Estávamos no shopping. Já tinha comprado meu vestido; escolhi um preto elegante, sem decote, discreto, como Dimitri gostava. Passeávamos como se fôssemos um casal comum, mas eu sabia que aquilo era só uma ilusão: ele era meu carcereiro, e tudo no meu mundo estava sob controle dele.
A noite do leilão estava agradável, e Dimitri estava concentrado nos lances. Uma de suas mãos repousava em minha perna, apertando levemente de tempos em tempos, demonstrando atenção, mas também seu controle constante.
O leilão começou, e a primeira peça apresentada era um quadro com lance inicial de 20 milhões de dólares. Dimitri parecia absorvido no evento, avaliando cada detalhe, cada lance possível.
- Minha bela esposa, se se interessar por algo, me avise que eu irei comprar para você - disse ele de repente, sua voz baixa e firme.
Sorri levemente, surpresa, enquanto ele se afastava um pouco para falar com um dos organizadores do leilão, me deixando momentaneamente sozinha. Foi nesse instante que percebi um homem se aproximando.
Ele era desconhecido para mim, mas tinha um olhar intenso, sério, e parecia calcular cada passo. Quando se aproximou, fez um leve gesto de cumprimento.
- Raissa? - disse ele, a voz baixa, quase urgente.
- Sim... posso ajudá-lo? - respondi, desconfiada, franzindo o cenho. - Não me lembro de ter visto você antes.
- Meu nome é Thomas - disse ele, aproximando-se discretamente, para que ninguém ouvisse. - Preciso que me escute. É importante.
Um arrepio percorreu minha espinha, mas continuei ouvindo.
- Thomas... e o que isso tem a ver comigo? - perguntei, tentando manter a calma, mesmo sentindo uma tensão crescente.
- Eu sei que Dimitri parece perfeito, mas... ele tem um caso. Com a minha irmã. - As palavras dele caíram como um golpe inesperado. Meu coração disparou. - Eu o observei, sei o que está acontecendo. Ele planeja te trair, Raissa.
Olhei para Dimitri, que ainda estava a alguns metros de distância, conversando com os organizadores do leilão, completamente alheio ao que Thomas me dizia. A incredulidade e o medo se misturaram dentro de mim.
- Como posso saber que está falando a verdade? - sussurrei, olhando para ele, meu coração batendo mais rápido.
- Olhe ao seu redor - Thomas disse baixinho, a expressão séria. - Não confie em tudo que parece perfeito. Ele vai te enganar se você não estiver atenta.
Dimitri se aproximou novamente naquele momento, me chamando de volta para perto de si. Meu corpo tremeu, mas forcei um sorriso. Thomas apenas fez um leve gesto de despedida e desapareceu entre a multidão, deixando-me com uma dúvida que me corroía por dentro.
E naquele instante, percebi que meu mundo, que eu acreditava estar seguro ao lado dele, podia ser mais perigoso do que jamais imaginei.
Após o leilão, Dimitri me conduziu de volta para o carro. A tensão que eu sentia era palpável. Thomas ainda pairava em minha mente, suas palavras ecoando em meus ouvidos. "Dimitri tem um caso com minha irmã... ele planeja te trair."
Eu não conseguia afastar aquele pensamento. A cada passo que dava ao lado dele, o sorriso sedutor e confiante de Dimitri parecia esconder algo mais profundo. Algo sombrio. O homem que eu chamava de marido, que sempre esteve ao meu lado, poderia ser capaz de mentir de uma forma tão calculista.
Quando entramos no carro, ele se recostou no banco e me olhou, com um sorriso sutil, mas nada sincero. Ele tinha o poder de fazer com que eu me sentisse especial, e ao mesmo tempo, me sentia como uma prisioneira em sua rede.
- Como foi o leilão para você? - ele perguntou, os olhos fixos em mim, esperando a resposta usual.
Eu respirei fundo, tentando acalmar meu coração que estava acelerado. A voz de Thomas ainda ressoava na minha mente, mas eu sabia que precisava ser cautelosa. Não podia simplesmente acusá-lo sem provas. Não sem saber o que ele responderia. Mas algo em mim não aguentava mais a dúvida.
- Dimitri... - comecei, a voz trêmula.
Ele me olhou com curiosidade, como se a mudança na minha atitude fosse óbvia.
- Você estava muito distante de mim hoje... - Eu estava tentando ser indireta, mas a frustração já começava a transparecer. - Eu notei.
Dimitri arqueou uma sobrancelha, como se a acusação fosse absurda.
- O que está insinuando, Raissa? - Ele parecia um pouco desconcertado, mas ao mesmo tempo tranquilo, como sempre.
Eu não sabia se poderia confiar nas minhas palavras. O que Thomas me disse me deixava confusa, mas a imagem de Dimitri, o homem que sempre fui ensinada a temer e amar, me fazia hesitar.
- Eu não estou insinuando nada... Só estou perguntando. - Eu olhei para ele com sinceridade, tentando medir sua reação. Ele estava calmo demais. Será que ele sabia o que eu estava tentando fazer? - Dimitri, você é meu marido. E isso significa que tenho o direito de saber o que acontece com você.
Havia um leve sorriso no canto dos seus lábios. Ele sempre gostava de me ver incerta, de me fazer questionar minhas próprias palavras. Era como um jogo, e eu sentia que ele jogava muito melhor do que eu.
- Eu sempre fui transparente com você, Raissa. O que há para saber? - A resposta dele foi rápida, mas seu olhar era afiado. Ele estava me testando, eu sabia.
Olhei para ele, tentando ler seus olhos. Ele sabia como esconder suas intenções. Eu nunca soubera se ele realmente me amava, ou se eu era apenas um instrumento para ele. Mas o que Thomas disse agora me fazia questionar tudo o que havia acreditado.
- Eu ouvi algo hoje, Dimitri. Algo que me deixou... desconfortável. - Eu dei um passo à frente, meu olhar fixo no dele, desafiador. - Alguém me disse que você tem um caso.
Ele se manteve em silêncio por um momento, apenas me observando. A tensão no ar era densa, e eu podia ouvir meu coração batendo rápido, quase como se fosse um sinal de alerta.
- O que você ouviu? - Ele perguntou, agora mais sério, mas ainda mantendo a calma.
- Não importa o que eu ouvi. O que importa é o que você tem a dizer. - Eu estava sendo direta agora, as palavras saindo de minha boca como uma lâmina afiada.
Ele me olhou, um sorriso sutil começando a se formar. Era um sorriso que eu conhecia bem. O sorriso de quem sabia que tinha o controle. Mas, ao mesmo tempo, havia algo nos seus olhos, uma sombra que eu não conseguia compreender.
- Raissa, você sabe como as pessoas podem inventar coisas. - Dimitri se inclinou para frente, a mão sobre a minha, com uma calma inquietante. - Eu não sou o homem que você pensa. Não sou o homem que você teme. Eu sou seu marido.
Eu puxei a mão dele com força, o olhar fixo no seu.
- Então me explique. - Minha voz saiu baixa, mas firme. - Se você tem algo a dizer, diga. Porque se você mentir para mim, Dimitri, vou fazer com que você pague por isso. Eu não sou mais a mesma mulher de antes.
Ele permaneceu calado por alguns segundos, os olhos observando cada detalhe do meu rosto, como se estivesse analisando uma decisão crucial. Eu podia sentir que ele estava mentindo. O silêncio de Dimitri era sempre uma confissão disfarçada.
Então, finalmente, ele falou, a voz suave, mas cortante:
- Não importa o que você ouviu, Raissa. Eu nunca te traírei. Não dessa forma. - Ele sorriu de novo, mas agora de maneira fria. - Você sempre foi a única mulher para mim. Não se preocupe com as mentiras dos outros. Não existe ninguém mais que eu ame.
Eu o encarei, sem saber se deveria acreditar nas palavras dele. Sabia que a mentira era uma arma que Dimitri sabia usar com maestria. Mas algo dentro de mim ainda queria acreditar.
Ele pegou minha mão de volta, a expressão suavizando, e me puxou para mais perto.
- Eu vou te proteger, Raissa. Nunca mais duvide disso.
O cheiro de seu perfume invadiu minhas narinas, e por um instante, fechei os olhos. Eu queria acreditar nele, mas havia uma sombra em meu peito que não se dissipava. Algo estava prestes a mudar, e eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a verdade viria à tona.
