Por Noah Cooper
Existe um silêncio estranho quando um homem volta da guerra. As pessoas imaginam que ele sente alívio. Eu também imaginei. Durante anos, contei os dias para voltar.
Imaginei o cheiro da carne na churrasqueira do tio Edu, as broncas da Celeste por eu chegar mais magro do que fui embora, a risada da Olie ecoando pela casa, Alex reclamando de alguma coisa sem importância.
Sonhei tantas vezes com esse momento que, quando finalmente aconteceu, não consegui sentir nada.
Só medo.
Porque a guerra deixa uma marca cruel.
Ela ensina que tudo pode mudar enquanto você está longe. O avião pousou pouco antes do meio-dia.
Nova York continuava exatamente como eu me lembrava.
As ruas movimentadas.
As buzinas impacientes.
Os prédios gigantescos parecendo tocar o céu.
Era estranho perceber que uma cidade inteira continuava vivendo enquanto, do outro lado do mundo, homens morriam todos os dias.
— Está pensando demais.
A voz do Alex interrompeu meus pensamentos. Olhei para ele. O braço esquerdo permanecia preso à tipoia.
O tiro atravessou o ombro sem atingir estruturas vitais. Os médicos chamavam aquilo de sorte. Nenhum de nós teve coragem de concordar. Sorte teria sido o Mathews sentado ao nosso lado naquele voo.
...
O carro dobrou a esquina da rua onde crescemos.
Meu coração desacelerou. Depois acelerou de novo. A casa estava exatamente como eu lembrava. A varanda branca.
O balanço que o tio Edu insistia em reformar todo verão e agora era a diversão favorita do pequeno Thomy. As hortênsias que Celeste cuidava como se fossem parte da família.
E, no quintal...
A fumaça da churrasqueira subindo preguiçosa em direção ao céu. Sorri sem perceber. Casa tinha cheiro.
E a minha sempre cheiraria a carvão, pão de alho e domingo em família. Antes mesmo que o carro parasse completamente, a porta da frente se abriu.
Celeste apareceu primeiro.
Uma das mãos apoiava a barriga já bastante arredondada. A outra segurava Thomas, que tentava escapar de sua mão para correr até nós.
Ela ria.
Chorava.
Tudo ao mesmo tempo.
— Eles chegaram!
A voz atravessou a casa inteira.
Thomas conseguiu se soltar e veio correndo na nossa direção com as perninhas desajeitadas.
— Tio Noé!
Abaixei no mesmo instante.
Ele praticamente pulou nos meus braços.
— Nossa... você ficou pesado.
— Mamãe fala que eu tô fortão!
Ri.
— E ela tem razão.
Levantei os olhos.
Celeste já estava na minha frente. Ela não disse absolutamente nada.
Só me abraçou.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
