era cuidado - era vigilância disfarçada.
Meu pai me ligou.
Disse que precisava falar comigo.
Neguei.
Não quero contato algum com ele. Meu pai se mostrou uma pessoa horrível, e não desejo aproximação. Dimitri também não quer. Pela primeira vez, concordamos em algo.
Eu sabia que era fértil. Dimitri também.
A gravidez viria rápido.
Quando sugeri tomar algum remédio, tudo saiu do controle.
Ele se transformou.
Dimitri me segurou pelo pescoço por alguns segundos - poucos, mas suficientes para me marcar por dentro. Disse que eu não queria um filho com ele. Seus olhos estavam frios, irreconhecíveis.
Depois, simplesmente... voltou ao normal.
Não pediu desculpas.
Apenas disse que teríamos um filho o mais rápido possível.
E que aquilo não era uma opção para mim.
No dia seguinte, me deu um colar de rubi.
Como se pudesse me machucar e depois resolver tudo com um presente caro.
Ele estava enganado. Muito enganado.
Mesmo com esse casamento tendo começado da pior forma possível, eu não aceitaria agressões. Ainda não estava bem com Dimitri, mas precisava fingir. Minha ideia inicial sempre foi fugir.
Agora, eu precisava de um plano.
Não podia tentar escapar sem sucesso.
Isso seria minha sentença de morte.
Alguns dias depois, comecei a perceber que algo estava errado.
O cheiro do café me embrulhava o estômago. A comida parecia sem gosto. Tonturas vinham do nada.
No começo, tentei ignorar.
Mas eu sabia.
Tranquei-me no banheiro logo cedo, antes que qualquer empregada aparecesse. Minhas mãos tremiam enquanto segurava o teste de gravidez que havia conseguido esconder.
Duas linhas.
Meu coração disparou.
Grávida.
Sentei no chão frio do banheiro, abraçando os joelhos. Não chorei. Apenas encarei o nada. Dentro de mim, não crescia apenas uma criança - crescia um laço definitivo com Dimitri.
Uma prisão viva.
Não contei naquele dia. Nem no seguinte.
Almoçava sozinha quando Felipa me servia. Dimitri não permitia que eu fizesse coisas simples sozinha - para ele, eu era incapaz, frágil demais para tudo.
Felipa parecia me odiar. Não fazia questão de esconder. Fez questão de jogar na minha cara que já havia transado com Dimitri.
Se surgisse uma ex rancorosa por dia, eu enlouqueceria.
Para minha surpresa, Dimitri apareceu e se sentou à mesa.
- Sirva-me - ordenou a Felipa, logo após ela me servir.
- Por que veio almoçar? - perguntei.
- Quanta consideração, querida esposa - respondeu com ironia. - Saí mais cedo hoje.
- Tudo bem.
Terminamos a refeição em silêncio.
Depois, Dimitri foi para o escritório.
Eu fui para o ateliê de pintura.
Algum tempo depois, uma empregada - amiga de Felipa - entrou sem bater.
- O senhor Romanov está chamando a senhora no escritório.
Ela saiu.
Lavei as mãos sujas de tinta e segui até lá.
Abri a porta sem bater.
E congelei.
Felipa estava sentada no colo de Dimitri.
- Ah, senhor... - ela gemeu, antes de me notar.
- Dimitri? - minha voz saiu fraca.
Ele a empurrou do colo. Felipa caiu sentada no chão, mas ainda assim me lançou um sorriso venenoso, de cobra.
Saí dali sem dizer mais nada.
Mais tarde, apenas deixei claro: se ele quisesse me trair, que fosse discreto.
Mas não.
Ele mantinha um caso com uma empregada dentro da própria mansão.
Tranquei-me no quarto e fui tomar um banho, tentando lavar algo que não estava na pele.
Foi ali, sozinha, com a água escorrendo pelo meu corpo, que entendi a verdade completa.
Eu estava grávida.
De um homem capaz de me machucar...
e de me destruir, se eu errasse.
Coloquei a mão sobre o ventre ainda plano.
Se Dimitri já era perigoso antes, agora seria pior.
E eu precisava sobreviver.
Por mim...
e pelo filho que crescia dentro de mim.
