Dimitri
Hoje, Helena e Andrei completavam três meses de vida.
Raissa havia superado o trauma. Tornou‑se uma mãe exemplar - presente, atenta, carinhosa. Ver isso em silêncio me trazia uma satisfação que eu jamais admitiria em voz alta.
Ontem, durante uma reunião da Máfia, exigiram a morte dela.
Disseram que, apesar de Raissa ter me dado um herdeiro homem, ela não poderia ter tido uma menina. Cinco homens ousaram dizer isso olhando nos meus olhos.
Cinco homens morreram naquela mesma noite.
Os outros entenderam o recado.
Nada educa mais rápido do que o medo.
Raissa era a mulher mais invejada - tanto no mundo da Máfia quanto na alta sociedade. Tinha tudo: poder, luxo, proteção. Ainda assim, permanecia doce, caridosa, humana. Uma combinação rara... e perigosa.
Com a aproximação do Natal, ela pediu para enfeitar a casa. Disse que sempre sonhou com isso, mas Ivan a proibia - chamava de desperdício, de bobagem sentimental.
Eu deixei.
Do meu escritório, acompanhava tudo pelas câmeras. Os empregados decoravam o jardim, enquanto Raissa organizava a enorme árvore de Natal no centro da sala. Ela fazia questão de colocar cada enfeite com as próprias mãos.
Minha vida parecia perfeita.
Meu casamento estava estável. Raissa não questionava, não desobedecia, não criava conflitos. Era uma excelente mãe para Andrei... e para Helena.
Ainda assim, algo me incomodava.
Eu raramente sentia insegurança. Medo, então, quase nunca. Mas nos últimos dias, essa sensação vinha me rondando como uma sombra silenciosa.
Dobrei o número de seguranças da mansão.
Na Máfia, todos sabiam:
a prioridade absoluta era Raissa e meus filhos.
Assinava os últimos documentos da minha nova aquisição - um resort. Seria útil no futuro. Para eles.
Batidas na porta.
- Entre.
Tamara surgiu.
Uma das minhas antigas amantes.
- O que faz aqui, Tamara? - perguntei, sem paciência.
- Tenho algo importante para te contar.
Ela se sentou à minha frente com naturalidade demais.
- Como você sabe, eu sou acompanhante de luxo.
- Veio me lembrar que é prostituta? Isso eu já sei.
- Se deixar eu terminar...
Levantei o olhar. Ela continuou.
- Ontem transei com um homem estranho. E você sabe... eu costumo roubar meus clientes.
Ela sorriu.
- Continue.
- Na carteira dele havia um brasão dos MecNel.
Senti o sangue ferver.
- Está me dizendo que tem um desgraçado dessa gangue no meu território?
Os MecNel eram lixo. Uma gangue pequena, mas perigosa. Ex‑soldados, ex‑mafiosos. Homens treinados, sem honra.
- Não é só isso - ela disse. - Havia uma foto da sua mulher na carteira dele.
O mundo ficou vermelho.
Tamara Bernardi
Talvez não tenha sido prudente avisá‑lo.
Muitos me chamam de puta. E daí? Só ajo como homens sempre agiram. Gosto de vários - menos de casados.
Avisei Dimitri porque sei o que Raissa significa para ele. Não é inveja. É instinto de sobrevivência.
- Você sabe que eu sei me defender - disse. - Fiz testes para soldado da Máfia. Só não entrei porque preferi ser acompanhante de luxo.
- Deixe‑me proteger sua mulher e seus filhos.
Ele me observava em silêncio.
- Se os MecNel estão no território da Máfia Russa, eles estão planejando algo.
Dimitri suspirou fundo.
- Sei disso. Só vou aceitar porque você é boa no que faz.
- Começa amanhã. Vai morar na ala dos empregados.
Sorri.
Perigo sempre foi meu vício favorito.
E se for preciso...
dou a minha vida para proteger Raissa Romanov.
