Dimitri
Era um jogo sujo.
Sempre fora.
Eu me vingaria de Ivan sem hesitar, mas havia algo ainda mais forte me movendo: a necessidade de ter Raissa completamente ao meu lado. Não apenas como esposa, mas como alguém que confiasse em mim acima de qualquer outro.
Contei a ela tudo o que sabia sobre o pai.
Cada detalhe era calculado.
Ela precisava entender que, naquele mundo cruel, eu era o único porto seguro que possuía.
Raissa parecia mais calma. Pedi que uma empregada trouxesse um suco para ajudá-la a relaxar.
Eu sabia que meus métodos eram questionáveis.
Sabia que não era um homem bom.
Mas Raissa despertava em mim algo perigoso.
Um fogo silencioso, constante, impossível de apagar.
Não queria machucá-la.
Queria protegê-la.
Queria colocá-la acima de tudo, como uma rainha - mesmo que isso significasse isolá-la do resto do mundo.
- Dimitri? - ela chamou, a voz baixa, quase receosa.
- O que foi, minha pequena?
Ela hesitou antes de falar.
- Você... você gosta de mim?
A pergunta era simples, quase infantil.
Ainda assim, me atingiu com força.
- Gosto, Raissa - respondi com firmeza. - Gosto mais do que deveria.
Ela me observou em silêncio, como se tentasse decifrar minhas palavras.
- Eu não quero que você machuque ninguém - disse, por fim. - Só quero que me conte tudo o que sabe sobre o meu pai.
Suspirei lentamente.
Era verdade: eu nunca havia contado tudo. Parte de mim queria poupá-la, outra parte queria usá-la para mantê-la perto.
- Seu pai é obcecado por poder - comecei. - Ele é inteligente, estratégico... mas incapaz de amar. Para ele, pessoas são apenas peças descartáveis.
Raissa respirou fundo, apertando as mãos sobre o colo.
- Continua.
- O plano dele sempre foi usar uma filha para se aproximar de alguém influente. Um casamento bem calculado... e depois o descarte.
Ela engoliu em seco.
- Ele tem outras filhas - continuei. - Oito. Todas de mães diferentes. Naquela festa, ele armou tudo para que eu escolhesse uma delas como esposa. Você não era a única opção.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
- Então... meu pai é um monstro? - perguntou, a voz frágil.
- Pelo que descobri... sim.
Raissa levou a mão ao ventre, assustada.
- Dimitri... se eu estiver grávida... ele faria algo contra o nosso bebê?
Meu corpo inteiro se retesou.
- Enquanto você estiver comigo, ninguém vai encostar em você - respondi com frieza. - Muito menos no que é nosso.
Ela respirou fundo, claramente abalada.
- Você sempre soube dos planos dele?
- Tive certeza na nossa lua de mel. Mas já desconfiava antes.
- São muitas coisas... - murmurou. - Eu não sei o que pensar.
Aproximei-me e segurei seu rosto com cuidado, obrigando-a a me encarar.
Raissa não sentia ódio do pai - apenas uma dor profunda, silenciosa.
Ela era boa demais.
Ingênua demais para entender a crueldade daquele homem.
Beijei seus lábios com intensidade, tentando ancorá-la em mim.
Eu precisava que ela ficasse.
Precisava que confiasse.
- Agora me diga - falei em tom baixo. - Você entende que pode contar comigo?
- Dimitri... - suspirou. - As coisas não são tão simples. Eu não posso dizer que só tenho você.
Meu maxilar se contraiu.
- Pense bem, Raissa - disse, controlando a voz. - Quem da sua família realmente esteve ao seu lado? Quem te protegeria se você precisasse?
Ela permaneceu em silêncio.
- Eu não quero te machucar - continuei. - Mas preciso que você enxergue a realidade. Fora daqui, você estaria vulnerável.
As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
- Você só me faz sentir pior... - confessou. - Está me machucando por dentro.
Afastei-me lentamente, dando-lhe espaço.
- Vou te deixar sozinha para pensar - falei por fim. - Apenas reflita com calma. Tudo o que faço é para te manter protegida.
Saí do quarto sem olhar para trás.
Raissa ainda não percebia, mas cedo ou tarde entenderia:
o mundo lá fora não era gentil.
E eu não permitiria que ela enfrentasse isso sozinha.
