Capítulo 20 - Entre Ficar e Partir

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"Na vida, algumas escolhas nos transformam em heróis para alguém. Outras nos condenam a perder quem mais precisávamos salvar."

NOAH

Existe um momento depois da adrenalina em que tudo finalmente pesa.

Não é durante a briga.

Não é quando você acerta o primeiro soco ou escuta alguém gritando seu nome.

É depois.

Quando o silêncio chega.

Quando as mãos começam a tremer.

Quando a única imagem que insiste em permanecer na sua cabeça é a da pessoa que você quase perdeu.

Era exatamente assim que eu me sentia.

O ronco da minha caminhonete parecia distante enquanto eu encarava o para-brisa sem realmente enxergar a estrada à minha frente. Do lado de fora, a música da boate ainda ecoava, abafada pelas paredes, como se o mundo continuasse girando normalmente.

Mas o meu tinha parado.

Virei o rosto devagar.

Nina estava ao meu lado, com os braços cruzados sobre o próprio corpo. O vestido que ela usava estava um pouco amassado. Alguns fios de cabelo escondiam parte do seu rosto.

Ela olhava pela janela.

Distante.

E aquilo me incomodava mais do que qualquer hematoma que eu pudesse ganhar naquela noite.

— Nina...

Ela virou apenas o suficiente para me encarar.

— Hum?

Minha garganta secou.

Eu queria perguntar mil coisas. Se ele havia machucado ela. Se ela sentiu medo. E a mais assustadora de todas as dúvidas, se eu havia chegado tarde demais.

Mas nenhuma delas saiu.

— Você está bem?

Os cantos dos seus lábios se ergueram em um sorriso pequeno.

Fraco.

— Você já perguntou isso umas cinco vezes.

— E vou perguntar uma sexta, se for preciso.

Ela desviou o olhar.

— Estou bem.

Mentira.

Eu conhecia aquele olhar.

Ela sempre dizia que estava bem quando não queria preocupar ninguém. Desde pequena. Passei a mão pela nuca, tentando organizar meus pensamentos.

— Vamos embora.

Ela assentiu de leve.

— Tudo bem.

Dei partida no motor, mas antes de engatar a marcha ouvi sua voz novamente.

— E os outros?

Suspirei.

— Eles dão um jeito.

— Noah...

— Eu não vou deixar você voltar lá.

Ela me encarou por alguns segundos.

— Eu não quero voltar.

Meu peito aliviou um pouco.

— Ótimo.

— Mas...

Foi só uma palavra.

Uma única palavra.

E, ainda assim, bastou para que eu soubesse que ela havia lembrado de alguma coisa.

Seu rosto perdeu a cor.

Os olhos se arregalaram.

— A Julia...

O nome caiu dentro da caminhonete como uma bomba.

Fechei os olhos.

Merda.

Julia.

Ela tinha ficado lá.

Sozinha.

Meu olhar correu imediatamente para a entrada da boate. As pessoas continuavam entrando e saindo, completamente alheias ao caos que tinha acontecido minutos antes.

Voltei a olhar para Nina. Ela já havia entendido tudo. Compreendido exatamente o que estava acontecendo dentro de mim. Minha respiração ficou pesada.

Se eu voltasse...

Deixaria Nina sozinha.

Se eu ficasse...

Estaria abandonando Julia.

Nunca uma decisão pareceu tão impossível.

— Vai.

A voz de Nina rompeu o silêncio.

Balancei a cabeça.

— Não.

— Noah...

— Não.

Ela respirou fundo.

— A Julia está lá dentro.

— E você está aqui.

— Eu consigo chamar um carro.

— Depois do que aconteceu? Nem pensar.

Ela sorriu.

Mas não era um sorriso feliz.

Era o sorriso de quem já tinha tomado uma decisão.

— Você nunca mudou.

Franzi a testa.

— O que quer dizer?

Ela sustentou meu olhar.

E, pela primeira vez desde que nos reencontramos, não havia medo, ironia ou qualquer tentativa de esconder o que sentia.

Só havia verdade.

— O Noah por quem eu me apaixonei... nunca deixaria alguém para trás.

Meu coração falhou uma batida. O ar simplesmente desapareceu dos meus pulmões.

Ela...

Se apaixonou por mim?

Desde quando?

Por quê?

Mil perguntas atravessaram minha mente ao mesmo tempo. Mas, nenhuma encontrou espaço para sair. Ela aproximou a mão da minha.

Seus dedos envolveram os meus com delicadeza. Como se aquele toque fosse uma despedida.

— Vá buscá-la.

Minha vontade era pegá-la para um abraço. Dizer que ela também precisava de mim. Que eu não queria deixá-la.

Mas Julia também precisava. E isso me partia ao meio.

— E você?

Sua expressão suavizou.

— Eu vou ficar bem.

Ela respirou fundo antes de completar, quase num sussurro:

— Porque eu sei que esse é o homem que você é.

Engoli em seco.

Abri a porta da caminhonete. Antes de sair, olhei mais uma vez para ela.

Nina sorriu. Daquele jeito doce que sempre teve. E fez um pequeno gesto com a cabeça. Como quem dizia que estava tudo bem.

Corri.

Atravessei o estacionamento praticamente sem sentir meus pés tocarem o chão.

Empurrei a porta da boate e mergulhei novamente na música alta, nas luzes piscando e na multidão.

Eu precisava encontrar Julia.

Não fazia ideia de que, do lado de fora, enquanto eu tentava salvar uma amiga...

A mulher que sempre esteve destinada a mudar a minha vida escolhia, pela primeira vez, deixá-la seguir sem ela.

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