Raissa
Eu estava no belo jardim da mansão tomando chá, um costume que criei para tentar manter a sanidade.
Eu já estava cansada daquela casa.
Ela era enorme, silenciosa demais, e eu não tinha ninguém para conversar.
Dimitri estava trancado em seu escritório, trabalhando. Sempre trabalhando.
Eu não poderia trabalhar, não poderia estudar, não poderia fazer nada.
Viveria ali como um móvel caro - presente, bonito... inútil.
Enquanto retirava alguns galhos secos das flores, senti mãos grandes envolverem minha cintura. Meu corpo enrijeceu no mesmo instante. Eu já sabia quem era.
- Dimitri... - murmurei.
- Hum, minha esposinha - disse ele, próximo ao meu ouvido. - Por que está triste?
Não sei como, mas ele conseguia me "ler" com facilidade demais.
- Estou cansada de ficar em casa - confessei.
- Entenda que agora você é uma mulher casada - respondeu. - Não pode ficar perambulando por aí.
- Não é como se eu fosse te trair - rebati, cansada daquela prisão.
O tom dele mudou imediatamente.
- Não repita essa palavra - advertiu. - Você jamais irá me trair. Eu não permito.
Engoli em seco.
- O que custa me deixar sair? - insisti. - Eu só queria dar um passeio.
- Calada, Raissa - disse friamente. - Você ainda não se mostrou uma esposa obediente.
- Eu não vou fugir de você - falei, quase num sussurro.
Ele soltou um riso baixo, sem humor.
- Eu sei que vai, Raissa. Eu sei que vai. Na primeira oportunidade que tiver.
- Eu...
- Calada. Não tente mentir.
Fiquei quieta. Abaixei a cabeça e não o enfrentei.
- Vamos ao meu escritório, baby - disse, segurando minha mão. - Temos um assunto sério para conversar.
Ele me conduziu para dentro da casa. Ao chegarmos ao escritório, Dimitri se sentou em sua cadeira, e eu me sentei à sua frente.
- Seu pai nunca te amou, Raissa - disse, direto.
Levantei o olhar, assustada.
- O quê? Mas...
- Seu pai é um doente - interrompeu. - Você nasceu para fazer parte de um plano.
- Eu não estou entendendo, Dimitri...
- Ivan pretendia te sequestrar depois que você desse à luz ao nosso futuro filho - explicou. - Ele só queria poder. Sempre foi assim.
Meu peito apertou.
- Ele tentou destruir sua mãe - continuou. - Fez coisas inimagináveis.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
- É mentira - neguei, a voz trêmula.
- Não é, Raissa - disse com firmeza. - Só estou te avisando porque, assim que colocar minhas mãos nele, eu vou matá-lo.
- Não... por favor... - supliquei. - Eu não estou bem...
Dimitri me mostrou provas. Fotos, documentos, coisas que meu pai havia feito.
Nada daquilo parecia real.
Ele me levantou pelo braço e me obrigou a encará-lo.
- Seu pai nunca te amou - disse, olhando dentro dos meus olhos. - Você só tem a mim, Raissa.
Chorei como nunca.
Meu pai não podia ser aquele monstro.
Eu sabia de todo o mal que ele havia me feito, mas aceitar aquilo era... devastador.
- Isso... isso é confuso... - murmurei entre soluços.
- Pare... - implorei. - Eu não aguento mais...
- Shhh... - Dimitri suavizou o tom. - Venha. Vou te levar ao nosso quarto, meu anjo.
Ele me pegou no colo com facilidade e me levou até o quarto. Deitou-me na cama e alisou meus cabelos lentamente.
- Eu sempre vou te proteger - disse. - Você conseguiu quebrar algumas barreiras comigo.
Fechei os olhos, exausta.
Sem perceber, eu já não sabia mais onde terminava o medo...
e onde começava a dependência.
