Raissa Romanov
O piloto avisou que pousaríamos em poucos minutos.
Ficamos as poltronas do jatinho em silêncio. Passei a viagem quase inteira no compartimento da suíte, tentando dormir, mas a cabeça não me deixava. Pensei no que Dimitri faria com meu pai — ele dissera que iria “retirá‑lo do jogo”. Eu queria acreditar que expulsá‑lo da rede seria melhor do que algo pior: Ivan vinha se metendo com gente perigosa e precisava pagar de alguma forma pelas escolhas que fez.
Durante a viagem Dimitri mantinha‑se próximo a mim; parecíamos um casal comum — ao menos por fora. Quando o avião pousou, desembarcamos de mãos dadas. Como viajamos à noite, já passava das sete da manhã.
Caminhamos até um carro que nos esperava. Um homem saiu do veículo para abrir a porta; Dimitri me ajudou a entrar. Seguimos até o Burj Al Arab — um dos hotéis mais luxuosos de Dubai. Pela janela, vi repórteres e flashes; ele é uma figura pública e, aparentemente, tinha planos maiores do que queria admitir no momento.
Ao entrar no hotel, um cordão de segurança nos escoltou. Respirei fundo: pelo menos ali poderíamos ficar em paz por alguns instantes. Fomos rapidamente encaminhados para a suíte. Era enorme, com vista para o mar e detalhes que lembravam palácios.
Dimitri: — Tome um banho e vista algo leve. Vou mandar alguém trazer algo para você comer.
As roupas já estavam organizadas no closet; peguei uma camisola e fui ao banheiro. Não quis trocar na frente dele. Mesmo que, em pouco tempo, eu me tornasse “sua”, havia limites que ainda eram meus por direito. Tomei um banho longo, tentando ganhar tempo — talvez para pensar, talvez para ter um momento só meu.
Quando saí, sequei o cabelo à pressa e fui até a penteadeira. Antes que pudesse me acomodar, Dimitri entrou empurrando um carrinho com comida. Não havia ameaças verbais — apenas uma ordem.
Dimitri: — Não tente sair do quarto agora.
A frase soou mais como controle do que como proteção. Pensei no meu pai, naquele homem que, ao mesmo tempo em que me orgulhou no passado, agora parecia ter se transformado em outra pessoa. Se negasse Dimitri, meu pai poderia ficar mais exposto; se o ajudasse, perderia a mim mesma. Era uma equação sem saída.
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Dimitri (narrando)
A viagem foi curta — não havia tempo a perder. Tinha assuntos urgentes em Dubai: uma ameaça havia chegado às minhas mãos, vinda de alguém ligado à filial local. Não iria permitir que uma provocação se transformasse em um problema para o meu grupo; o lugar pedia que eu tratasse do assunto pessoalmente.
Enquanto isso, Raissa precisava estar calma. Ordenei que a equipe do hotel cuidasse para que ela repousasse e comesse algo nutritivo. Instalei câmeras discretas na suíte — não por malícia gratuita, mas para garantir que nada acontecesse com ela durante minha ausência. A segurança, em nosso mundo, também é controle.
Recebi então uma ligação de um homem chamado Carter, um contato local que estava sendo pressionado. Ele implorou por liberdade para sua família. Confrontei‑o com frieza:
Carter: — Senhor, eu juro que não fui eu. Foi Ivan Vassiliev quem me procurou. Ele disse que poderíamos tramar uma saída para o senhor, e tentou me cooptar para trair o senhor. Quando recusei, ele me ameaçou.
Ouvir que Ivan vinha costurando uma manobra nas sombras acendeu todas as luzes dentro de mim. Perguntei qual era o plano.
Carter: — Eles… acreditavam que, com um herdeiro, teriam chance de tomar o controle quando algo acontecesse com o senhor. Era uma estratégia para garantir influência e depois manipular a tutela. Não sei nomes completos, só lembro de um tal Adam, um francês, que aparecia nas conversas. Eles falavam em “herdeiro” como se fosse a peça final.
Congelei com as informações soltas; não havia material para acusações públicas, apenas fragmentos. Não gosto de decisões precipitadas.
Dimitri: — Você não será descartado, Carter. Continue com a sua rotina, me mantenha informado e corte qualquer ligação que possa comprometer a sua família. Se perceber algo novo, me avise imediatamente.
Minha resposta não era misericórdia; era negociação estratégica. Não vou alimentar boatos nem transformar acusações em execuções sumárias. Meu objetivo era neutralizar o plano de Ivan — minar sua influência, impedir que conseguisse apoio e deixar claro que ninguém move peças escondidas contra mim sem pagar um preço político alto. Expulsões, perda de credibilidade, exposição interna — essas eram as ferramentas que eu preferia usar agora.
