XIX(Revisado)

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Dimitri

Era um jogo sujo.
Sempre fora.

Eu me vingaria de Ivan sem hesitar, mas havia algo ainda mais forte me movendo: a necessidade de ter Raissa completamente ao meu lado. Não apenas como esposa, mas como alguém que confiasse em mim acima de qualquer outro.

Contei a ela tudo o que sabia sobre o pai.
Cada detalhe era calculado.
Ela precisava entender que, naquele mundo cruel, eu era o único porto seguro que possuía.

Raissa parecia mais calma. Pedi que uma empregada trouxesse um suco para ajudá-la a relaxar.
Eu sabia que meus métodos eram questionáveis.
Sabia que não era um homem bom.

Mas Raissa despertava em mim algo perigoso.
Um fogo silencioso, constante, impossível de apagar.

Não queria machucá-la.
Queria protegê-la.
Queria colocá-la acima de tudo, como uma rainha - mesmo que isso significasse isolá-la do resto do mundo.

- Dimitri? - ela chamou, a voz baixa, quase receosa.

- O que foi, minha pequena?

Ela hesitou antes de falar.

- Você... você gosta de mim?

A pergunta era simples, quase infantil.
Ainda assim, me atingiu com força.

- Gosto, Raissa - respondi com firmeza. - Gosto mais do que deveria.

Ela me observou em silêncio, como se tentasse decifrar minhas palavras.

- Eu não quero que você machuque ninguém - disse, por fim. - Só quero que me conte tudo o que sabe sobre o meu pai.

Suspirei lentamente.
Era verdade: eu nunca havia contado tudo. Parte de mim queria poupá-la, outra parte queria usá-la para mantê-la perto.

- Seu pai é obcecado por poder - comecei. - Ele é inteligente, estratégico... mas incapaz de amar. Para ele, pessoas são apenas peças descartáveis.

Raissa respirou fundo, apertando as mãos sobre o colo.

- Continua.

- O plano dele sempre foi usar uma filha para se aproximar de alguém influente. Um casamento bem calculado... e depois o descarte.

Ela engoliu em seco.

- Ele tem outras filhas - continuei. - Oito. Todas de mães diferentes. Naquela festa, ele armou tudo para que eu escolhesse uma delas como esposa. Você não era a única opção.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

- Então... meu pai é um monstro? - perguntou, a voz frágil.

- Pelo que descobri... sim.

Raissa levou a mão ao ventre, assustada.

- Dimitri... se eu estiver grávida... ele faria algo contra o nosso bebê?

Meu corpo inteiro se retesou.

- Enquanto você estiver comigo, ninguém vai encostar em você - respondi com frieza. - Muito menos no que é nosso.

Ela respirou fundo, claramente abalada.

- Você sempre soube dos planos dele?

- Tive certeza na nossa lua de mel. Mas já desconfiava antes.

- São muitas coisas... - murmurou. - Eu não sei o que pensar.

Aproximei-me e segurei seu rosto com cuidado, obrigando-a a me encarar.
Raissa não sentia ódio do pai - apenas uma dor profunda, silenciosa.

Ela era boa demais.
Ingênua demais para entender a crueldade daquele homem.

Beijei seus lábios com intensidade, tentando ancorá-la em mim.
Eu precisava que ela ficasse.
Precisava que confiasse.

- Agora me diga - falei em tom baixo. - Você entende que pode contar comigo?

- Dimitri... - suspirou. - As coisas não são tão simples. Eu não posso dizer que só tenho você.

Meu maxilar se contraiu.

- Pense bem, Raissa - disse, controlando a voz. - Quem da sua família realmente esteve ao seu lado? Quem te protegeria se você precisasse?

Ela permaneceu em silêncio.

- Eu não quero te machucar - continuei. - Mas preciso que você enxergue a realidade. Fora daqui, você estaria vulnerável.

As lágrimas escorreram pelo rosto dela.

- Você só me faz sentir pior... - confessou. - Está me machucando por dentro.

Afastei-me lentamente, dando-lhe espaço.

- Vou te deixar sozinha para pensar - falei por fim. - Apenas reflita com calma. Tudo o que faço é para te manter protegida.

Saí do quarto sem olhar para trás.

Raissa ainda não percebia, mas cedo ou tarde entenderia:
o mundo lá fora não era gentil.
E eu não permitiria que ela enfrentasse isso sozinha.

Império RussoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora