"Na vida, algumas escolhas nos transformam em heróis para alguém. Outras nos condenam a perder quem mais precisávamos salvar."
NOAH
Existe um momento depois da adrenalina em que tudo finalmente pesa.
Não é durante a briga.
Não é quando você acerta o primeiro soco ou escuta alguém gritando seu nome.
É depois.
Quando o silêncio chega.
Quando as mãos começam a tremer.
Quando a única imagem que insiste em permanecer na sua cabeça é a da pessoa que você quase perdeu.
Era exatamente assim que eu me sentia.
O ronco da minha caminhonete parecia distante enquanto eu encarava o para-brisa sem realmente enxergar a estrada à minha frente. Do lado de fora, a música da boate ainda ecoava, abafada pelas paredes, como se o mundo continuasse girando normalmente.
Mas o meu tinha parado.
Virei o rosto devagar.
Nina estava ao meu lado, com os braços cruzados sobre o próprio corpo. O vestido que ela usava estava um pouco amassado. Alguns fios de cabelo escondiam parte do seu rosto.
Ela olhava pela janela.
Distante.
E aquilo me incomodava mais do que qualquer hematoma que eu pudesse ganhar naquela noite.
— Nina...
Ela virou apenas o suficiente para me encarar.
— Hum?
Minha garganta secou.
Eu queria perguntar mil coisas. Se ele havia machucado ela. Se ela sentiu medo. E a mais assustadora de todas as dúvidas, se eu havia chegado tarde demais.
Mas nenhuma delas saiu.
— Você está bem?
Os cantos dos seus lábios se ergueram em um sorriso pequeno.
Fraco.
— Você já perguntou isso umas cinco vezes.
— E vou perguntar uma sexta, se for preciso.
Ela desviou o olhar.
— Estou bem.
Mentira.
Eu conhecia aquele olhar.
Ela sempre dizia que estava bem quando não queria preocupar ninguém. Desde pequena. Passei a mão pela nuca, tentando organizar meus pensamentos.
— Vamos embora.
Ela assentiu de leve.
— Tudo bem.
Dei partida no motor, mas antes de engatar a marcha ouvi sua voz novamente.
— E os outros?
Suspirei.
— Eles dão um jeito.
— Noah...
— Eu não vou deixar você voltar lá.
Ela me encarou por alguns segundos.
— Eu não quero voltar.
Meu peito aliviou um pouco.
— Ótimo.
— Mas...
Foi só uma palavra.
Uma única palavra.
E, ainda assim, bastou para que eu soubesse que ela havia lembrado de alguma coisa.
Seu rosto perdeu a cor.
Os olhos se arregalaram.
— A Julia...
O nome caiu dentro da caminhonete como uma bomba.
Fechei os olhos.
Merda.
Julia.
Ela tinha ficado lá.
Sozinha.
Meu olhar correu imediatamente para a entrada da boate. As pessoas continuavam entrando e saindo, completamente alheias ao caos que tinha acontecido minutos antes.
Voltei a olhar para Nina. Ela já havia entendido tudo. Compreendido exatamente o que estava acontecendo dentro de mim. Minha respiração ficou pesada.
Se eu voltasse...
Deixaria Nina sozinha.
Se eu ficasse...
Estaria abandonando Julia.
Nunca uma decisão pareceu tão impossível.
— Vai.
A voz de Nina rompeu o silêncio.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Noah...
— Não.
Ela respirou fundo.
— A Julia está lá dentro.
— E você está aqui.
— Eu consigo chamar um carro.
— Depois do que aconteceu? Nem pensar.
Ela sorriu.
Mas não era um sorriso feliz.
Era o sorriso de quem já tinha tomado uma decisão.
— Você nunca mudou.
Franzi a testa.
— O que quer dizer?
Ela sustentou meu olhar.
E, pela primeira vez desde que nos reencontramos, não havia medo, ironia ou qualquer tentativa de esconder o que sentia.
Só havia verdade.
— O Noah por quem eu me apaixonei... nunca deixaria alguém para trás.
Meu coração falhou uma batida. O ar simplesmente desapareceu dos meus pulmões.
Ela...
Se apaixonou por mim?
Desde quando?
Por quê?
Mil perguntas atravessaram minha mente ao mesmo tempo. Mas, nenhuma encontrou espaço para sair. Ela aproximou a mão da minha.
Seus dedos envolveram os meus com delicadeza. Como se aquele toque fosse uma despedida.
— Vá buscá-la.
Minha vontade era pegá-la para um abraço. Dizer que ela também precisava de mim. Que eu não queria deixá-la.
Mas Julia também precisava. E isso me partia ao meio.
— E você?
Sua expressão suavizou.
— Eu vou ficar bem.
Ela respirou fundo antes de completar, quase num sussurro:
— Porque eu sei que esse é o homem que você é.
Engoli em seco.
Abri a porta da caminhonete. Antes de sair, olhei mais uma vez para ela.
Nina sorriu. Daquele jeito doce que sempre teve. E fez um pequeno gesto com a cabeça. Como quem dizia que estava tudo bem.
Corri.
Atravessei o estacionamento praticamente sem sentir meus pés tocarem o chão.
Empurrei a porta da boate e mergulhei novamente na música alta, nas luzes piscando e na multidão.
Eu precisava encontrar Julia.
Não fazia ideia de que, do lado de fora, enquanto eu tentava salvar uma amiga...
A mulher que sempre esteve destinada a mudar a minha vida escolhia, pela primeira vez, deixá-la seguir sem ela.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
